Seja o que Deus quiser!

Muitas vezes em Portugal ouvimos a máxima: “A nível de dirigismo estamos perdidos”. Ouvimos isto entre dirigentes, entre membros de instituições com responsabilidades no futebol, ouvimos de árbitros, ouvimos de treinadores, jogadores e adeptos. Acho que desta vez batemos no fundo e tenho de concordar com esta máxima. A FPF deu carta às associações para definirem os “campeões” dos seus distritos, seja pela via da secretaria, seja em campo. Algumas cancelaram os campeonatos e arranjaram uma forma de decidir quem subia, e depois temos o grupo dos “heróis aka chicos-espertos”, algo que em que já vamos sendo especialistas no nosso país.

A pandemia já matou milhares no nosso país, jovens e idosos, pessoas com doenças e com saúde, familiares, amigos e conhecidos, mas eis que mais uma vez queremos apagar um fogo com gasóleo. Como é possível os campeonatos continuarem sem testes? Mas esta malta que toma decisões tem alguém na família que já teve o covid? Já viu alguém sofrer? Já viu alguém morrer por causa do covid? Os jogadores profissionais são testados todas as semanas, têm condições de higiene máximas nos clubes e mesmo assim existem casos, alguns em grande massa como o Benfica por exemplo (só para dar o exemplo do clube do povo). E no distrital em que as pessoas têm convívio com outras pessoas na sua vida pessoal e profissional e não se dedicam só ao futebol não há testes? Somos o espelho do nosso país e só temos o que merecemos. Os entendidos dirão: “temos de saber viver com o vírus”. Nada mais errado!

Tenho pena que as Associações tenham este tipo de propostas para os clubes, tenho pena que os clubes estejam de acordo e ainda façam pressão nesse sentido (principalmente os que querem subir à força e têm sede de protagonismo!), e mais: tenho pena que os treinadores e os jogadores (nem que fossem só os capitães de equipa) não tenham sido convidados a participar neste debate e a darem o seu parecer sobre a retoma do campeonato, assim como os moldes em que vão prosseguir, uma vez que estes é que “vão lá para dentro” e estão a ser tratados como “carne para canhão”. Vamos às grandes decisões da AF Vila Real e vamos aos problemas:

1º – Campeonato de 8 equipas a apenas uma volta, onde uns vão jogar mais vezes em casa do que outros. Não seria melhor fazer os jogos em campo neutro? Até por uma questão de viagens e distâncias era melhor, até podiam ser usados os campos das equipas da AF Vila Real que finalizam agora a 1ª fase do Campeonato de Portugal. Um Régua-Sabrosa podia ser no Campo do Calvário, um Ribeira de Pena-Vila Pouca em Chaves, um Abambres-Santa Marta no Monte da Forca, um Vilar de Perdizes-Cerva nas Pedras Salgadas ou em Vidago, um Ribeira de Pena-Cerva em Mondim…É assim tão difícil? Não se compreende.

2º – Apenas duas semanas para treinar depois de 3 meses parados? É para rebentar os jogadores? Para haverem lesões a torto e a direito em planteis curtos? Pessoas com uma vida extrafutebol? Como é possível?

3º – Jogos de taça? Não podiam somente indicar o 2º classificado para esse lugar? E ainda por cima com jogos a meio da semana…Como é possível?

4º – Jogos a meio da semana. Se houver um Santa Marta-Vilar Perdizes a uma quarta-feira às 20h, e sabendo que às 19h têm de estar no estádio, a que horas saem os jogadores visitantes da sua localidade? A que horas saem dos seus trabalhos? Vão pedir ao patrão para sair? A que horas esta gente se vai deitar para ir trabalhar no dia seguinte? Até na recuperação dos atletas isto os vai afetar, e com a densidade competitiva em que isto vai acontecer, e só com 2 semanas de preparação. Isto pode acontecer num Régua-Cerva ou num Ribeira de Pena-Sabrosa, em que quase todas as viagens de autocarro demoram mais de 1h. Como é possível?

5º – Jogos de noite? Com a fraca iluminação que os campos têm? É só para jogarem em horário de Liga dos Campeões? Podem vir com a conversa dos campos terem passado nas vistorias, mas temos sabemos as verdades. Como é possível?

6º – Não ficou definido o que fazer em caso de alguma equipa ter casos de Covid. Não se sabe se o jogo ficará adiado e podemos cair no risco de acabar em Agosto a jogar, não se sabe se a equipa que tem casos perde o jogo. Não se sabe nada. Mas tem lá uma informação tão hilariante que creio que nem os grandes humoristas do nosso país teriam imaginação para a dizer por mais engraçada que fosse. Se porventura o campeonato tiver de parar com o avançar da pandemia (algo que pode acontecer) é declarado “campeão” quem estiver em primeiro ao fim de 3 jornadas. Mas se ainda não tiverem decorridas essas 3 jornadas o “campeão” será outro. Tanto se falaram em vagas durante a quarentena que é caso para dizer que podemos ter o “campeão da 1ª vaga” e o “campeão da 2ª vaga” e até de uma semana para a outra. Como é possível?

7º – pelos vistos ainda não há certezas quanto à inscrição de novos jogadores, sejam eles vindos da distrital ou do Campeonato de Portugal, para jogarem esta fase de campeão. Imaginem o que é, com o fim da primeira fase do Campeonato de Portugal, qualquer equipa do distrital ir buscar quase uma equipa nova só de malta do CPP para cá virem cá “abaixo” 2 mesitos e ganharem isto como se costuma fazer nos torneios de verão? Pelos vistos os clubes ainda não têm essa informação, para variar, portanto. Ninguém devia poder contratar ninguém. Ponto final.

Tenho pena que isto seja assim, tenho pena que ande tudo ao “Deus dará”, tenho pena de ver pessoas a quererem isto como se de o pão para a boca precisassem. Se algo acontecer quero ver quem é que vai dar a cara. No final a responsabilidade é sempre dos clubes e os prejudicados são sempre “quem anda lá dentro”. Foi com tristeza que li na imprensa local, os responsáveis dos clubes a mostrarem a sua aceitação acerca deste modelo, pelos vistos “é a melhor decisão e é o modelo que melhor se enquadra”.

A FPF pelos vistos também não quer vir “arrumar a casa”. Andam entretidos em arranjar uma forma de calar os clubes com a confusão das não descidas dos clubes da Madeira. Estamos perdidos neste país de cunhas, de compadrios, de promiscuidade, de amigos e de jeitinhos. Até tenho dúvidas se gostamos verdadeiramente do futebol.

Protejam-se e seja o que Deus quiser!

Diogo Castela (Treinador de futebol)

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