Motores: à conversa com Hugo Branquinho

Hugo Branquinho, esteve à conversa com o Telmo Augusto (responsável pela secção “Motores” do Desportivo Transmontano).

Hugo, faz-nos um resumo da tua carreira desportiva?

Bom chamar carreira, pode indicar algum tipo de exigência que não se aplica a este meu hobby contudo eu comecei a correr em campeonatos nacionais algo tarde. Aquando da minha experiência profissional fora de Portugal, nomeadamente, em Angola.

A primeira prova que fiz foi como convidado da equipa PUMANGOL, onde apoiava tecnicamente na evolução dos carros. O carro que me foi disponibilizado era um Honda civic EP3, oriundo do troféu BPI e a prova realizou-se no circuito citadino de Benguela.

Foi uma corrida muito interessante, dado que nunca tinha entrado num carro de corrida com o capacete posto. Foi uma excelente prenda de anos, dado que a corrida foi no dia em que fiz 30 anos.

Depois desta primeira corrida, achei que era interessante fazer um carro de corrida no quintal de um amigo (risos), foi o que fizemos. Foi com um Peugeot 106 GTI que iniciei a minha “carreira”. Foi uma altura fabulosa, as corridas em Angola eram, e penso que são, uma das grandes atrações das festas das províncias, o que fazia com que houvesse imenso publico e à noite havia sempre festa 😊.

Voltando à “carreira”, no meu primeiro ano fiquei em 2ª lugar e sem carro, dado que um amigo conseguiu convencer-me a vender-lhe o carro a meio da época. Ainda nesse ano comecei a correr com o Japonga em Portugal, e foi com o Japonga que fui conhecendo o desalento e a frustração dos acidentes e a má fé de algumas pessoas que pretendem a afirmação nas corridas, essas sim à procura da carreira na F1 (risos), uma vez que na corrida de Vila Real tive um “toque” de um piloto que fez com que a carroçaria do Japonga fosse para a sucata.

Este período foi decisivo para o que consegui até hoje, dado que tive de fazer decisões importante num ambiente negro, dado que já não tinha carro em Angola e o de Portugal tinha sido destruído; contudo também foi um momento de reflexão e reconhecimento das pessoas que me apoiavam e apoiam em todas as decisões, Família e Amigos.

Numa viagem de Vila Real para Guimarães, quando preparava a alteração de uma nova carroçaria para o Japonga com o meu amigo Jorge Magalhães, ele soube de um outro carro em Angola que estaria para venda, um Renault Clio 2 Cup oriundo do trofeu Clio português que estava parado em Luanda. Liguei logo para o dono e comprei o carro.

Foi mais uma aventura com o Jorge Magalhães, o grande culpado de eu estar agora a comentar a minha carreira 😊. Com o Clio fui campeão dos 1.600 em Angola e fiquei em 3º lugar na geral da prova de endurance da Huila.

Em 2016 voltei para Portugal, trouxe o Clio comigo e comecei a focar-me no campeonato de legends com o Japonga.

Em 2019 alcançaste o título nacional. Estava nos teus planos?

Nas corridas, ninguém entra para ficar em segundo, ou melhor, não sei quem disse esta frase mas aprecio muito, eu entro nas corridas na brincadeira desde que seja para ganhar (risos).

O que aconteceu em 2019 foi um alinhamento de situações muito boas para mim e não tão boas para o Luís Barros. Foi a luta da fiabilidade Japonesa em detrimento da potência do Ford.

Em 2019, o objetivo principal era conseguir resolver os problemas de fiabilidade do Honda e otimizar o motor, a vitoria do campeonato foi um extra 😊

O que estava pensado para 2020 e o que ainda vais concretizar?

A minha grande motivação nas corridas é a constante evolução da viatura, pelo que espero em 2020 fazer isso mesmo, melhorar o Japonga que este ano está com a decoração do carro da PIAA que correu no campeonato japonês de turismo de 89, e claro defender o título.

Muitas diferenças das provas de Angola para as nossas?

A minha passagem por Angola é muito querida, dai eu ter uma visão muito romanceada das corridas, e como era um hobby, quando penso nas corridas penso nos amigos que fiz, as situações caricatas, de quase atropelar um policia durante a volta de qualificação, fazer 1.200 km com um carro de corrida no atrelado e quase ficar preso por não ter documentos do carro de corrida, são tudo situações que nos marcam e quando olho para trás fico com saudade e com um sorriso de ter tido a possibilidade de as viver. O desporto motorizado em Angola está enraizado na sociedade Angolana. De tal forma que este ano temos o Victor Barros a correr em Portugal e a ganhar corridas em motos.

As provas em Angola pecam pela falta de segurança…contudo com a recém reconhecida Federação Angolana Desporto Motorizado pela FIA, onde sou um dos sócios fundadores, penso que serão dados passos relevantes para melhorar a segurança das provas.

Está previsto para o futuro participações em outras modalidades? Rampas, Rally ou outras?

Não. Gostaria de ter tempo para experimentar essas modalidades, contudo a combinação entre uma vida profissional intensa, familiar e hobbies já é um desafio, e não pretendo complicar mais esta equação.

Onde gostavas de chegar, no desporto automóvel?

Se me fizessem esta pergunta à quinze anos quando sai da faculdade, diria que gostaria de chegar a chefe de equipa de uma equipa de F1. Ainda bem que não aconteceu, porque iria transformar a minha paixão em trabalho e normalmente não corre bem.

Onde me encontro hoje, está muito bem. Faço corridas de uma forma positiva, com muita entreajuda, com o apoio da Família e amigos. Estou completo.

Como nasceu o gosto pelo desporto automóvel?

Na curva do sinaleiro 😊. A tentar ver os carros por entre as pernas das pessoas. O cheiro, o barulho e a envolvente das corridas de Vila Real, despertaram em mim o bichinho.

Os restantes dias após o click, foi tentar executar o plano de ser engenheiro mecânico para aprender o que é possível fazer num carro para que ele seja o melhor; já que para piloto não iria ser fácil pela falta de motivação dos meus pais.

Correr nos Legends, com tantos amigos e conhecidos a dividir a pista contigo, é benéfico ou um problema acrescido?

É benéfico, partilhamos informação do que está a funcionar com cada um de nós, e tentamos fazer com os nossos amigos fiquem o mais bem classificados possível.

Qual foi, até agora, o teu adversário mais difícil?

Eu próprio. A gestão de nervos é fundamental para não se fazer asneiras. E eu tenho estado a desenvolver esta crosta. Ainda preciso de trabalhar mais, mas penso que estou a melhorar. Depois de ver as filmagens do arranque da corrida 1 em Braga, talvez esteja cauteloso demais (risos).

O que é e quem faz parte da BilaRace?

Amigo e solidário. Alguém que gosta de carros, mas mais do que isso é integro e correto.

Quem é o teu ídolo?

O Lauda. Revejo-me muito nele.

O porquê da escolha do Honda Civic?

Calhou…gostava de ter dar uma história fantástica, mas não, foi o meu amigo e patrocinador Gustavo Pereira da DNY Racing que me induziu…e não estou nada arrependido.

A tua pista favorita?

Eu sou da Bila…pelo que vai parecer um cliché dizer Vila Real, pelo o que não farei, mas certo que é. A minha pista favorita é Braga. É um circuito que permite minimizar a diferença de performance dos carros e o piloto vem ao de cima.

Como descreves o correr nas ruas da nossa cidade, no Circuito Internacional de Vila Real?

Apertado (risos) e sempre no fio da navalha, onde as pessoas que me viram crescer estão entre os espetadores e me enviam mensagens de incentivo. Mas mais do que isso, é reviver a minha infância cheia de sonhos de pertencer ao clã das corridas enquanto tentava ver os carros a passar por entre as pernas das pessoas.

Obrigado Hugo, por teres aceitado o convite para esta entrevista ao Desportivo Transmontano.

Obrigado eu pela oportunidade de partilhar um pouco da minha história com todas as pessoas que terão a paciência para ler estas palavras, com duvidas se as mesmas conseguirão transmitir a enorme paixão que tenho pelo desporto motorizado em geral e a honra de ter sido criado nos valores de integridade e amizade que pautam os Transmontanos.

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