Opinião: Campeonatos Seniores de Futsal – A ditadura regressou

Pelos vistos, o “Salazarismo” desportivo voltou.

Estamos numa altura do: “nós mandamos, vocês obedecem”. Comam e calem…

Sinceramente, após o anúncio por parte da FPF cancelar todos os campeonatos não profissionais, senti um misto de emoções: alegria porque sem dúvida em 1º lugar estará sempre a saúde de todos os intervenientes, e nisso, todos estamos de acordo, pois não existe um valor calculável para a vida; por outro lado, senti nojo.

Nojo da incapacidade de quem pode decidir, de quem manda, por terem optado pela solução mais fácil. Nojo, por aqueles, que sendo filhos legítimos, mas não ouvindo os seus enteados, se deixaram ir na cantiga do bandido, acenando com a cabeça o “sim” esperado pelo “pai salazar”.

Estou farto.

Esta é a minha verdade e possivelmente a de muitos outros que pensam igual ou idêntico a mim. Farto de seguir um regulamento, que com interesses dúbios, vai contra si próprio, para favorecer quem se quer. Farto de promessas. Farto do: nós vamos fazer, mas depois, não fazemos nada. Farto de tudo o que tem atropelado a nossa modalidade em detrimento do futebol 11. Farto de ver a cada ano que passa cada vez mais injustiças a todos os agentes da modalidade, principalmente aos TREINADORES.

Para dar ênfase a este meu polémico artigo, deixo apenas algumas perguntas para os inteligentes que proliferam a voz da razão do “pai salazar”: “Vocês que decidiram pelo cancelamento das provas, não atribuindo títulos, subidas nem descidas nos campeonatos não-profissionais de futebol e futsal, que vão fazer, se infelizmente e como muitos cientistas apregoam (oxalá que não), se vier a 2ª vaga da pandemia em novembro ou dezembro? Vão também cancelar a época 2020-21? Vão também não deixar que quem se estruturou mais uma vez para subir, não o consiga? Vão continuar a protelar a ideia de não haver descidas e deixar em competição quem prevarica e não se estrutura como tal? Ou vão fazer diferente?”

Essas são as perguntas que deviam ter feito e não fizeram.

Tal como ouvir os clubes através das suas associações. Porque não basta enviar um email para os clubes a perguntar o que acham, se depois abanam com a cabeça em função do que o “pai salazar” decidiu. Aí é fácil para quem está nas associações, lavar as mãos, tal como “Pilatos” fez.

Querem soluções?

Porque não terminar os campeonatos quando se puder e houver condições?

Porque não alargar os modelos competitivos: 16 equipas na Liga Placard, 7 séries na 2ª divisão (as do continente com 13 equipas, a série açores com 10).

Não descem ninguém, mas pelo menos sobem quem merece ou quem está em 1º nos seus campeonatos distritais. Sobem duas equipas da 2ª divisão (uma a norte, outra a sul, as que contabilizaram mais pontos na fase regular. Existindo equipas com os mesmos pontos, vão à diferença de golos marcados e sofridos).

Porque beneficiar umas em detrimento de outras?

Será que uma ou mais equipas que não se reforçaram nem se estruturaram para subir ou manter, o vão fazer na época seguinte? Vão aprender com os erros é? São vocês capazes de dizer…

E aquelas que, com a corda no pescoço de multas e mais multas, mais a linha de crédito, mais seja lá o que for, vão ter capacidade financeira para aguentar mais uma época no nacional? Mais uma época com multas, com linha de crédito sem juros e com a despesa acrescente de época em questão?

Será que vão ter o treinador certificado com o grau? Será que vão conseguir ter os jogadores formados localmente? E a certificação, como vai ficar? Ou vão dar estrelas por vídeo conferência?

A mim só me importa e diz respeito o futsal. E apesar de e para vocês pouco importar a minha opinião, que vale o que vale, não me vão conseguir calar. Estou há mais anos eu nesta modalidade, do que aqueles que muitos de vocês na FPF, na ANTF, no IPDJ vão estar. Já passei por muitos e variados modelos competitivos. São 27 anos ininterrupto na modalidade, a jogar desde 1993, a treinar desde 2006.

Eu e muitos outros que vocês foram silenciando nestes últimos anos através dos créditos, temos voz. E fazemo-nos ouvir. Gostem ou não, vão ter de nos gramar. Se não for nos pavilhões, será na comunicação social.

Qual a lógica da FPF considerar a modalidade como não profissional e depois vir exigir, tal como o IPDJ, ANTF e agora também a ASAE, que os Treinadores tenham um certificado de treinador profissional?

Se estamos numa de mudança, mudem o que está mal.

Qual a lógica dos cartões amarelos no futsal? Se me dissessem que era para haver menos faltas, até engolia, só que os clubes já são penalizados por essas mesmas faltas. O cerne da questão está em poder ter decisão nas fases de manutenção da segunda ou ajudar os interesses na liga placard.

Outra questão, mais preocupante e pertinente tem a ver com a avaliação dos árbitros: porque é que os mesmos, para terem boa nota no final de um jogo, têm de mostrar muitos cartões, se grande parte deles, em muitos casos, nem precisam de o fazer para agarrar o jogo desde o início?

Querem mudar? Aproveitem e mudem algumas alíneas dos vossos regulamentos.

Há uma coisa que sempre serei: honesto ao futsal, isso sempre. E sempre serei crítico quando medidas como as que tomaram nos últimos anos em nada beneficiaram a modalidade ou os clubes.

Não tenho problema de ser crítico, mau era se não o fosse e se abanasse com a cabeça como as associações (parte delas, não todas), fazem.

É da minha competência, como agente desportivo e cidadão português, com intervenção no desporto e na sociedade, expressar a minha opinião, pois tenho as obrigações sociais em dia (pagamento de impostos por exemplo), tenho intervenção e ação no desporto, local, nacional e universitário.

Desejo e espero que a FPF, como Instituição de Utilidade Pública, na elaboração dos futuros quadros competitivos 2020/21 e 2021-22, tenha presente o espirito de JUSTIÇA e da EQUIDADE, baseada nos princípios da Constituição Portuguesa e Leis do Desporto, onde seja feita uma descriminação positiva relativamente aos clubes do interior de Portugal.

E esse espírito de justiça passa por ser justo com os clubes que se prepararam para subir, para agarrar os sonhos em que os jogadores desses clubes estão inseridos desde agosto de 2019. Existem projetos que foram delineados e preparados para vencer, obrigações com as pessoas, empresas, instituições. Onde vai caber tudo isso? Num caixote do lixo?

Não pode, não deve e não vai ser assim.

Mesmo que as associações não queiram ir contra o que foi instituído, os clubes devem unir-se e não olhar para o próprio umbigo. Não nos vamos calar, de forma alguma. Já fomos sendo calados algumas vezes, mas desta não nos vão calar.

Das duas uma: ou não querem alterar alguns modelos competitivos (2ª divisão e distritais com play off), que são uma autêntica bodega, ou não querem realizar o alargamento porque simplesmente não vai existir regresso da 3ª divisão em 2021-22, outra decisão que nunca deviam ter tido.

Todos os anos, mesmo após a realização da fase manutenção/descida da 2ª divisão, tem havido equipas a desistir de participar. Acham que este ano vai ser diferente só porque vão cancelar e decidir que não vão existir descidas? Ou vão estar à espera do último mês para convidar equipas, que sem saber se poderão ser convidadas, nunca se vão estruturar para tal?

Ou vão convidar equipas só para manter as séries como estão e não as alterar em função, de como aconteceu o ano passado com o Unidos Pinheirense? Podemos andar ao sabor do que têm querido, mas temos memória.

Tal como os cursos de Treinador. Como vão ficar aqueles que estavam a ser ministrados? Os treinadores que tinham chumbado vão ter outra hipótese? Ou vai-lhes ser restituído o dinheiro?

E os de Grau III? Porque não alterar de vez o paradigma e começar a ministrá-los no norte também? Ou no algarve, ou nas Ilhas?

Ou não interessa haver muitos treinadores de grau III?

Realmente só são 14 equipas na Liga Placard, mas se querem estruturar os clubes, façam por dar as mesmas condições a todos. Aliás, até aposto que um curso de grau III em Braga, Porto ou mesmo Vila Real iria ter mais inscritos que os de Lisboa/Rio Maior, ou mesmo aquele que foi feito à pressa na Covilhã.

De que vale a pena andar a enganar os clubes com a certificação, se vocês sabem que existem muitos problemas inerentes à mesma, principalmente nos clubes do interior. Porque querer começar as casas pelo telhado quando a vossa ajudar poderia ser totalmente diferente, para melhor.

Para reter, existe algo que esta infeliz pandemia trouxe: a união da malta do futsal. Com muitos preletores que são pagos nas ações de formação, nos seminários, nos cursos, a não ser pagos para falar de futsal. A serem iguais a todos os outros, porque online não existe grau que divida, existe apenas futsal. É pena estas excelentes ações não darem créditos. Fica a dica.

Para terminar: parem com a fantochada. Tinham, pelo menos, até meados de maio para tomar uma decisão mais coerente e mais assertiva. Ainda vão a tempo de mudar. Se não querem descidas para ficar bem vistos, pelos menos alarguem os campeonatos e estruturem com a 3ª, autorizem subidas e todos vão ficar a ganhar.

Para já, só e apenas uma certeza: ficar em casa é ganhar vidas.

Viva o Futsal.

Fernando Parente (Treinador de Futsal)

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