Opinião: Sport Clube Vila Real-100 anos a representar Trás-os-Montes

Há 100 anos que o Sport Clube Vila Real transporta consigo a ambição centenária de honrar o futebol transmontano.

Clube que disputou o extinto Campeonato de Portugal, que antecedeu a Taça de Portugal nas décadas de 20 e 30, já esteve muito perto de disputar a Primeira Divisão Nacional, viveu anos de muito bom nível nas décadas de 30 e 40, conquistou várias promoções à 2ª Divisão Nacional nas duas décadas seguintes, mas desde 1978 que nunca mais regressou ao segundo escalão do futebol português.

A história mais recente do clube é marcada, na década de 90, por uma fase em que estabilizava entre a 2ª Divisão B e a 3ª Divisão Nacional, e uma última vintena de anos em que a própria manutenção nos nacionais é o objetivo prioritário de um clube que, em contrapartida, vai amealhando conquistas nas competições distritais.

OS PRIMEIROS PASSOS NO FUTEBOL NACIONAL E A AFIRMAÇÃO NA 2ª DIVISÃO

Fundado a 20 de maio de 1920, o Sport Clube Vila Real sempre foi «alvi-negro», com uma camisola preta e branca dividida por uma linha vertical a meio, e calções brancos. O emblema era a Cruz de Cristo, com a espada que simboliza a cidade. O Campo do Calvário foi a sua mítica primeira casa, antes da mudança para o atual Monte da Forca.

Destacando-se na sua projeção entre as várias coletividades vila-realenses da altura, o “Bila”, como é carinhosamente conhecido, começou a participar no já extinto Campeonato de Portugal (antecessor da Taça de Portugal) em 1926, num «batismo de fogo» que ficou a cargo do FC Porto, que goleou os transmontanos por dez golos sem resposta, num desafio disputado no Campo do Covelo, no Porto, a 9 de setembro desse ano. Nos anos seguintes, o Vila Real não conseguiria superar a primeira eliminatória da competição até à época de 1933/34, na qual eliminou o Boavista (2-1), antes de «cair» nos oitavos-de-final diante do Belenenses (1-10 e 0-4).

As décadas de 30 e 40 ficam marcadas por várias boas participações na 2ª Divisão Nacional, com especial destaque para a temporada de 1943/44. Enquanto o Mundo se debatia com a 2ª Guerra Mundial, a equipa orientada pelo húngaro Desiderio Hertzka esteve muito perto de chegar à 1ª Divisão Nacional. Depois de um segundo lugar na Série 1 do Grupo A da competição, o Vila Real faria uma grande campanha na fase final, e depois de eliminar o Académico (6-0), e o Famalicão e o União de Coimbra pelo mesmo resultado (5-3), o Vila Real perdeu na final com o Estoril (2-3) e, apesar de atingir um dos maiores feitos da sua história, não conseguiu chegar ao convívio dos «grandes» do futebol nacional.

É também nestes anos que orienta a equipa um outro húngaro, Lippo Hertzka, técnico que foi autor de um fantástico percurso, marcado por passagens por Benfica, FC Porto, Real Madrid, Sevilha ou Atlético de Bilbau, e conquista de títulos de campeão nacional em Portugal e Espanha.

O TÍTULO NACIONAL E OS ANOS NA 2ª DIVISÃO

A segunda etapa da vida do Vila Real é marcada pela conquista de um título nacional, e por excelentes prestações nos campeonatos nacionais de futebol, com presenças habituais na 2ª Divisão Nacional até 1978.

Foi em 1952/53 que, com efeito, o «Bila» comemoraria o seu título nacional da 3ª Divisão, no culminar de uma época muito bem conseguida em que só não venceu dois dos encontros oficiais que disputou. Ainda na década de 50, na temporada de 1956/57, o Vila Real sagrou-se vice-campeão nacional da 3ª Divisão, e em 1958/59, realiza uma das suas melhores campanhas de sempre na Taça de Portugal, onde apenas é eliminado nos oitavos-de-final frente ao FC Porto (0-1 e 1-6).

Entre os anos 50 e 70, o Vila Real consolida-se como um emblema competitivo no futebol nacional, e acumula várias subidas de divisão e presenças na 2ª Divisão Nacional. Em 1952/53, 1956/57, 1960/61, 1963/64 e 1975/76, o «Bila» comemora subidas de divisão (na 3ª Divisão Nacional) e, em 1977/78, no mesmo ano em que chega aos oitavos-de-final da Taça de Portugal, despede-se definitivamente da 2ª Divisão Nacional, ao ficar em último na Zona Norte. Até hoje, não mais regressaria ao segundo escalão do futebol português.

É nestes anos que pontifica no «Bila» aquela que é, provavelmente, a grande «estrela» da sua história, Samuel Fraguito, internacional português que, antes de conquistar dois títulos de campeão nacional e duas Taças de Portugal ao serviço do Sporting, representaria o Vila Real até à época de 1969/70, quando seria recrutado para uma estadia de duas épocas no Boavista, que antecederam o seu ingresso definitivo nos «leões».

DOMINADOR NOS DISTRITAIS, INSTÁVEL NOS NACIONAIS

A partir da década de 80, inicia-se a etapa da história do Vila Real em que o trajeto do «Bila» é feito, em todas as épocas, pela incapacidade de regressar ao futebol profissional, ainda que as alegrias também se pudessem registar ao longo deste período.

Na Divisão de Honra da AF Vila Real, por exemplo, os títulos sucedem-se na história recente, existindo a sublinhar, para se ter uma ideia deste domínio, as conquistas das temporadas de 2007/08, 2010/11, 2013/14 e 2018/19. De referir igualmente que as três últimas edições da Taça AF Vila Real foram todas ganhas pelo «Bila», que também arrecadou as Supertaças distritais dos anos de 2017 e 2019. Outra das conquistas recentes do clube foi a Taça Transmontana, em 2018/19, num encontro em que Diogo Paixão marcou o único golo do encontro diante do Bragança já perto do final do encontro, e levou os vila-realenses a fazer a festa em Macedo de Cavaleiros, num 8 de junho de 2019 que ficará para a história.

A nível nacional, há três momentos a realçar, no que a campeonatos diz respeito. Em 1994/95, os «alvi-negros» celebram uma subida da 3ª Divisão à 2ª Divisão B, após terem sido despromovidos na época anterior. Desse plantel, o médio Tó Almeida sairia para o primodivisionário Estrela da Amadora, o guarda-redes Luís Póvoa chegaria ao futebol profissional, e o defesa Hélio Alves traria para a equipa a sua experiência na Primeira Divisão.

O segundo momento remonta a 1997/98, quando o Vila Real acabou no segundo lugar da Zona Norte da 2ª Divisão B. Por apenas seis pontos, a equipa onde se destacavam jogadores como Rosário, João Pedro, o campeão mundial de sub-20 José Xavier, Zé Monteiro ou Paulo Jorge, e jovens de grande valor como Armando Sá, Nuno Freddy, Schuster ou Miguel Ângelo, apenas baqueou perante o líder Esposende, com quem perdeu os dois jogos.

Em 2000/01, o título de campeão da 3ª Divisão Nacional. A Rosário, Nuno Freddy, Zé Monteiro, Carlos Pinto, Pimenta ou Gordilho, juntaram-se jovens como Vítor Murta, Danilo ou André Lisboa, numa equipa que não deu hipóteses na Série B e que, de acordo com o regulamento, foi declarada como campeã, à semelhança do que aconteceu com os restantes campeões de série dessa época (Taipas, Oliveira do Hospital, Benfica de Castelo Branco, Olivais e Moscavide, Amora e Lusitânia dos Açores).

Atualmente no Campeonato de Portugal, a crise sanitária ditou o cancelamento da presente edição da competição, e o Vila Real mantém-se nos nacionais por motivos claramente indesejados. Com uma crise diretiva a ensombrar o funcionamento do clube, estabilidade deseja-se. Para que se cumpram as ambições centenárias de um dos maiores clubes de Trás-os-Montes.

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