Treinador de formação de futebol

Ser treinador de formação implica paciência, sabedoria. Ser duro quando se tem de ser ou afável no momento certo. Costumo dizer que temos de ser polícias, amigos, pais, irmãos.

Existe uma grande parte de clubes amadores/distritais que trabalham no âmbito da formação que não colocam na liderança técnica aquilo que eu acho que deveriam ser os melhores treinadores de formação. As razões são mais que muitas mas a que normalmente serve de desculpa é a de que o melhor treinador, ou o que acham que será o mais capaz que existe na zona, assume a equipa sénior ou é caro para a formação, esquecendo que as verbas municipais sevem apenas e só para a formação, quando ela existe.

Para treinar os escalões mais jovens, escolhem normalmente ex-atletas, curiosos, diretores ou pessoas interessadas, na maior parte das vezes sem qualquer formação técnica e científica para poder fazer uma formação decente com tudo que implica esse adjetivo.

Também acho que para ser um bom treinador não basta frequentar cursos de formação, ter sido jogador (ainda que ajude) ou assistir aos debates quase diários que as nossas televisões nos presenteiam até a exaustão, muitas vezes com teorias que nem ao diabo lembraria. Isso tudo não dá lhes dá as competências necessárias para exercer esta tão fantástica e apaixonante atividade. Aliás parece ser já opinião corrente a necessidade de reformular os conteúdos e os referenciais da nossa formação desportiva. A Federação Portuguesa de Futebol, através das suas associações, tem criado, frequentemente, ações de formação de todas as formas possíveis e imaginárias que têm tido um papel importantíssimo tendo em vista esse objetivo.

Mesmo com tudo isso, para se ter algum sucesso não basta ter conhecimentos profundos da modalidade. Precisa também de se ter a capacidade de saber comunicar, de saber ensinar e, ainda, apresentar as informações de forma a que todos os jogadores possam entender, aprender e colocar em prática, de forma correta, toda a aprendizagem.

Para nós, treinadores de formação, temos de ter como objetivo principal a progressão individual dos jogadores. Muitas vezes fugimos a essa regra devido não só à enorme vontade de ganhar jogos. Algo que não deveria existir, mas infelizmente vemos acontecer com bastante frequência, também por força das exigências de direções que acham que ganhando, em grande parte não olhando a meios, justificam aos patrocinadores o seu investimento e mostram aos pais, sempre gananciosos, falsos modestos e cientes que o seu fruto é sem duvida o melhor, que ganhar é o caminho para o futuro da sua cria.

Precisamos ter paciência e dar mais tempo de jogo àqueles que mais precisam, vulgo, aqueles que menos preparados estão para o jogo. Todos nós queremos obter resultados imediatos em tudo quanto fazemos, mas, para um treinador de formação, o melhor resultado é o aperfeiçoamento e a valorização do jogador, tenho como certeza ser esse o caminho.

Para isso há que cumprir regras fundamentais, tais como progredir no ensino, começando pelo mais simples e mais básico, aquilo que vulgarmente chamamos de ABC.

Na minha opinião, a chave do sucesso é organizar sequências e tipos de ensino onde sejam frequentes os desafios exigentes adaptados às capacidades e qualidades dos atletas, mas que sejam possíveis de alcançar.

E, para executar com sucesso, qualidade e eficácia é necessário repetir para consolidar todas estas aprendizagens. Ter também consciência de que os ritmos de aprendizagens são bastante variáveis já que uns aprendem mais rápido que outros.

Neste contexto, o treino individual é muito importante e para jogadores menos qualificados ajuda a aperfeiçoar mais rápido toda a execução do gesto técnico.

Ser paciente, explicar, demonstrar se possível e depois corrigir, sendo que um elemento que define o treinador não é o seu conhecimento, mas sim aquilo que consegue transmitir e ensinar aos seus atletas.

Li algures que “Treinar a formação não é trabalho para qualquer um. Treinar é educar e intervir de uma forma cuidada e organizada na criação de bons hábitos desportivos e na aquisição de valores de cooperação, responsabilidade e solidariedade, promovendo um espírito leal e competitivo.” – concordo absolutamente

Dou por mim a refletir sobre o assunto e achar que um bom treinador de formação é aquele que evita o abandono precoce do atleta, que incentiva assiduamente a ambição dos jogadores, que aproveita os jogos teoricamente mais acessíveis para dar tempo de jogo aos atletas menos qualificados e ajuda a conciliar os estudos com a atividade desportiva.

Sendo assim, neste cenário necessitamos na formação desportiva de jovens atletas, treinadores que reúnam todas estas características para que, no futuro, tenhamos atletas mais bem formados e capazes de alcançar os seus objetivos individuais e coletivos.

Gilberto Vicente (Treinador de futebol)

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