O EPISÓDIO DO JAMOR

Entre o vergonhoso ou o absurdo, o leitor que escolha. Mas, garantidamente, o que se passou no Jamor ficará gravado como uma das páginas mais negras do desporto português.

Quis o destino que este triste episódio tenha decorrido no Estádio Nacional, espécie de casa do pontapé na bola lusitano. Provavelmente teria de ser mesmo assim, porque é o futebol como um todo que ficou exposto os clubes, a Liga e a incapacidade geral de todos os principais intervenientes de entrar que situações como estas ocorram.

Ouvimos os presidentes do Belenenses SAD e do Benfica, mas não Pedro Proença. Mas talvez se perceba porque não dá a cara em momentos como este: porque seria obrigado a assumir o seu grau de importância, teria de afirmar, na primeira pessoa, que mesmo que quisesse, os regulamentos não lhe permitem tomar decisões unilaterais sem haver uma posição inicial dos clubes como a de impedir a realização de um jogo de futebol quando está em causa a verdade desportiva, o pilar fundamental de uma competição; teria de mostrar que está de mãos atadas, teria de admitir que o seu poder é fraco, ou mesmo nulo.

Foi este o modelo que o Estado português criou há muitos anos os clubes fazerem a sua autorregulação, sem que se possa atribuir a culpa a alguém, e específico por omissões ou ausência de medidas preventivas que se exigiriam em nome do bom o senso.

Chega a ser surreal ouvir os dirigentes dos clubes queixarem-se dos regulamentos quando são esses mesmos dirigentes que os aprovam, mas não é menos paradoxal escutar, como já escutámos, o presidente da Liga louvar a capacidade de os clubes se organizarem e criarem entre si um ordenamento que funcione. O passado mostra que o que se passou no Jamor só reforça a ideia de ingovernabilidade do futebol profissional em Portugal.

Isto não invalida, porém que não se possa apontar o dedo aos ziguezagues de Rio Pedro Soares, à notória falta e diálogo entre a Liga e os respetivos delegados de saúde e a imagem, de incongruência que a Direção-Geral da Saúde exibe, tomando decisões diferentes para contextos semelhantes. Será que Graça Freitas ainda não percebeu que o futebol é um dos maiores veículos sociais e que de algo correr mal num estádio tem impacto tremendo na perceção da realidade do resto da sociedade?

Orlando Fernandes (jornalista)

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