UM UNIVERSO PARALELO

O processo Cartão Vermelho, de forma mais direta, e o processo Fora de Jogo, que marcará, cada vez com maior intensidade, a agenda jurídico desportiva até ao final de 2021, evidenciaram uma realidade de que se falava à boca pequena, mas que, por falta de provas concretas, nunca foi devidamente esmiuçada.

Estou a falar do universo paralelo dos agentes que nunca são visita das primeiras páginas dos jornais e dos telejornais, donos de inúmeras empresas, que ao mesmo tempo mantém, relações de grande proximidade com dirigentes de clubes ou seus familiares, e que se encarregam, sobretudo, daquelas transferências em que quase ninguém, repara, de jogadores que são promessas (ou nem isso), mas que, no fim do ano, fazem movimentar muitos milhões de euros em comissões.

Quanto valem, os direitos desportivos de um jogador de futebol? Quando se fala dos mais consagrados, o mercado já estabeleceu um padrão, mesmo assim suscetível de deixar uma grande margem, de aleatoriedade um jogador tanto pode valer, imagine-se, 60 milhões ou 65 milhões, depende dos dias, mas a diferença, muitas vezes considerada despicienda, são cinco milhões de euros, uma fortuna.

Já no que respeita ao chamado jovem, promissor, que entra sem alarido nos juniores, nos B ou nos sub-23, ninguém, questiona se tiver custado apenas dois ou três milhões, um “investimento no futuro”, segundo quem, faz o negócio.
Só que. grão a grão, enche a galinha o papo, e é assim que chegamos a níveis de faturação, nessas inúmeras empresas dos agentes que são próximos dos dirigentes, verdadeiramente astronómicos. Quem, paga? Os clubes. E os sócios, com o barulho das luzes, nem se apercebem do que está a acontecer.

Nos próximos temos, a propósito do processo Cartão Vermelho e do que mais virá a seguir, noutras latitudes, esta realidade tornar-se-á tão evidente que haverá que tomar medidas, aumentando exponencialmente os meios de controlo e transparência.

O mundo o futebol, por onde circula demasiado dinheiro fácil, tem sido alvo de especuladores que mais não pretendem do que servirem-se dele como lavandarias ou placas giratórias de tráfico de jogadores.

O futebol, por uma questão de sobrevivência, precisa de criar mecanismos que o defendam.

Orlando Fernandes (jornalista)

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