Motores: à conversa com Joaquim Teixeira

Motores

Telmo Augusto (responsável pela secção “Motores” do Desportivo Transmontano), desta vez esteve à conversa com Joaquim Teixeira, piloto do campeonato de montanha com mais anos no ativo e possuidor de um palmares invejável. O piloto de Murça é também Presidente da Associação dos Pilotos de Montanha (APPAM).

Joaquim, é mais fácil ser piloto ou presidente da APPAM?

É diferente. Como piloto consigo uma adrenalina diferente quando estou em prova, sou só eu e a máquina que tenho de conseguir o melhor resultado possível. Por outro lado, quanto mais depressa ando em qualquer prova maior e melhor é a sensação de liberdade e de estar a viver a vida, fazendo uma atividade que gosto muito. Ser presidente da APPAM é mais o exercício de uma missão coletiva, onde juntamente com os meus colegas dos Órgãos Sociais, tentamos fazer o melhor para que cada vez mais, todos consigam ter as melhores condições para disputar o melhor campeonato, e conseguir vincar bem a nossa posição junto das instâncias que regem a modalidade, nunca sendo subserviente a nada nem a ninguém, porque o único objetivo que me move é o interesse coletivo sabendo que nunca estarei refém de nenhum poder instalado seja internamente seja externamente.

O ano de 2020, tinha tudo para ser um ano histórico para o Campeonato de Montanha. Recorde de inscritos na prova inaugural em Murça, um parque automóvel incrível, ainda irá a tempo de recuperar, devido a esta pandemia que se abateu no mundo?

Sim na nossa perspetiva o CPM J. C. Group 2020, iria ser o melhor campeonato de montanha de sempre, quer a nível de participantes nas provas onde tínhamos um objetivo de ter em média 45 a 50 pilotos por prova, ter mais publico e estes dois pontos foram visíveis em Murça, ter uma maior e melhor divulgação, e também aqui isso se verificou se atendermos que em 2019 tivemos um excelente campeonato e um retorno final de 5,1 milhões de euros, e em 2020 no primeiro trimestre só com uma prova e a Gala da Montanha, conseguimos mais de dois milhões de euros, de certeza que em 2020 o CPM iria ser a seguir aos ralis a modalidade com mais retorno de todas as disciplinas do automobilismo, o que iria provar que o rumo traçado que temos vindo a seguir é o mais acertado para esta modalidade.

Carro novo estreado em Murça, um Cupra TCR. Muitas diferenças para o Leon Eurocopa?

A principal diferença é a caixa sequencial e o modo de funcionamento deste diferencial autoblocante. Este carro curva e trava como o anterior (DSG) mas como se costuma dizer anda mais para a frente. Ao contrário do que se costuma dizer a diferença de andamento destes dois Seat não se nota mais nos traçados sinuosos, mas sim em traçados rápidos.
Em Murça eu tinha esperança que sem azares ou avarias iria conseguir um bom tempo (baixei para o segundo 15, retirando mais de 1s ao meu tempo anterior).
Com este tempo consegui o melhor tempo de sempre de todas as viaturas de turismo que tem participado ao longo dos anos neste prova. Sei que esta foi só uma prova onde consegui ganhar, mas tenho consciência que nas restantes irei lutar por vencer, mas os meus adversários também o irão fazer e só no final de cada uma se saberá quem vence. O que tenho a certeza é que mesmo nas que não consiga vencer, estarei lá a lutar até à última subida.

Para quem está sempre a dizer que está na altura da reforma, a competitividade demonstrada em Murça, com um carro desconhecido, só veio demonstrar que a reforma vai ter de esperar. Não concorda?

Realmente eu ando a dizer isso nos últimos anos e se por um lado sei que ainda sou competitivo e os resultados são a melhor prova disso, por outro lado sei que se abandonar e ceder o volante ao meu filho era irá conseguir fazer talvez ainda melhor do que eu. Por isso a minha indecisão. Até ao momento para conseguir ultrapassar isso eu tenho feito Montanha e ele provas de velocidade, e enquanto isso for possível iriei manter, quando não for possível e só um o poder fazer eu abandono e cedo-lhe o lugar a ele.

O que estava planeado para a equipa Bompiso Racing Team no ano de 2020?

Este ano o Daniel e o Joaquim Santos iriam fazer senão a totalidade das provas pelo menos a maioria das provas de circuito integrados no OPEN e no TCR Ibérico. Sabíamos que algumas não poderiam fazer por incompatibilidade profissional do Joaquim Santos, mas nas que ele pudesse iriam participar os dois para defender os títulos conquistado em 2019. Com este cenário não sei o que se vai passar, mas muito dificilmente conseguirão fazer muitas provas, e somente podem fazer alguma pontualmente.

É um orgulho ou uma preocupação o seu filho ter seguido as pisadas do pai?

Para mim inicialmente era uma preocupação por medo que alguma coisa lhe acontecesse e o prejudicasse na sua profissão. Mas agora sinto orgulho porque ele tem conseguido resultados e andamentos muitos bons, que lhe tem granjeado elogios de pilotos consagrados que lhe reconhecem capacidades como piloto, e tenho a certeza que ainda poderá fazer muito melhor, porque o Daniel além de ser bom piloto, é um bom ouvinte dos conselhos que lhe dão e é uma pessoa calma, e ponderada.

Qual o segredo para o sucesso do Campeonato de Montanha, em comparação, por exemplo com o Campeonato Nacional de Velocidade?

Penso que o segredo, é a união entre pilotos, equipas, clubes, a competitividade, e a organização que o mesmo tem tido e que em cada ano melhora. Também a grande divulgação que temos tido, depois de termos conseguido introduzir os meios necessários para que isso aconteça, fazendo parcerias com OCS, WEB, empresas, contratando os serviços de bons profissionais para a comunicação dos meios audiovisuais, e imprensa escrita. Não posso esquecer que este campeonato tem como base de sustentação, a interação direta com o publico nas provas, entre os pilotos e o publico, vamos às localidades, quase à porta de casa, e acima de tudo gostamos de conviver com o publico e com os fans. Também a nível de viaturas o CPM deve ser dos melhores a nível nacional e da europa. Os custos que conseguimos são muito mais apelativos do que na velocidade (seja nos Clássicos, Legends ou OPEN) a nível de inscrições e pneus. Por fim o promotor não tem como objetivo o lucro mas sim a promoção e retorno direto que proporcionamos aos pilotos e equipas, por isso nunca quisemos fidelizar marcas e produtos obrigatórias dando liberdade aos pilotos para utilizarem as marcas que cada um entende nas provas.

Os números apresentados do retorno mediático do CPM (Campeonato Portugal Montanha) são absolutamente incríveis. Podemos afirmar que compensa o investimento no desporto automóvel?

Sim. Nos últimos anos o CPM J. C. Group tem vindo quase a duplicar o valor de retorno final. Lembro de passou de 2.4 milhões para 4,7 milhões e para 5,1 milhões só em três anos. Este ano se não acontece esta pandemia penso que poderíamos ficar quase perto de atingir os 9 milhões de euros, o que nos iria colocar a seguir aos ralis.

Ter duas das mais importantes provas europeias, a ser disputadas no nosso país, o Masters na Rampa da Falperra e o Europeu em Boticas, é mais uma prova do trabalho feito no CPM ao longo dos últimos anos? A APPAM tem dedo nisso?

A APPAM, A FPAK, e os CLUBES, todos tiveram influência nisso.
Se o CPM não estivesse com a dinâmica que tem a FPAK não teria argumentos para defender estas candidaturas.
Por outro lado, os clubes tem feito o melhor na organização e promoção de ano para ano, mas também a nossa participação em Itália em 2018, foi um grande impulsionador para que a FIA notasse que Portugal gosta muito de montanha e tem capacidade para organizar estes eventos.
Estivemos presentes com uma comitiva de mais de 70 pessoas, que provocaram um impacto muito positivo em todas as delegações dos outros países presentes.
A melhor prova disso é que devido à pandemia foram anuladas em 2020, mas com a garantia de as manter em 2021.

De toda a panóplia de viaturas que já conduziu, qual o preferido?

O Renault Megane Trophy V6, pelo chassi e motor e este Seat Cupra por ser uma viatura com uma capacidade de curvar fabulosa.
Embora já tenha conduzido viaturas muito mais rápidas caso do NORMA, Radical, CVO, e dos BRC, acho que é nos turismos que mais me identifico.
O GT4 foi uma desilusão porque era um carro de estrada (até porta copos ainda tinha) e pesava mais 180kg do que um CUP, mas quem o visse por fora era um Porsche.

O momento mais alto da sua carreira e o que recorda com mais tristeza?

Os melhores momentos todos os campeonatos que conquistei, as participações no circuito da Boavista com o Joaquim Santos, e as que fiz com o meu filho no circuito de Vila Real. Também a minha participação em 2018 no master em Gubbio em Itália, e em 2017 Em Tenerife ficarão para sempre marcadas como pontos altos do meu percurso desportivo.
Os mais tristes, os últimos anos do meu amigo Paulo Ramalho que vi lutar contra a doença todos os dias e que acabou por perder a sua última corrida, o grave acidente este ano em Murça, e o partir do Bruno Pereira há poucos dias. Para mim estes sim foram tristes porque os meus acidentes ou o perder provas e campeonatos faz parte do desporto que escolhi por gosto.

Correr em Vila Real, como o descreve?

Algo inacreditável, principalmente quando o fiz com o Daniel ainda melhor. É indescritível ver os nossos amigos, aquele publico todo a assistir e a visitar-nos nas boxes. É um dos momentos que qualquer piloto gosta de poder dizer que participou, e olhe que já corri em locais também míticos como Boavista, Vila do Conde, Estoril e Algarve, mas Vila Real é único.

Qual o seu circuito preferido? E a rampa?

O meu circuito preferido é sem qualquer dúvida Vila Real.
A Minha rampa preferida pelo traçado técnico é Murça, em pelas condições de segurança Boticas.

Qual é o seu adversário mais difícil?

Nos troféus tive vários, na montanha tenho tido a sorte de ter sempre bons adversários nas divisões ou categorias onde tenho participado. É difícil dizer um porque eu já ando cá à muitos anos e eles vão passando e vem outros por isso o termo de comparação não é fácil.

Quem é o seu ídolo?

Nunca tive um ídolo, mas talvez na Fórmula 1 o Ayrton Sena, na velocidade Nacional o Ernesto Neves e o Manuel Fernandes.

Obrigado Joaquim Teixeira pela sua colaboração com o Desportivo Transmontano

Fotos by: K1n5E Photo

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