Motores: à conversa com José Lopes

José Lopes, um vila-realense com uma vastíssima carreira ligada ao automobilismo, esteve à conversa com Telmo Augusto (responsável pela secção “Motores” do Desportivo Transmontano).

José Lopes, como é que tudo começou?

Tudo começou em criança, brincando com carrinhos e talvez influenciado por saber que o meu pai, já nessa altura falecido, tinha sido “abastecedor” de combustíveis nas corridas dos anos 40/50, assim em 1968 com 14 anos, iniciei-me como “Fiscal de Pista”, tendo como Posto no nosso Circuito, um local no Boque, mais ou menos onde hoje se faz a inserção do traçado novo para o antigo, local onde me mantive até 73, altura em que houve nova interrupção, devido à crise petrolífera da época. Seguiu-se um novo ciclo, de 76 a 81, com uma experiência que me marcou bastante, com o Artur Ribeiro, curiosamente iniciando-nos nos ralis, quer eu como Navegador, quer ele como Piloto e a equipa de assistência que tinha como principal figura o Sr. Maurício, vilarealense, bem conhecido nos automóveis. Seguiu-se o CAVR do qual também fui um dos fundadores, e de 83 a 90, Presidente da Comissão Desportiva. Fui também de parceria com o Francisco Brito, mentor e fundador da APCIVR, passei pela Associação de Modelismo de Vila Real, também como Presidente, fui sócio fundador da Turiraides, do Autódromo Virtual de Vila Real e integrei o Conselho de Comissários da FPAK em 2013. Tudo isto sempre movido pela “paixão” que tenho pela competição automóvel.

De momento é observador das provas de FPAK. Um breve resumo e o quão importante é esse trabalho.

Bom, a função tem diretamente a ver com o avaliar as provas num extenso relatório de cerca de 200 pontos, classificados de 1 a 5, em que o 3 se considera o standard e sempre que avalias abaixo ou acima desse valor, tens que o justificar. É evidente que acima de tudo está sempre a preocupação com a segurança e depois o cumprimento do estipulado na regulamentação. É um trabalho em que é necessário muito cuidado e responsabilidade, ser muito observador e isento, pois principalmente nas modalidades em que tens concorrência entre clubes, o relatório tem muito peso na decisão da Direção da FPAK, em fazer descer de Campeonato determinada prova e subir outra.

Provas de montanha ou rallys?

Dentro de todo o automobilismo, a minha paixão pendeu sempre um pouco mais para os ralis. Nos últimos 3 anos estive como Observador permanente no Campeonato Portugal de Montanha, considerando uma experiência enriquecedora, até porque considero-me o “pai” da Rampa de Murça, pois fui eu o incentivador e grande obreiro dela em 1987, quando me chegaram a afirmar que estava maluco com a ideia, pois não existia na altura estrada alternativa, para quem fazia o trajeto da EN15 Bragança/Porto ou vice-versa, mas como disse os ralis pesam um pouco mais no coração.

Nunca equacionou passar para o volante?

Quando jovem, no meu tempo dos Datsun 1200 e 120y, fiz umas provas de perícia e uma vez a Rampa das Meadas, extra campeonato, na qual venci a classe 1300cc com uma única subida de prova, pois na segunda tive um despiste a mais ou menos 130m, da chegada.

O que gostava de fazer e ainda não fez no desporto automóvel?

Nunca pensei nisso, para mim o estar por dentro é tudo, o importante é contribuir. Cada etapa que tive foi surgindo e com certeza ainda haverá algo mais que surgirá, pois, penso manter-me enquanto a saúde o permitir e quem estiver nos destinos federativos entender que ainda estou lúcido para desempenhar funções, é sempre esse o “contrato”.

Vendo outras provas de montanha noutros países, fico com a sensação de que as mesmas ficam a anos luz das nossas em termos de segurança. Partilha dessa opinião?

Concordo! Temos percursos com ótima, boa e menos boa segurança, mas na sua generalidade sem dúvida que estamos numa posição muito boa. Claro que temos sempre que tentar melhorar e isso está a acontecer atualmente com as inspeções de seguranças e respetivos relatórios que se fizeram percursos em 2019 e 2020, que com a instalação da pandemia não foi possível implementar da forma que se pretendia, mas que a seu tempo irá dar frutos, frutos esses que o espectador muitas vezes nem se apercebe, mas que principalmente os Pilotos perceberão.

O Desporto automóvel é um desporto de risco. Quais os principais pontos que mais o preocupam, em termos de segurança numa prova?

Sempre o público em primeiro lugar! O Piloto quando se inscreve, sabe os riscos que corre, mas o público que muitas vezes até vai ver a prova porque é perto de casa (é uma festa) e nem sempre está sensibilizado, para o facto de ser um desporto com riscos acrescidos e que por isso, no caso concreto de uma Rampa ou Rali, se não há fitas ou outro obstáculo físico a impedir que esteja em determinados locais, pensa de imediato em ir para perto da emoção, o que quer dizer perto da pista, acontecendo por vezes o inesperado. Depois a segurança em geral dos percursos, procurando-se investir o mais possível em guardas metálicas (rails) ou jerseys de betão e se possível em algumas situações nas redes FIA (designação que usamos face ao estabelecido para a malha e espessuras de cabos). É evidente que quando numa Rampa, temos uma zona que permite atingir velocidades consideradas excessivas, face ao que vem a seguir, pensa-se num corte de velocidade com chicane artificial, ou mesmo quando numa Prova Especial de um Rali, se prevê que a velocidade média vai quase garantidamente ultrapassar o estipulado na regulamentação, acaba por se proceder da mesma forma.

O seu neto já demonstra que herdou alguns dos seus genes no que se refere ao automobilismo. Seria uma preocupação ou um orgulho vê-lo a praticar este desporto?

As duas coisas. Um orgulho, pois sendo a minha paixão, nada melhor; uma preocupação porque iria criar alguma instabilidade familiar, pelo menos temporária, e teria contra mim a mãe e principalmente a avó, para além de que é necessário um bom fundo financeiro, pois os miúdos começando, não entendem com facilidade o faltarem verbas e terem eventualmente que parar.

O melhor momento da sua carreira?

Tive muitos bons momentos, mas talvez pelo significado que tem para mim, o momento em que fui galardoado pela FPAK, pelos bons serviços prestados ao automobilismo.

Qual foi, até agora, a prova mais difícil?

Em 1984 e 1988, sendo Diretor de Prova do Circuito Automóvel, a primeira (84) em virtude de um acidente estúpido na reta de Mateus, entre dois Pilotos na volta de reconhecimento, que dá origem a uma vítima mortal entre os colaboradores e a segunda (88) em que devido a um ataque cardíaco, um Piloto se despista à saída da curva da passagem de nível de Abambres e faleceu no local, havendo como habitualmente acontece, alguma imprensa a culpar a segurança do Circuito, quando nada teve a ver com esse aspeto.

Fez parte do Clube Automóvel de Vila Real (CAVR) durante muitos anos. Como foram esses tempos e como vê o clube agora da parte de fora?

Esses anos não são comparáveis, eram outros tempos, as exigências eram outras, os meios que existiam também, não havia câmaras, eram apenas as comunicações via rádio, onde os olhos dos Fiscais de pista eram os olhos do Diretor de Prova e era baseados na sua grande preparação e na confiança que tínhamos neles que se decidia, para além de que com esses meios se tinha que controlar quase 7Km. Hoje tudo é mais facilitado, o Diretor de Prova tem uma cobertura total da pista, sentado numa cadeira tem nos monitores tudo o que está a acontecer, ao ponto de muitas vezes serem os Comissários de pista avisados para se prepararem e colocar a bandeira “x” ou “y” a determinada situação. Não deixa por isso de ser difícil, mas não são os tempos comparáveis…

No caso do CAVR, o meu Clube, pois continuará sempre a sê-lo, tem um papel importante no panorama automóvel nacional e internacional e diria muito importante para a atividade económica região que é quem mais partido tira das suas provas, apesar de muitos não o quererem reconhecer.

A sua prova preferida?

Vila Real, sem dúvida! Internacional, gosto imenso do Circuito de SPA e do Rali de Monte Carlo, ao qual já fui como espectador.

Planos para 2021?

Estou numa idade em que já não faço muitos planos, para já está definido que serei Observador do Campeonato Portugal de Ralis e do Campeonato Portugal de Montanha. Mais para o meio do ano, poderá surgir algo novo.

Quem é o seu ídolo?

A nível internacional, Ayrton Senna na velocidade e Marko Allen nos ralis, a nível nacional o Manuel Fernandes e sempre considerei como Piloto mais completo e versátil o António Rodrigues.

Quer deixar aqui os teus agradecimentos a alguém?

À minha família que foi quem mais se sacrificou e continua a sacrificar, nas minhas ausências para as provas, não esquecendo uma palavra para alguns amigos especiais que fiz ao longo desta carreira de quase 53 anos, com quem muito aprendi, eles sabem quem são.

Obrigado José Lopes, por ter aceitado o convite para esta entrevista ao Desportivo Transmontano.

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