Glórias do passado: Tuna Caranguejeiro, bolas de trapos

Em entrevista ao nosso jornal, José Tuna Caranguejeiro recorda uma vida dedicada ao futebol. Enquanto jogador, vestiu a camisola de clubes como o Torres Novas, o Benfica, o Peniche e o União de Leiria. Quando “ganhou juízo”, pendurou as botas e durante 13 anos colocou a braçadeira de treinador para liderar uma equipa de futebol do Distrital de Leiria. Em 2012 lançou o livro “Chutos na Bola com Humor à Camisola”, no Estádio da Luz, perante uma ilustre plateia que contou com a presença do falecido Eusébio. Atualmente, aos 70 anos, mantém a ligação ao “Desporto Rei” através da escrita com humor e é com orgulho que apresenta a Carteira Profissional de Jornalista com “um número pequeno”, registado “há bastantes anos”. Diz-se “lampeiro” de raiz e sempre que tem oportunidade dá a conhecer as sus origens. A aldeia de Lapas, no concelho de Torres Novas.

 – Quem é o José Tuna Caranguejeiro? Quer apesentar-se?

 – Eu sou natural de Lapas, Torres Novas e tenho muito orgulho da terra onde nasci. Sempre que vou a qualquer lado – inclusive nas duas ou três vezes em que fui à televisão – nunca me esqueci de falar na minha terra natal. Embora não a visite com regularidade, é uma terra de gente que estimo muito. Tenho 70 anos já não sou nenhuma criança. E posso dizer que há 57 anos que estou ligado ao desporto nas diversas áreas. Como jogador, como treinador como jornalista e como escritor. Fui bancário e também já fui autarca na Juna de Freguesia de Leiria durante 4 anos. E também sou voluntário na Prisão Regional de Leiria há bastantes anos apesar de agora, com isto da pandemia, ter feito um descanso.

 – De todas estas vertentes, o futebol teve sempre um lugar especial na sua vida, não é verdade?

 – Isto, pode parecer imodéstia da ninha parte, mas posso dizer que sinto orgulho do percurso que fiz como desportista. Porque nestes 57 anos estive sempre ligado ao futebol. Embora não desgoste de outras modalidades o futebol, como as pessoas costumam dizer, é o “Desporto Rei”. E foi através do futebol que eu atingi também alguma projeção.

 – E como é que surge o jornalismo na sua vida?

 – Eu sempre gostei de escrever e de fazer apontamentos. E quando sai do União de Leiria fui convidado para ser coordenador do desporto do Jornal de Leiria. Comecei por aí. Depois, entretanto, comecei a “jogar em dois campos”, que era o Jornal de Leiria e o Correio da Manhã. Fui o primeiro correspondente do Correio da Manhã em Leiria. E também escrevi para o Jogo e algumas coisas para o Jornal A Bola e para o Record. Tenho a Carteira Profissional de Jornalista já há bastantes anos.

 – Que memórias é que tem da sua carreira no CDTN?

 – Quero dizer que fui o jogador que em toda a história do Torres Novas, mais dinheiro deu ao clube. Porque quando eu fui para o Benfica, uma das cláusulas que havia, era a famosa equipa de reservas vir cá fazer dois jogos com jogadores com o Guerreiro, o Santana e o Iaúca. Depois, também com uma certa polémica, o Torres Novas exigiu que se eu ficasse no Benfica, eles tinham de dar 200 contos ao clube. E quando regressei a Torres Novas vim para acabar o curso na Escoa Industrial e Comercial e fiquei no CDTN 6 anos consecutivos. Quando acabei o curso, fui para o Peniche e com a minha transferência, o clube também recebeu uma boa quantia e não foi tão pouco quanto isso. Por isso é que eu digo que dei muito dinheiro a ganhar ao Torres Novas.

 – Pode dizer-se que a sua saída para o Peniche foi o ponto de partida para outro tipo de oportunidades no futebol?

 – A minha rampa de lançamento foi no Peniche, onde tive o prazer de jogar com o Jorge Jesus, que também é um moço porreiro. Depois tive um convite do União de Leiria. E eu disse-lhes que ia para lá, com a condição de eles arranjarem emprego. E por acaso, depois arranjei mesmo emprego e fui bancário durante 20 anos numa agência do Banco de Portugal em Leiria. Mais tarde ainda joguei no Marrazes, que é um clube com muito carisma. Fiz uma época excelente.

 – Consegue traçar-nos aqui o seu percurso no futebol, como jogador e como treinador?

 – Como jogador representei o Torres Novas, o Benfica, o Peniche, o União de Leiria e o Marrazes. E também fiz alguns jogos no Vieirense, no Porto de Mós e no Soutocico. Depois deixei de jogar, que já tinha idade para ter juízo. Treinei o ARCUDA de Albergaria dos Doze, durante 13 épocas. Uma equipa com pergaminhos pela Associação Distrital de Futebol de Leiria, Resumidamente, isto foi parte do meu currículo como jogador e como treinador.

  – Também foi chamado à Seleção Nacional e chegou a ser campeão nacional. Quer contar-nos essa história?

  – Eu fui campeão distrital pelo Benfica duas vezes. Uma das vezes ganhámos ao Sporting cinco a zero na Tapadinha e no ano seguinte, fomos bicampeões distritais vencendo o Sporting na finalíssima, Empatámos no Estádio Nacional no prolongamento (1-1), fomos jogar a finalíssima ao campo da Tapadinha e ganhámos (2-1). No tempo do Raul Águas, do Humberto Coelho, do Nené, do Montoia… uma equipa também esplêndida. Acontece que nesse ano, não foi atribuído o título de campeão nacional. Porque houve um protesto de uma equipo do Norte, que envolveu uma confusão no final da época 66/67. Por isso não posso dizer que fui campeão nacional. Quanto à seleção, costuma-se dizer que um indivíduo só é internacional quando joga e eu…quer dizer vesti a camisola da seleção por duas vezes, fui suplente, mas não cheguei a entrar em campo. No ano seguinte passei a sénior e ingresse no Clube Desportivo de Torres Novas (CDTN).

 – O que é que lhe faltou juntar ao currículo?

 – Joguei 16 épocas nos nacionais. Mas de facto, foi pena não ter vestido a camisola de um clube da 1ª Divisão Nacional.

 – Em que posição é que gostava mais de jogar?

 – O que eu gostava mesmo era de andar ali na guerra, de ser jogador de marcação. Defesa central. Porque eu no jogo aéreo era de facto excelente, mas de pés não era nenhum malabarista. Em miúdo até era mais malabarista. Eu jogava mais para a equipa e para o resultado. E a nossa obrigação era cumprir com aquilo que o treinador dizia. Eu fazia o que eles diziam e não me aventurava muito. Embora até marcasse os meus golos de cabeça, porque como disse, no jogo aéreo, por vezes eu era imbatível.

 – Em 2012 lançou um livro sobre futebol no Estádio da Luz. O que é que nos pode contar sobre esse livro?

  – Esse livro foi um êxito “Chutos na bola com humor à camisola”. Até o título é chamativo. Foi apresentado no Estádio da Luz pelo João Malheiro, que na altura estava ligado ao Benfica. Esteve presente o saudoso Eusébio, que ainda era vivo na altura. E outros craques ligados ao futebol. Depois, lancei-o também Auditório do Estádio Municipal de Leiria, perante 120 pessoas, o que foi excelente. As pessoas até diziam: “Está mais gente a assistir à apresentação do teu livro do que aquelas que estiveram nas conferências de imprensa na altura do Europeu”. E também, é de registar que a apresentação do livro foi feira pelo meu amigo e antigo colega Nené, o que também cativou muitas pessoas. Porque ele é de facto um indivíduo de fácil trato. É uma pessoa esplêndida. Cinco estrelas mesmo. E em 2013, apresentei o livro aqui em Torres Novas.

 – “Chutos na Bola com Humor à Camisola”. Qual a razão deste título?

 – Porque o livro fala essencialmente de futebol e de pessoas ligadas ao futebol e depois porque tem também, a parte do humor. Desde há uns anos a esta parte, que comecei a enviar anedotas para o Diário Popular e também reconheço que tenho algum humor. Portanto, em vez de ser como se costuma dizer, “Chutos na Bola com Amor à Camisola” – que também podia ser porque eu sempre joguei por amor à camisola – trocou-se “humor”, que também é um termo apelativo.

 – Quer contar-nos algum episódio mais curioso ou humorístico que tenha marcado o seu percurso?

 – São muitos. Para o jornal “O Almonda” eu já envie 1202 episódios. Comecei por colaborar com “O Almonda” em 1971 quando fiz a análise sobre a época futebolística, no tempo do saudoso Canais Rocha e agora tenho enviado esses episódios que vou registando. E todos eles me marcaram. Eu tenho aqui o livro e posso ao acaso destacar aqui este episódio que fala daquele que é considerado o melhor treinador de futebol do mundo. O José Mourinho. Quando eu trabalhava para o Correio a Manhã, o diretor pediu-nos um trabalho em que eu teria de vestir a pele de futebolista, desde o balneário até ao relvado e entrevistar o José Mourinho. E ele, bastante simpático, chegou ao pé de mim e disse-me assim: “Oh Tuna, eu sei que jogou no União e Leiria e que há muitos anos está ligado ao futebol. O meu pai conhece-o muito bem. Mas o balneário para mim é sagrado. E só entram nele, pessoas intimamente ligadas ao grupo de trabalho”. E tive de concordar com a resposta.

 – E um episódio que destaque, em que tenha estado envolvido enquanto jogador?

 – Estou a recordar-me de um jogo em que o Benfica foi campeão nacional, em 1994. O último jogo foi com o Guimarães. E o Benfica já se tinha sagrado campeão em Braga, salvo erro contra o Gil Vicente. E eu joguei uns 10 ou 15 minutos nesse jogo. E quando foi feita a chamada do meu nome para entrar em campo, levei com o aplauso de 120 mil pessoas. Porque não era possível entrar mais gente no Estádio da Luz.

 – Sabemos que o seu pai gostava que tivesse seguido uma carreira na música, mas o futebol acabou por desviá-lo desse caminho…

 – Sim, cheguei a vestir a farda da banda. Mas eu não era músico. Apesar de ter chegado à centésima lição e de inclusivamente me terem dado uma trompa. Mas claro, eu gostava era de futebol. Eu jogava de pé descalço. Porque o meu pai dizia-me que se eu quisesse jogar, tinha de ser de pé descalço. Agora, se jogássemos descalços, eram certas umas bolhas de difícil cura. Mas eu habituei-me assim a dar os primeiros toques na bola. Jogava de pé descalço e fazia bolas de trapos com as meias que eram da minha avó. E o pessoal gostava de jogar com aquelas bolas, que eu fazia muito bem. Eu não nasci em nenhum berço de ouro. O meu pai trabalhava na Fiação e Tecido em Torres Novas e a minha mãe era doméstica, mas também fazia trabalhos de costura. Eram outros tempos. E foi assim que dei os primeiros passos no futebol.

Orlando Fernandes (jornalista)

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