Opinião: Ai o Bruno Lage não é bom agora?

A loucura de passar um treinador de bestial a besta e vice-versa, sem saber olhar globalmente para o trabalho desenvolvido e o contexto em que as prestações das equipas ocorrem, é a raiz da impossibilidade de desenvolver projetos desportivos sérios a médio e longo prazo, e Bruno Lage é a mais recente vítima disso.

O treinador vive numa encruzilhada entre assumir as responsabilidades pelos resultados obtidos, e dar aos atletas o devido protagonismo pelas conquistas, uma vez que eles são, evidentemente, os protagonistas principais de todo o espetáculo.

Esta narrativa da auto-responsabilização coloca os treinadores numa situação difícil e instável, em que tão depressa são os «heróis» de boas épocas realizadas, como logo a seguir são os vilões por detrás do insucesso desportivo que, naturalmente, bate à porta de todos nós na vida, independentemente das atividades profissionais que todos nós desempenhamos.

A viver neste frenesim entre a euforia e os apupos e a chinfrineira irracional das vozes das bancadas que pedem a sua demissão após a primeira série de resultados menos positivos, os treinadores quase que não passam de nómadas completamente desvalorizados e maltratados por gente que percebe muito menos de jogo e de treino do que eles. Sempre de bagagem pronta para partir rumo a uma futura «chicotada psicológica» promovida por dirigentes incapazes de pensar em projetos a prazo, os treinadores têm margem de erro nula, tolerância zero e uma «espada» pronta para lhes cair em cima ao mínimo deslize…

A vítima deste contexto absurdo é, agora, Bruno Lage. Técnico com um percurso de grande sucesso na formação «encarnada», assume a equipa principal quando esta se encontrava no quarto lugar da Liga NOS, a sete pontos do primeiro, o FC Porto. Em 19 jornadas, o Benfica vence 18 jogos, empata um, é um justíssimo campeão, destacando-se por uma qualidade ofensiva verdadeiramente avassaladora, com 103 golos marcados em toda a liga.

A valorização de jovens valores foi um outro aspeto do trabalho de Lage, que juntou a atletas mais novos já consagrados na equipa, como Rúben Dias ou Grimaldo, futebolistas tão promissores como Ferro, Florentino Luís, Gedson Fernandes ou João Félix, que mais tarde seria a «estrela» de um negócio de 120 milhões!

Até à 19ª jornada desta Liga NOS, tudo parecia correr às mil maravilhas no reino da Luz! Com 18 vitórias, apenas uma derrota, e sete pontos de avanço sobre o FC Porto, a época do «encarnados» estava apenas ensombrada pela falta de competitividade na Liga dos Campeões, em que apenas por três vezes na última década, o Benfica conseguiu passar da fase de grupos.

Contudo, foi preciso vir o cataclismo dos últimos 12 jogos oficiais, em que o Benfica se saiu vencedor em apenas dois, para que todos viessem criticar a falta de consistência defensiva da equipa (ao ponto de sugerirem, em tom de gozo, que mais valia resgatarem o Luisão da reforma para tirar Ferro da titularidade…), a não-inclusão de Samaris entre as opções do treinador (quando foi justamente Bruno Lage a fazer do grego uma opção regular da equipa campeã na época passada, contrariamente a Rui Vitória), e a esquecerem que, lá na frente, o Benfica tem um Carlos Vinícius que conseguiu fazer esquecer Jonas, e talvez seja o melhor ponta-de-lança da nossa liga. Lançado por… pois é, Bruno Lage!

Posto isto, é evidente que o Benfica está a atravessar um momento negativo. Rúben Dias e Ferro não estão a funcionar em pleno, e nota-se que falta mais um elemento, capaz de prestar apoio, em termos de cobertura, a uma dupla de centrais que é, apesar de tudo, promissora. Com Grimaldo ausente, o Benfica é mais vulnerável pelo flanco esquerdo. Falta, na minha opinião, um médio com características mais defensivas que possa libertar jogadores como Taarabt, Weigl ou mesmo Gabriel para tarefas de criação de jogo ofensivo, sem que desequilibrem tatica e posicionalmente a equipa. Rafa é talentosíssimo e participa em ações ofensivas e defensivas, mas «desaparece» em certos períodos dos jogos. Pizzi é um desequilibrador de enorme nível, com e sem bola é um perigo para as defesas contrárias, mas não defende.

É certo que as coisas não estão a correr bem para as «águias» e, jornada após jornada, a tremenda desilusão pela perda do título vislumbra-se como um cenário bastante plausível. No entanto, Bruno Lage não é nenhum incompetente, nem o único responsável pelos insucessos da equipa. É, na verdade, um grande campeão, que levou o Benfica a superar-se no ano passado, e a mostrar ao mundo do futebol toda uma geração de enorme talento, saída das suas escolas de formação.

No final da época, caso o insucesso se verifique, tirem-se as ilações que se quiserem e, caso seja vontade de todos, que cada um siga o seu caminho. No entanto, que ninguém esqueça que foi a teimosia de Luís Filipe Vieira, que a dada altura manteve o treinador Jorge Jesus contra tudo e todos, a levar o Benfica a um período recente de alegrias na sua história futebolística.

Gonçalo Novais

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