O adeus ao gigante

Trinta e dois anos. Toda uma vida e uma carreira ímpar pela frente, o sonho de ver a pequena Alicia, de apenas dois anos, crescer num país que se tornou seu e que o abraçou como um dos nossos – que o era -, porque tristeza não tem fronteiras, locais de nascimento demarcados e muito menos se mede pela fama ou pelo estatuto.

Morreu Alfredo Quintana, 32 anos, guarda-redes da equipa de andebol do F.C. Porto e da seleção nacional, o bom gigante das balizas, capaz de travar todos o remates e mais alguns, menos a “rosca” que o destino lhe atirou, sem aviso, numa segunda-feira igual a tantas outras.

Sobrarão as memórias e o prazer de ter acompanho um dos maiores da modalidade, que merece ser recordado como tantas vezes o vimos: a festejar, com o tronco inclinado para trás, de braços fletidos e cheios de força, a defesa de mais um livre de sete metros.

Num ano em que a morte e a doença nos obrigaram a reaprender a viver, cheios de limitações e proibições, é irónico perceber como o fim nos continua a chocar. Fará parte da condição humana, claro esse desânimo e ver alguém, partir antes do tempo, tal como a necessidade de seguir em frente, deixar que o tempo seque as lágrimas e devolva o sorriso, por muito que isso, em tempos negros, pareça impossível.

É a essa esperança que a família e os amigos de Quintana se têm, de agarrar por estes dias, confortados – como se tal fosse possível – pelas sentidas homenagens e profunda admiração que todos os adversários de incontáveis batalhas demonstraram na hora do adeus. E isso vale mais, muito mais, do que qualquer título.

O andebol e o desporto fazem, a devida vénia ao bom gigante das balizas e as palavras do selecionador nacional, Paulo Jorge Pereira, fazem o resto. “Só tenho pena de não o ter abraçado mais vezes e ele era a pessoa que me abraçava com mais força. Ele gostaria que reagíssemos à adversidade, com a cabeça bem alta, e seguirem em frente”. Por muito que custe.

Orlando Fernandes (Jornalista)

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