Os sonhos concretizam-se

Na semana passada fechei o meu artigo de opinião com o seguinte parágrafo: “Os feitos recentes dos Heróis do Mar, juntando-se à vontade férrea dos seus colegas homenagearem Alfredo Quintana, que também fazia parte deste sonho olímpico, dá-me a confiança de acreditar que o Andebol Português poderá escrever outra página gloriosa, dando uma alegria enorme a esta família do Andebol e a todo o país, que choram ainda o trágico acontecimento”.

E Adriano acreditavas mesmo que era possível? Sim acreditava, também faço parte destes “loucos do Andebol”.

O cenário era muito difícil, os adversários, o momento anímico, as muitas ausências, mas como o grande comandante destes Heróis do Mar, Paulo Jorge Pereira diz, o nosso principal adversário somos nós próprios, está na nossa cabeça. E assim foi. Na sexta-feira, frente à teoricamente mais acessível Tunísia, conseguimos provar em campo, que o foco estava ali e podíamos alimentar o sonho, vencendo clara e inequivocamente os africanos por 34/27.

No segundo dia, depois dos croatas terem perdido contra a anfitriã França, jogamos contra os que são vice-campeões da europa e já foram campeões do mundo e olímpicos e, caso vencêssemos, fechávamos já ali as contas. A primeira parte do jogo correu muito bem e vencíamos ao intervalo por 12/9. Se a primeira parte foi muito boa para nós, a segunda começou ainda melhor e aos 5 minutos vencíamos já por 16/10! Nessa altura, aquando do desconto de tempo croata, para tentarem que o jogo não ficasse logo ali resolvido a nosso favor, o meu filho, diz-me o seguinte: “Pai, os sonhos concretizam-se”. Do alto dos seus 8 anos de experiência, perentoriamente afirmou isto mesmo e eu também estava convicto que, embora não fosse certo, estaria muito perto de o ser.  A partir daí a vontade férrea dos portugueses começou a ser insuficiente para combater com outras vontades! Sim, isso mesmo, foram-nos “empurrando” paulatina e sucessivamente para mais longe do sonho, permitindo aos ultra experientes croatas vencer sobre a meta. O jornalista do jornal O Jogo, Rui Guimarães, escreveu o seguinte elucidativo título “Os Croatas precisaram de ajuda”. O Sonho ficaria adiado. 

A madrugada de sábado foi difícil, muito difícil e, logo pelas 6 e tal da manhã, depois de uma noite, por causa da revolta, mal dormida, revi os últimos 25 minutos do jogo. Se a revolta ao levantar era muita, depois de rever foi ainda maior, estando mais atento aos pormenores. O domingo foi logo, pois se nos dias anteriores jogamos às 17:30 a decisão seria só às 20 horas. Durante o dia falei com muitos amigos do Andebol, dos tais que acreditavam no sonho! Na retina de todos estavam dois cenários: ou vamos com uma revolta tal, por tudo o que nos tem acontecido e vamos ganhar à França e apuramo-nos, ou, se começa a correr mal, pode ser um descalabro total.

Chegados ao decisivo Portugal / França, jogado em França, depois de há menos de 2 meses termos perdido com esta mesma França por 32/23 no Campeonato do Mundo, o tal cenário de descalabro chegou a temer-se pois a França superiorizou-se nos minutos iniciais chegando aos 7/2. Mas não seria essa a nossa história. Os Heróis do Mar centraram-se no processo e lenta e consolidadamente foram recuperando, chegando ao intervalo a perder pela margem mínima, 12/13. Na segunda parte, entramos bem, chegando logo ao empate e o resultado foi alternando entre a vantagem mínima francesa e o empate. No momento das decisões, temeu-se que mais uma vez iríamos adiar o sonho, pois a 4 minutos do fim, perdíamos por 28/25. Mas “estava escrito”, que nós, todos os loucos do Andebol mereciam continuar a chorar, mas agora de alegria. A 1 minuto e 10 segundos do fim, com os franceses com posse de bola já o Hélder Marques de Sousa, “apaixonado” narrador da RTP dizia o seguinte “situação muito difícil, Portugal já dificilmente ganha este jogo, os franceses são muito experientes”, logo corroborado pelo professor Jorge Tormenta, o mais antigo comentador desportivo da televisão pública. Já com menos de 1 minuto para acabar, nova defesa de Capdeville e no ataque empatamos, quando faltavam 43 segundos para o fim. Naturalmente que os franceses utilizaram o time-out para preparar os segundos finais. Portugal não só tinha que evitar que eles marcassem, como tinha ainda que marcar. Naturalmente que os franceses tentaram “gastar” o tempo, mas a exatos 10 segundos de acabar, Rui Silva interceta um cruzamento francês e sai em contra-ataque marcando a 5 segundos do fim, passando para a frente! Mesmo assim os franceses ainda repõem rápido e marcam, mas já depois de ter soado o apito final.

Foi a loucura, loucura total. Aos berros, a chorar compulsiva e descontroladamente gritava, julgo eu, algo do género: “Sim filho, os sonhos concretizam-se”. A minha esposa, entretanto teve que ir em “socorro” da minha pequenina, pois perante o pai louco aos gritos, assustou-se de tal forma, que correu em choro. E agora vou falar com quem? Sem dúvida alguma a primeira pessoa com quem queria falar, foi o eterno Presidente da Federação Luís Santos, outro “louco”, este mais ainda, pois o sonho do Luís Santos, do Andebol Português ser olímpico, vinha já desde o mundial organizado no nosso país em 2003!

Depois disso o telefone primeiro, as mensagens e as redes sociais depois não pararam. Falei, chorei, gritei com os muitos dos loucos, daqueles que acreditavam no sonho. Ricardo Grilo, José Rui Taboada, Rui Morais, António Melo, Nuno Tunes, Augusto Silva, Pedro Granja, Pedro Sequeira, Paulo Sá, Bernardo Novo, Luís Covas, António Cunha, Jorge Tormenta, etc.Tinha que falar com alguém dos nossos heróis em terras gaulesas, mas mesmo depois de várias tentativas de falar com o Presidente Miguel Laranjeiro, ocupado com os compromissos institucionais, só trocamos umas mensagens já às 2 da manhã. Mas falei mesmo com quem lá estava, e quem melhor que o nosso capitão da armada lusitana, Tiago Rocha. Falei, dei os parabéns, gritei e festejei com o amigo capitão. Falei ainda com o Miguel Fonseca e com o Tiago Oliveira da equipa técnica nacional no mesmo tom.

Depois naquela noite e também de madrugada, antes ou depois de um muito leve e rápido fechar de olhos, troquei mensagens com os colegas das Associações Regionais e mais tarde com o Paulo Fidalgo, o Telmo Ferreira, o Paulo Catarino e com o “comandante” Paulo Jorge Pereira.

Na segunda-feira parecia um miúdo com um brinquedo novo. Sorriso estampado, alegria imensa. O sonho era mesmo real, o Andebol Português era Olímpico. Já estava nos jornais, nas rádios e nas televisões (devia estar mais ainda julgo eu).

Faltava-me falar com alguém muito importante na minha vida como homem do Andebol. E não, não era com um português, mas sim um espanhol, Manolo Laguna, mas que ama Portugal e tem também o Andebol português no coração. Pedi-lhe então o seguinte no nosso “portunhol” com que tão bem nos entendemos “Manolo, no qieres escribir algo que te ocurre acerca do echo de ayer do Andebol português”? Si lo quires, claro. Lo escribo ahora mismo y te lo mando, resposta pronta do Manolo.

E assim foi tendo escrito e enviado, com o seguinte recado “corrige tú, lo que no esté bien”, porque teve o cuidado de escrever em castelhano, mas enviar também com a tradução “googlada” para português:

“ELES FIZERAM ISTO! Os sonhos são o motor que nos move, e ontem um dos meus antigos sonhos tornou-se realidade.  Para continuar a sonhar, terei que atualizá-los. Mas não se preocupem, pois, imaginação é algo que nunca me faltou. Nunca contei a ninguém, mas quando cheguei a Portugal em 2001, para trabalhar com as seleções jovens tive uma ideia na cabeça: “os treinadores que vêm de fora são pássaros de passagem, o melhor que posso dar é ajudar a deixá-los que conduzam eles próprios a sua atividade.  O andebol português estará entre os melhores do mundo, quando forem eles próprios os responsáveis ​​pelo seu desenvolvimento. Comecei assim a trabalhar lado a lado com os meus colegas portugueses e eles deixaram de ser meus colegas e tornaram-se meus amigos. Quando terminei o meu trabalho em Portugal, os dirigentes ainda confiavam o seu andebol de alto nível a treinadores estrangeiros. Finalmente mudaram de política e deram as rédeas aos treinadores portugueses. A minha confiança neles é infinita, porque os conheço, e a sua progressão tem sido espetacular. Nos últimos anos, com a ajuda de Paulo Jorge Pereira, afirmaram-se entre as melhores equipas do mundo, mas ontem, tudo ficou mais evidente ainda, com a qualificação olímpica. Parabéns amigos, vocês fizeram e fizeram sozinhos, vocês realizaram um dos meus sonhos e, além disso, confirmou-se a minha convicção de que a vossa “autonomia” era a chave do sucesso. Eu só tenho que me levantar, e bater palmas, com um grande sorriso no rosto, e é isso que eu faço.”

Muito obrigado Manolo por fazeres crescer a minha paixão pelo nosso Andebol com as tuas “formações” diárias a cada dia de trabalho contigo, muito obrigado Luís Santos por me ter, levando-me para as seleções jovens, permitido conhecer o Manolo, muito obrigado doutor Lourenço Costa, por me ter passado e feito tornar eterna a minha paixão pelo Andebol.

E agora? Agora eu, e cada um dos loucos do Andebol, tudo continuarão a fazer para que o sonho seja sempre alimentado e que a base seja sustentável. Mas precisamos que no nosso país e ainda mais agora, quando se der a ansiada retoma da atividade física e desporto seja apoiado.

Darei tudo, dentro das minhas funções, para que haja mais Andebol na AD Godim, no SVR Benfica, no Bairro Latino, no SC Vila Pouca de Aguiar, em Murça, em Valpaços, em Alijó, em Mesão Frio, que regresse ao Alves Roçadas e a Chaves, pois lá há também outros “loucos” para pôr o andebol em movimento e que se espalhe por todos os concelhos do meu distrito e por esse país fora. Farei tudo para que o Andebol ganhe a expressão que merece nas nossas escolas, no nosso Desporto Escolar, para que os nossos Heróis do Mar tenham, sempre, atrás deles uma base sólida e sustentável e que em cada braço de remate, esteja “tatuada” a memória do nosso Alfredo Quintana, como fez o Rui Silva, concretizando o sonho de tantos.

OBRIGADO Heróis do Mar.

Adriano Tavares (Presidente Associação de Andebol de Vila Real)

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