Glórias do passado: Vicente, figura maior do clube

Foi a 30 de Julho de 1954 que Vicente Lucas chegou a Lisboa. Aos 18 anos trazia um cartão-de-visita recomendável (irmão do já herói Matateu) que fez sempre questão de recusar: queria impor-se pelos seus méritos e não pelo grau de parentesco que o ligava a uma das maiores figuras do futebol português. Vestiu a camisola do Belenenses pela primeira vez a 5 de Setembro, na festa de homenagem conjunta às grandes estrelas que foram Rogério de Carvalho e António Feliciano, e a 12 do mesmo mês lá estava como titular azul na equipa que defrontou o FC Porto, nas Salésias, no arranque do campeonato. Não fez por menos e selou a vitória belenense apontando o golo solitário da equipa.

Cedo Vicente Lucas conseguiu emancipar-se da ligação familiar ao mano goleador. Fernando Riera, o chileno que vivia a primeira experiência no banco (seria terceiro no Mundial 62 pelo seu país e havia de jogar a final da Taça dos Campeões em 1963 pelo Benfica) cedo entendeu o modo correcto de aproveitar a delicadeza, a visão e a inteligência do novo recruta. Não era avançado, como precipitadamente se pensou, mas um médio com extraordinárias qualidades.

E foi desempenhando essas funções que construiu uma carreira ímpar, no clube, no futebol português e, como se fosse pouco, no próprio futebol mundial.

Eternos ficaram os duelos com Pelé, o rei do futebol, o melhor jogador do seu tempo e, para muitos, o melhor de sempre. Nos vários confrontos directos Vicente saiu sempre vencedor, com a particularidade de o conseguir sem tocar sequer no adversário. À tarefa da marcação individual juntava a limpeza de processos e intenções, nem sempre muito bem compreendida pela imprensa e adeptos brasileiros. Quando confrontado com a acção de Vicente, o rei não esteve com meias-tintas ao afirmar, cansando de tanta pancada, que oxalá fossem todos tão leais e competentes como ele.

Com o tempo, Vicente foi recuando no terreno até terminar como defesa-central, uma função que desempenhou na Selecção Nacional que foi 3ª no Mundial de Inglaterra, em 1966. Cerca de três meses depois de ter contribuído para o extraordinário feito dos Magriços sofreu um acidente de viação no qual perdeu a vista direita. Terminou assim, prematuramente, a carreira de um dos melhores jogadores portugueses de todos os tempos, oriundo desse berço dourado onde nasceram Matateu, Coluna, Hilário, Eusébio, entre outros.

Aos 80 anos, a antiga glória do futebol português sofre de falta de irrigação sanguínea (vulgo gangrena) no pé esquerdo e o seu estado de saúde tem-se deteriorado. Acompanhado por vários médicos, o “Magriço” aguarda um diagnóstico final sobre a amputação (e a sua extensão), sendo que esta é praticamente inevitável.

Vicente recebe ajuda do Belenenses, tanto em termos monetários (vencimento de 1200 euros por mês), como em acompanhamento médico. O clube interveio na mudança de habitação do ex-atleta do 2º para 1º andar (equipado para portadores de deficiência) no prédio onde vive, no Dafundo.

Contactado pelo nosso jornal, Patrick Morais de Carvalho, presidente do Belenenses, afirmou: “O clube há muito que acompanha o estado de saúde de Vicente e vai ajudá-lo sempre.”

Vicente Lucas, ex-jogador do Belenenses e da selecção nacional nas décadas de 50 e 60, está em risco de perder a perna esquerda, apurou o Mundo Português.

Orlando Fernandes (Jornalista)

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