Motores: à conversa com Válter Cardoso

O convidado desta semana de Telmo Augusto (responsável pela secção “Motores” do Desportivo Transmontano) é natural de Amarante, já foi piloto, mas neste momento dedica-se quase em exclusivo à navegação de pilotos de Rally e de Todo o Terreno.

Válter Cardoso, faz-nos um resumo da tua já longa carreira desportiva?

O gosto pelo desporto automóvel vem de família. Este bichinho foi incutido pelos meus pais que sempre gostaram do desporto motorizado e sempre me incentivaram (dentro das suas limitações) a gostar do automobilismo em geral. Desde bebé, ainda na alcofa, já percorria o país a acompanhar a caravana do rali de Portugal. Fui habituado a cheirar gasolina desde pequeno, e digamos que o cheiro entranhou-se e acabou mesmo por se enraizar.

Com apenas 9 anos comecei a andar de karting. Fiz a minha estreia ao volante no kartódromo do Cabo do Mundo com um kart de aluguer. Após isso tive o meu primeiro kart onde fui praticando e ganhando cada vez mais gosto pela modalidade. Fui crescendo nesse meio e o meu pai comprou-me o segundo kart. Um karting já de competição e que me levaria a estrear nas competições monomarca em algumas pistas nacionais.

Anos mais tarde tive a minha primeira moto4. A primeira de 4 que tenho na garagem (risos). Desenvolvi com a mesma (Suzuki 250) imensas técnicas de condução que ainda hoje me ajudam no aspecto competitivo. No entanto, um grande acidente que tive de moto4 levaram os meus pais a comprar o primeiro kartcross por ser mais seguro uma vez que seria todo coberto.

Então, com 18 anos tive o meu primeiro kartcross (Atmos Evo3) mas nunca cheguei a competir com ele. Apenas testei muitas vezes em diversas pistas do panorama nacional. Ficava sempre a vontade de querer competir, pois, na verdade até realizava tempos interessantes.

Na altura, gostava de ter sido piloto profissional, mas foi-me estabelecida uma meta importante pelos meus pais. Tinha entrado para a universidade em 2002 e para eles era importante eu ter habilitações literárias e ser qualificado para poder integrar um dia o mundo do trabalho. A meta era terminar o curso de Engenharia Informática sob recompensa de quando o terminasse, o meu pai apoiar-me-ia num projecto para o campeonato nacional de kartcross. Em bom rigor foram 5 anos, 5 matrículas. Empenhei-me ao máximo e em 2007 estava a realizar juntamente com o meu pai o campeonato nacional de kartcross com um Atmos Evo6.

Andei pelas andanças do kartcross durante 4 anos e a melhor classificação final que obtive foi o vice-campeonato em 2009 mas com um kartcross da marca ASK fabricado em Santa Maria da Feira. Ainda hoje possuo esse kartcross mas que desde 2011 nunca mais voltou a sair da garagem. É um dos meus próximos projectos, requalificá-lo totalmente e divertir-me com ele. Fui muito feliz dentro dele e espero ainda o voltar a ser.

Entretanto, inicio ainda como piloto o projecto da Ford Transit Trophy onde efectuo 2 anos a competir com as famosas carrinhas. No primeiro ano, em 2010, faço 4º lugar no troféu e no ano seguinte em 2011 sou vice-campeão. Tripulava na altura a carrinha número 83 (escolhi este número por ser o meu ano de nascimento) da equipa BETA/ENI.

Como navegador, iniciei nessas lides em 2004 (ainda andava na universidade) num rali não-oficial em Penafiel. Na altura foi com um amigo, Pedro Teixeira, que me desafiou pois sabia que adorava experimentar os ralis. O primeiro rali oficial foi mesmo em 2005 no rali de Rates (Póvoa de Varzim) e que pertencia ao Campeonato Regional Norte de Ralis.

Em 2010 integro, na realidade, o primeiro projecto que me comprometia a realizar uma temporada completa no Regional Douro de ralis com o piloto João Bessa. Em 2011 integro um projecto para realizar o desafio Modelstand (troféu com cerca de 20 viaturas Peugeot 206 GTI) e surge no final o meu primeiro título como navegador, ao consagrar-me Campeão Nacional Júnior de ralis com o piloto Ivan Carquejo de Vila Real.

Em 2012 volto a competir com um piloto de Vila Real, desta vez o João Sousa e com o exuberante Peugeot 306 Maxi, que nos trouxe uma grande alegria ao vencermos o Criterium de Ralis Norte. Em 2013 decidimos fazer o Campeonato Nacional de Ralis com o Maxi na categoria destinado às viaturas sem homologação (Grupo VSH) e no final desse ano fomos Campeões do grupo. 2013 também ficou marcado pela minha estreia na navegação no Todo-o-Terreno, ao participar na Baja TT de Portalegre, a convite do meu amigo Rui Marques, com uma Nissan Navarra D40.

Em 2014 inicio um ciclo importante na minha carreira desportiva, pois, recebo o convite de navegar o Carlos Fernandes numa viatura 4×4 (uma estreia para mim nas viaturas de 4 rodas motrizes). Nesse mesmo ano vencemos à geral a Taça de Portugal de Ralis e fomos Campeões de Ralis do Centro. Fui também Vice-campeão no Desafio Total Mazda no TT com uma Mazda BT50.

Em 2015, eu e o Carlos Fernandes renovamos o título de Campeões Centro de Ralis. No TT integro um projecto aliciante com um jovem piloto do Porto, o Pedro Ferreira e somos campeões Nacionais de TT da categoria T3, categoria destinada apenas a viaturas com 2 rodas motrizes.

O ano de 2016 foi memorável e inesquecível, pois, juntamente com o Carlos Fernandes vencemos o campeonato FPAK Absoluto de ralis. Tratava-se de um regional mas a nível nacional, ou seja, fazíamos as provas em todos os regionais que se disputaram em Portugal continental, Norte, Centro e Sul. Vencemos todos e trouxemos o título para casa juntamente com as Taças FPAK e ralis de asfalto e de terra. Fui ainda vice-campeão nacional de ralis do Grupo RC2N (viaturas do agrupamento de produção) com um Mitsubishi Lancer Evo IX. Lembro-me nesse ano, após a cerimónia de entrega de prémios FPAK, ter trazido uma modéstia quantia de 12 taças para casa. (risos)  

Em 2017 o Carlos decide fazer uma paragem nos ralis e faz apenas uma prova numa viatura mais evoluída, o rali dos Açores com um Skoda Fabia S2000. Faço também alguns ralis com o Hugo Mesquita nesse mesmo Skoda. Era, sem dúvida, um carro de sonho com o seu motor atmosférico de 2.0 litros a puxar às quatro rodas e que deixava qualquer aficionado apaixonado pelo seu barulho. Nesse ano faço o meu primeiro rali com o Bernardo Sousa de Ford Escort MK2 e que viria a iniciar um ciclo que passaria para 2018. Integramos a estrutura profissional da equipa da Play/Autoaçoreana para competirmos no Campeonato dos Açores de Ralis.

Foi um ano que percorri quase todas as ilhas açorianas na realização das provas do campeonato dos Açores (excepto Flores e Corvo). Vencemos 4 ralis e quando nos preparávamos para ser campeões, um acidente na penúltima prova atirou-nos para fora do título regional Açoriano e contentámo-nos com o vice-campeonato. Ainda hoje guardo dos melhores momentos que vivi naquelas ilhas fantásticas junto de uma equipa excepcional que sempre nos fez parecer que eramos todos uma família.

Ainda em 2018 voltei a competir com o “regressado” Carlos Fernandes no Desafio Kumho que consistia em participar nas provas com pneus da marca coreana Kumho e conseguimos mesmo vencer todos os prémios nesse ano. Os desafios Master, Terra e Asfalto. Neste troféu Kumho fomos mesmo invictos.

2019 é um ano espectacular pois é o ano do meu primeiro título nacional absoluto. Fui campeão nacional absoluto de todo-o-terreno a navegar o Tiago Reis no Mitsubishi Racing Lancer. Já o ano anterior tinha iniciado o projecto com ele e tínhamos realizado um excelente campeonato, mas em 2019 ele acabou mesmo por não nos escapar e conquistámo-lo na última prova, na Baja TT de Portalegre. Foi uma prova de nervos onde ficou provado que não há impossíveis, basta acreditar, pois tudo fazia prever que fossem campeões os nossos adversários e nós conseguimos arrancar a vitória “a ferros” no último sector selectivo da última corrida do campeonato. Este título foi mesmo especial pois foi conquistado com muito suor, “sangue” e lágrimas. Neste caso, o sonho comandou mesmo a vida e mesmo no que parecia impossível, acreditamos até ao fim que havia sempre uma oportunidade para vencer.

Nesse ano integro também o projecto da TCM Racing com o piloto João Marcelino com um Renault Clio R3 e consegui mesmo ser vice-campeão nacional nas 2 rodas motrizes. Um prémio que foi alcançado também com a ajuda dos resultados efectuados com o Carlos Fernandes pois este estava a fazer as provas da Peugeot Rally Cup Ibérica num Peugeot 208 R2.

Foi também um ano da reedição com o João Sousa na Super Especial de Vila Real após 6 anos de interregno. Foi muito bom voltar a competir com o Veiguinha e espero no futuro voltar a trazê-lo para os ralis pois tem um potencial enorme.

Para 2020 estava prevista a renovação do título absoluto no TT juntamente com o Tiago Reis desta vez como pilotos oficias da GALP, mas, no entanto não conseguimos atingir esse mesmo objectivo. Até começamos bem ao vencer a primeira prova do Campeonato TT em Beja, mas alguns problemas mecânicos no Mitsubishi Racing Lancer condicionaram as nossas prestações durante outras provas e que deixava mesmo um sabor agridoce pois em duas delas até vínhamos a liderar as mesmas. Conseguimos um honroso vice-título no Campeonato Nacional de Todo-o-Terreno.

Nos ralis integro um projecto ambicioso com o piloto da Marinha Grande, Ernesto Cunha, quando aceito o desafio de ir navegá-lo ao rali Vinho Madeira. Após esse rali o piloto adquire mesmo um novíssimo Peugeot 208 Rally4 e realizámos 4 provas do CPR2RM e 3 provas da PRCI sendo que uma delas seria mesmo um dos meus ralis de sonho e que tinha como meta realizá-lo, o rali Princesa das Astúrias. Felizmente ainda consegui concretizar esse sonho num ano marcado pela Covid-19. Este ano, apesar de difícil, trouxe-me a realização de outro sonho, a participação na última prova do Campeonato da Europa de Ralis, o Rali Islas Canárias, ao lado do piloto açoriano José Paula. Um rali de excelência em que o Peugeot 208 T16 não quis colaborar connosco e avariou numa das ultimas especiais do rali.

Foi um ano complicado com 14 provas realizadas (9 ralis e 5 bajas) mas que me deixou na tabela de pontuações geral de navegadores em primeiro lugar pelos resultados que obtive em todas que efectuei. Apesar de ter sido um ano mais curto, acabou por ser recompensador.

Supostamente deveria ter sido um “curto” resumo, mas acreditem que foi o mais “curto” que consegui. Expressar em poucas palavras tudo o que já vivi neste desporto não é nada fácil. Acho que esta minha “curta” passagem pelo desporto automóvel já com tantas “histórias e estórias” que dariam um bom livro! (risos).

O porquê de optares, por ires sentado ao lado?

Quem me conhece sabe que tenho uma paixão muito grande por conduzir. No entanto, a falta de budget para poder sonhar com voos mais altos, felizmente atirou-me para o banco do co-piloto. Digo felizmente pois neste momento encontro-me num excelente patamar no que diz respeito à navegação no automobilismo nacional. O facto de ter pilotado levou-me numa determinada fase a desenvolver um gosto especial pela navegação e permitiu-me criar defesas e técnicas que considero essenciais para o lugar que ocupo. Acima de tudo adoro ajudar todos os pilotos a trabalhar as suas ambições, tanto fora como dentro, de um carro de corridas onde tento aplicar todos os meus conhecimentos automobilísticos e pessoais. Entrego-me sempre de corpo e alma a qualquer projecto automobilístico que integro e a minha superação é sempre sentir os meus pilotos felizes pelos objectivos alcançados. Acima de tudo amo competir, divirto-me imenso e tenho um prazer enorme por aquilo que faço e isso são os princípios dos quais em momento algum pretendo prescindir.

Competir para mim é como uma droga, na qual eu estou completamente viciado! Amo competir, amo o desafio de vencer os outros, e na maior parte dos casos amo desafiar-me e vencer-me a mim mesmo!

As saudades do volante, existem?

Sim, claro. São imensas (risos). Neste momento tenho um projecto pessoal em mãos para pilotar. Espero sinceramente levá-lo para a frente. Em breve, caso a navegação me permita irão com certeza ouvir falar do Valter Cardoso ao volante… ou guiador!!! (risos)

O que estava pensado para 2020, o que concretizaste e o que ficou por fazer?

O ano de 2020 acabou por correr melhor do que estava previsto. Para um ano completamente atípico devido à Covid-19, sinceramente não esperava realizar tantas provas. Terminei o ano com 14 provas feitas. 5 Bajas TT e 9 Ralis.

No início do ano estava planeado trabalhar com 2 projectos ambiciosos. Um deles era defender o título nacional de TT com o Tiago Reis naquele que seria o terceiro ano com o Mitsubishi Racing Lancer. Seriam 7 provas e acabaram por ser reduzidas (devido à pandemia) para as 5 que já mencionei. Chegamos ao final do CPTT num brilhante 3º lugar. Foi o resultado possível que o Racing Lancer nos permitiu, pois, tivemos muitos problemas mecânicos que nos condicionaram durante algumas bajas.

Quanto aos ralis, o projecto inicial que tinha planeado realizar, acabou por cair por terra. Seria para fazer a Peugeot Rally Cup Ibérica (PRCI) com o piloto Carlos Fernandes. No entanto, a viatura (o novo Peugeot 208 Rally4) que seria para o Carlos acabou por ser cedida e posteriormente adquirida pelo piloto Ernesto Cunha. Neste caso, ao herdar o carro adquirido, o Ernesto propôs-me o desafio de “herdar” também o navegador, e assim foi. Desse modo acabei por fazer a fase final do Campeonato Portugal de Ralis 2Rodas Motrizes (CPR2RM) e ainda as três primeiras provas da PRCI. Foi gratificante ajudar o meu piloto Ernesto a obter um excelente 3º lugar no CPR2RM e 2º lugar no ERT2 (ibérico).

Surgiu também, já no final, o convite para participar ainda em 2 provas do campeonato da Europa de ralis (Fafe e Canárias) com o piloto açoriano José Paula no seu Peugeot 208 T16 R5 que me trouxeram ainda mais experiência e diversão num Campeonato ultracompetitivo.

Por isso, considero que 2020 foi um ano bastante preenchido e produtivo. Com certeza daria para efectuar mais provas mas a Covid-19 assim decretou este “estranho” ano.

Onde gostavas de chegar, no desporto automóvel?

Acho que tal como todos os co-pilotos, gostava de chegar o mais longe possível, mas não escondo que tenho planos ambiciosos. Já cheguei ao ponto mais alto do Todo-o-Terreno Nacional onde me consagrei campeão nacional com o Tiago Reis em 2019.

Já realizei também inúmeras provas do Campeonato do Mundo de Todo-o-Terreno, mas não escondo que um dos grandes sonhos nesta disciplina passa por realizar o maior e mais difícil rally-raid do mundo, um Dakar. Adoro a navegação em Rally-Raids, preenche-me mesmo enquanto co-piloto navegar na areia, no deserto porque somos 500% dos olhos dos pilotos nesse tipo de provas. Já esteve mais longe esse objectivo, mas sem pressão, cada coisa no seu devido tempo. (risos)

Tenho como meta pessoal (um sonho talvez) ser campeão nacional de ralis onde ajudasse um piloto a percorrer os diversos patamares até chegar a esse tao desejado objectivo.

Como nasceu o gosto pelo desporto automóvel?

Como já mencionei, pela família. Vem desde pequeno esse gosto que me foi incutido, e hoje estou-lhes eternamente grato por tudo o que me proporcionaram e que permitiram ser aquilo que hoje sou, como pessoa e como atleta neste desporto que tanto amo.

Quem é o teu ídolo?

No desporto automóvel tenho vários. Mas cresci numa era em que cometia um piloto que admiro imenso, Carlos Sainz. E confesso que vê-lo ainda a competir ao mais alto nível contra pilotos mais jovens numa prova com características difíceis como o Dakar, faz me considerá-lo um ídolo, porque adoro ver todos os seus vídeos (antigos e actuais) e ler tudo a seu respeito, pois continuo a seguir o que ainda é capaz de fazer no desporto automóvel. Memorável e fascinante mesmo. É para mim o GOAT do automobilismo.

Dakar ou Monte Carlo, qual escolhias?

Dakar sem dúvida. Por tudo aquilo que já mencionei anteriormente. Amo competir em provas de rally-raid com diversos dias. É desafiante e de um espirito de aventura ímpar. Talvez por ser tão aventureiro a nível pessoal é que me identifico tanto com essa prova. Conto mesmo estar presente nessa tão prestigiada prova num futuro muito próximo até porque já há movimentações nesse campo. (risos)

No entanto, confesso que gostava de realizar também um Monte Carlo. Já estive do lado de fora nesse rali e considero-o desafiante pelas condições climatéricas tão adversas. Quem sabe um dia se não estarei do lado de dentro com algum piloto a desafiar as estradas geladas do “Monte”.

O ponto mais alto e mais baixo da tua carreira?

Tenho vários pontos altos durante a minha carreira automobilística. Diversas vitórias que fui conquistando ao longo da mesma, mas o mais alto para já foi mesmo o título nacional no TT em 2019. Um sentimento grandioso e uma panóplia de sensações únicas e que guardo no coração para a vida. Não consigo descrever em palavras o que senti quando terminei a prova e me apercebi que tínhamos vencido o título. Espero que venham muitos mais pontos altos pois continuo a trabalhar nesse sentido afincadamente.

Quanto aos pontos mais baixos, prefiro mesmo apelida-los como “menos bons”. Não tenho nenhum em específico e considero os menos bons, todos os acidentes e incidentes que fui tendo ao longo da minha carreira desportiva. Tive alguns, uns com maiores consequências que outros. Mas o que mais importa é que com os mesmos retirei ensinamentos para a vida e tentei aprender com todos os erros que fui cometendo. Digamos que é uma autodefesa para não permitir que esses pontos “menos bons” voltem a acontecer de novo.

A tua prova favorita?

Uma prova favorita necessita de preencher uma série de requisitos. E para já a que preenche mais e que considero uma prova de eleição por tudo o que ela representa é o Rally dos Açores. Por me identificar imenso com os Açores e, neste caso, em concreto com a ilha de S. Miguel, por ter sido naquele rali o único que realizei ao volante, por adorar o povo e os costumes insulares, por adorar as paisagens que envolvem um rali tão característico e exigente como é o AZORES Rallye. Estive pela primeira vez na ilha em 2000 e desde aí que sou completamente fascinado. Como espectador comecei a ir ao rali em 2010 e ultimamente tenho ido como concorrente. Pena em 2020 terem cancelado a mesma. Em 2021 quero lá estar, do lado de dentro de um carro de corridas a desfrutar do melhor que aquela ilha pode proporcionar. Adoro os Açores. Obrigado Açores.

Correr em Vila Real de “camioneta” não é para todos? Conta la essa experiência?

Sem dúvida que é uma experiência única. Foi em 2010 quando me iniciei no Ford Transit Trophy. Um trofeu inédito no mundo inteiro que tinha a particularidade de competir com as famosas Ford Transit’s bem conhecidas do mundo automóvel. Foi um ano que se reeditou o circuito de Vila Real depois de um interregno na realização de provas nesta cidade transmontana. As sensações de andar nesse circuito foram únicas. Eu que nunca tinha andado ate então em circuito citadino, de um momento para o outro ver-me confrontado por raids e muros de betão onde as escapatórias eram inexistentes, consegue criar no subconsciente de um piloto inexperiente na velocidade (como era o meu caso) uma miscelânea de emoções que não eram fáceis de gerir.

Foram voltas após voltas onde fiquei a perceber o que era o “cone de ar” de uma carrinha com as dimensões da Transit a descer a recta de Mateus. Parecia que a carrinha fluía no ar e que vinha a ser conduzido pela carrinha da frente. Sensações únicas que jamais esquecerei. Mas a melhor experiência/sensação de todas foi mesmo aquele de sentir a fervorosa “afición” do público da “Bila”. Um sentimento arrepiante mesmo! Obrigado aos mentores e organizadores do circuito de Vila Real e a todos os intervenientes que permitiram voltar a respirar gasolina pelas ruas da cidade. Que assim perdure por muitos e longos anos.

Qual foi, até agora, o teu adversário mais difícil?

Tive vários ao longo do meu percurso. Na qualidade de piloto na Velocidade, considero o Pedro Salvador um piloto completo e muito difícil de superar. Muito forte em todos os aspectos. Ainda como piloto, nos kartcross, as lutas que travei com Luís Caseiro à centésima de segundo também me deixam rendido aos seus dotes de condução.

Na qualidade de co-piloto, existiram vários ralis difíceis de superar. Não esqueço, por exemplo, o Rali de Santo Tirso 2018 onde vencemos o rali ao Luís Delgado/André Carvalho por meros segundos numa luta intensa até à ultima especial. Os ralis da PRCI de 2019 que realizei também tiveram o seu grau elevado de dificuldade. O ritmo competitivo que se impõe neste tipo de troféus é muito alto e não esqueço as lutas acesas que fui tendo nesses ralis com os concorrentes ibéricos como o Dani Berdomás, Pep Bassas e Pedro Antunes.

No todo-o-terreno, há também pilotos muito fortes e difíceis de bater, como é o caso do Miguel Barbosa e do João Ramos. Ambos com viaturas de TT da última geração e que elevam a competitividade a patamares bem altos.

Planos para 2021?

Sim já tenho alguns. Devido à pandemia, este ano de 2020 atrasou e condicionou imenso os projectos de 2021. Falava-se que até poderiam haver provas de 2020 a ser realizadas no início de 2021. Felizmente a nossa Federação não permitiu esse cenário.

Como disse, tenho em cima da mesa diversos projectos. O mais avançado é para o Campeonato Nacional de Todo-o-Terreno, novamente com o Tiago Reis e com este piloto passa mesmo pelo objectivo de revalidação do título nacional. Assim iremos trabalhar nesse sentido, pois o Tiago é um piloto excepcional e que se dedica imenso em todos os projectos a que se propõe.

Nos ralis, embora ainda numa fase mais embrionária, tenho o projecto para a realização do Campeonato Portugal de Ralis 2Rodas Motrizes (CPR2RM) e da Peugeot Rally Cup Ibérica (PRCI) com o novo Peugeot 208 Rally4. No entanto, está ainda em cima da mesa a tentativa de realizar também 6 provas do Campeonato da Europa de Ralis.

Acertada tenho também a participação com o João Sousa (Veiguinha) em algumas provas do Campeonato Regional Norte de Ralis, neste que será o regresso dele aos ralis depois de ter feito o último rali comigo em 2013. Ele merece voltar aos ralis pois tem um talento que na minha opinião não deveria ser desperdiçado, e nos ralis consegue mostrar melhor tudo aquilo que sabe. Espero ajudá-lo ao mais alto nível nesse aspecto, a amizade que temos aliado ao trabalho e dedicação da JCMotorsport vai com certeza fazer-nos vencer ralis em 2020.

Se a tua filha seguir as pisadas do pai? Um orgulho, ou vais tentar dissuadi-la disso?

(risos) Espero que a minha filha seja melhor que o pai. Terá todo o meu apoio tal como eu tive dos meus pais. Obviamente os tempos são outros e o facto de estar mais no meio facilita o facto de estar a incutir esse gosto à Maria João. Tem apenas 4 anos mas já tem a sua moto4 (a bateria mas já com 2 velocidades) e digo que tem imenso jeito. Já conduz desde os 2 anos e ficou orgulhoso ao observá-la a conduzir e a dizer que precisa de treinar para um dia ser piloto de ralis como o pai. O que estiver ao meu alcance tudo farei para lhe proporcionar todos os meios para se vingar num desporto cada vez mais aberto à participação de mulheres. Importante é não a forçar a nada, e se tiver que seguir as minhas pisadas tudo irá surgir naturalmente. Acima de tudo quero vê-la e fazê-la feliz, pois é o maior sentimento/desejo que um pai pode nutrir por uma filha.

Disseste na apresentação que te dedicas quase em exclusivo à navegação, mas também fazes trabalho de box, na comunicação com os pilotos. Quão importante é esse trabalho e quanto gostas de o fazer ?

Sinto uma enorme satisfação ver na expressão dos pilotos o quanto fui útil para a obtenção dos seus resultados. Estar do lado de fora de uma corrida também tem a sua essência. É um cargo que exige um elevado grau de responsabilidade e como tudo na vida tem o seu nível de dificuldade. Uma das competências de um cargo desses é ajudar o piloto a ter as condições ideais para ir para dentro de uma pista ou de um rali em perfeita harmonia e tranquilidade sem preocupações externas e simplesmente focado naquilo que vai fazer, obviamente sempre em função dos objectivos que delineia à partida. Para tudo isso é preciso um “backoffice” muito grande e que esteja com ele em todos os momentos e que saiba acima de tudo o que lhe dizer em momentos críticos da prova. Basicamente é esse o meu trabalho do lado de fora. Organizar e preparar os pilotos para colocarem o capacete sem qualquer preocupação com outros aspectos que não sejam meramente conduzir. Requer muito trabalho e por vezes não se consegue apenas isso numa só corrida. Requer um trabalho prévio de conhecimento do piloto e da equipa com que trabalho.

O prazer que me dá estar do lado de fora, não é o mesmo do que estar do lado de dentro. No entanto, só o facto de estar ligado ao automobilismo já me deixa muito feliz e neste caso ajudar um piloto a concretizar os seus objectivos é uma enorme satisfação e realização pessoal.

Alguma história que nos possas contar do Veiguinha (João Sousa) ?

Com o Veiguinha há sempre histórias (risos). Tenho várias, mas uma marcante foi no circuito de Vila Real em 2015 quando nos treinos cronometrados tivemos que ir buscar o Peugeot 306 quase em peças à pista. Tal cenário aconteceu quando eu estava a fazer o serviço de comunicação com ele via “team rádio” e talvez por ambição a mais da minha parte, lhe comunico na volta de crono que ele vinha a perder umas décimas para um piloto. Na verdade tinha era feito o melhor tempo no sector1 da pista só que no entanto já não chegou ao final do sector2. Bateu na curva anterior à chicane de Mateus. O Veiguinha vinha no máximo dele e o carro digamos que ficou um máximo também… mas sem rodas! (risos).

Queres deixar aqui os teus agradecimentos a alguém?

A todos os que me proporcionaram ao longo destes anos atingir este patamar no desporto automóvel, especialmente à minha fantástica família que sempre me apoia e sofre a sua parte, quer pelas minhas ausências, quer pelo perigo/risco que está sempre associado a este desporto que tanto amo. Agradeço a todos os pilotos, patrocinadores, equipas, mecânicos e assistentes que me acompanharam pois sem eles não conseguiria estar onde estou neste momento. Agradeço também a todos os amig@s e fãs que de qualquer forma me apoiam e admiram pelo trabalho que tenho vindo a desempenhar.

Deixo a todos os que queiram um dia vingar neste desporto um ensinamento que trago sempre presente na minha vida: para mim é impossível viver sem que exista a possibilidade de sonhar! Sonhem e lutem para os concretizar. A vida ensinou-me, como grande lição, que é impossível assumi-la sem risco.

Obrigado Válter, por teres aceitado o convite para esta entrevista ao Desportivo Transmontano. Desejamos a melhor das sortes para a tua vida pessoal, profissional e desportiva.

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