Obrigado Bom Gigante

Seguindo a série impressionante de jogos a que já aqui me referi no artigo passado, a equipa de Andebol do FC Porto jogou no dia 21 de fevereiro, frente ao Águas Santas, vencendo por 34/26. Aí, um dos jogadores em maior destaque foi, como aliás é hábito, Alfredo Quintana, somando 14 defesas e 2 golos. O último lance do jogo foi mesmo um golo de Quintana. Quem imaginaria que seriam estes os seus últimos feitos desportivos…

Na manhã seguinte, de volta ao Dragão Arena, para mais um treino com vista ao jogo, dois dias depois, da Liga dos Campeões frente aos Bielorrussos do Meskov Brest. De forma completamente inesperada Alfredo Quintana caiu inanimado e, mesmo que devida e prontamente assistido, numa primeira fase pelos meios do clube e depois pelo INEM que o encaminharam para o Hospital de São João, onde chegou com vida, mas com um prognóstico reservado.

Seguiram-se dias angustiantes, com toda a família do Andebol e, aqui, refiro-me ao Andebol do FC Porto em primeira análise, ao Andebol Português na sua globalidade, mas também ao Andebol mundial, pois as manifestações de preocupação para com o estado de saúde de Quintana vieram de todo o lado. Internamente, mais uma vez, o Andebol provou ser uma grande família. Dignas de registo as manifestações públicas de força, carinho, admiração e enorme respeito que se seguiram, naturalmente as mais “visíveis” das equipas de Andebol do SL Benfica e Sporting CP, mas muitas, muitas outras fizeram o mesmo. A título individual ou coletivo o Desporto Português no seu todo, mas também todo o país se juntou numa união coletiva, que mesmo ao lado do BOM GIGANTE, não evitou o pior, que acabou por ser oficialmente confirmado na passada sexta-feira. Para muitos, onde também me incluo, apesar da consciência que só um milagre o traria de volta à sua família, a oficialização da sua partida, fez-me sentir como se tivesse perdido um elemento da minha família. E era mesmo, da minha família do Andebol.

Imagino a dor que os seus colegas de equipa estão a ter, vivenciando toda a situação. Alguns, de quem sou particular amigo, ainda não tive coragem de falar com eles, a não ser através de uma curta sms. Falo de elementos da estrutura do Andebol do FC Porto, da Seleção Nacional, de ex-colegas que com ele jogaram, enfim de todos e de qualquer um que com o Quintana se tenham cruzado. Para referir só alguns, o Professor José Magalhães, seu “pai” português, o Hugo Laurentino que tantas e tantas vezes o intitulou de “irmão” dada a cumplicidade de sempre. Que injustiça, que vazio perdurará, meus amigos…

A sua unanimidade não aconteceu só nestes momentos após a sua morte, pois, ao longo da sua presença em Portugal, já antes, mas mais ainda, depois da sua naturalização, Quintana granjeou o respeito, admiração e simpatia de todos. A sua forma de ser divertida, bem-disposta, alegre, mas ao mesmo tempo profissional, lutador e destemido conquistaram e ajudaram muito a integração de compatriotas seus, quer na sua equipa, quer na Seleção Nacional. Tive oportunidade de me cruzar e de falar com Alfredo Quintana uma meia dúzia de vezes, quer quando ele estava ao serviço do FC Porto, quer ao serviço da Seleção e pude, in loco, confirmar a imagem que dele tinha já da televisão. Era tudo do atrás citado.

A primeira vez que estive com o Alfredo Quintana, foi no dia 5 de janeiro de 2013, aquando do jogo comemorativo dos 25 anos da Associação de Andebol de Vila Real, no Pavilhão dos Desportos de Vila Real, entre o FC Porto e a Seleção Nacional da Austrália, que se encontrava em Portugal a preparar a participação no Mundial de Espanha. As comitivas, antes e depois do jogo, estiveram a distribuir autógrafos juntos dos pequenos atletas que haviam feito um festand antes do citado jogo. A simpatia, disponibilidade e afabilidade do Alfredo foram, logo ali, evidentes. Poucos imaginariam o fenómeno em que este se viria a tornar. Em Vila Real, depois de nos anos noventa ter passado, como treinador do Sport Clube de Vila Real, o Bom Gigante José Torres, também por aqui passou um outro BOM GIGANTE, que jamais esquecerei. 

Para a história ficarão sempre as grandes memórias e as defesas impossíveis ao serviço do FC Porto e da Seleção Nacional. Excelentes vitórias e grandes prestações nas provas europeias, os inúmeros títulos nacionais conquistados no seu clube ficarão na memória de todos assim como as melhores presenças da Seleção Nacional em fases finais de campeonatos da europa e do mundo. 

E agora? Como vai reagir o Andebol Português, nomeadamente o seu FC Porto, e a Seleção Nacional à sua ausência? Só poderá haver uma forma, mesmo sabendo-se do quão difícil será! Terá que ser “à Quintana”, com força, coragem, determinação e acima de tudo saber que será, SEMPRE com o objetivo de honrar a sua memória.

Citando Jorge Nuno Pinto da Costa “Quintana só falecerá no dia em que falecer o último de todos aqueles que com ele lidaram”

Obrigado Alfredo Eduardo Quintana Bravo.

OBRIGADO BOM GIGANTE.

Adriano Tavares (Presidente Associação de Andebol de Vila Real)

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