Glórias do Passado: Paulo Futre, engraxar as botas

Perdeu-se um bom bate-chapas e ganhou-se um dos melhores jogadores de todos os tempos. Fez com que Pinto da Costa cometesse um loucura para o contratar e, mais recentemente, tornou- se “sócio” de todos os portugueses.

 – Ainda se lembra do nome completo do seu vizinho, que teve de decorar para entrar naquele primeiro torneio por não ter idade?

 – Rogério Paulo Viegas Alves.

 – Mantém contacto com ele?

 . Sim, é meu amigo de infância. É um ano mais velho e quando vou ao Montijo costumo estar com ele. É um amigo do coração, conheço-o praticamente desde que nasci. Ele vivia no número 14, a minha avó no 16 e eu no 18. Era um ano mais velho do que eu, mas para o futebol era horrível.

 – Aos nove anos, brilhou num torneio de miúdos dos dez aos 13. E, aos 11, foi capitão de uma Seleção portuguesa que foi a um torneio em França. Naquela altura já tinha consciência de que era um craque?

 – No Montijo era normal ser o melhor, mas aí foi crucial para a minha confiança. Foi a primeira vez que se fez uma Seleção Nacional para os11 anos.

 – Quando olha para um jogador como Ronaldo- focado, obcecado até com os treinos e em manter-se bem fisicamente – não pensa: “Caramba, se eu tivesse aquela cabeça era o melhor do Mundo de todos os tempos”?

 – Não posso dizer isso assim. Por exemplo, eu fumava, mas era muito controlado: 12 cigarros à terça, dez à quarta, oito à quinta, seis à sexta. Mas cuidei-me sempre bem, descansava sempre muito. Tirando os primeiros tempos no Porto… abusava um bocadinho.

 – Portugal teve Eusébio, Figo, Ronaldo. Mas com a “ menina” nos pés, algum deles era melhor do que o Futre?

 – A nível de talento puro de rua todos temos, ninguém pode comparar-se a ninguém. Eu e o Figo éramos dois extremos de grande talento, mas o Cristino é um extra – terrestre. Não consegui chegar lá.

 – É verdade que se perdeu um grande bate-chapas?

 -. Dizem que sim.

 – Lembra-se de quando foi o seu primeiro ordenado e o último?

 – Primeiro ordenado foi aos 15 anos: dez contos. O último foi, aproximadamente, um milhão de euros.

 – Pinto da Costa fez-lhe um contrato milionário que o tirou do Sporting. Conte a história mais incrível ou caricata que viveu com o presidente do FC Porto?

 – A primeira vez que o vi, disse-me a emblemática frase que ficou gravada até hoje: “O FC Porto vai ser tu e mais dez”. Pinto da Costa é uma pessoa com um sentido de humor maravilhoso, foi uma pessoa que me marcou. Já tinha a mãe dos meus filhos e, quando eu abusava, ele chamava-me lá acima e dizia-me: “Paulinho, não achas que estas a abusar?”. E quando era chamado, já tinha levado umas broncas do mister Octávio Machado. Pinto da Costa aparecia em último caso, mas conseguia sempre colocar-me na linha e sem levantar o tom de voz.

 – E Gil y Gil, líder do Atlético de Madrid?

 – Oh pá…estava todos os dias em contacto com ele. Sobre isso, vou escrever o meu último livro. Cheguei ao clube tinha 21 anos com um plantel mais velho, com jogadores da Seleção espanhola. No dia da apresentação, chamou-me à sala dele e disse-me: “Vais ser o capitão”. Pensei que ele era maluco, que me queria matar. Era um miúdo, o único português e o balneário era de peso. Era impensável. Pedi-lhe dez vezes para não fazer isso. Ele era um grande presidente, mas tinha um defeito enorme em comparação com o Pinto da Costa: falta de paciência Perdia- com muita facilidade. Tive 14 treinadores em quatro anos. Queria ser sempre campeão, tinha um mau perder terrível Se corria mal, chegava ao balneário e havia sempre confusão.

 – Sempre geriu bem o assédio feminino? Parece que no FC Porto recebia cartas com fotos fantásticas e depois encontrava-se com elas e não era bem assim…

 – Inventava sempre a mesma desculpa: dor de dentes. Em Espanha, aconteceu-me uma situação caricata: uma fã ia sempre aos treinos e todos os dias me levava uma prenda, obrigava-me a aceitar e escrevia-me cartas quase todos os dias. Até que começo a evitá-la e passou a ir à minha casa e a tocar à campainha. Isto durante meses. Aconselharam-me a ir fazer queixa porque já tinha conseguido o meu número de casa e ligava à minha procura. Até que tive a ideia de ligar para ela e ir tomar um café. Comecei a ser eu a ligar para ela até tirar aquela obsessão que tinha.

 – Temos a sensação de que esteve uns anos afastado do espaço mediático em Portugal e volta a aparecer com a conferência de imprensa de Dias da Cunha à presidência do Sporting, onde falou de trazer charters de chineses para Portugal. Na altura foi alvo de muitas piadas, até da Imprensa e de comentores. Agora não lhe apetece dar umas valentes chapadas nessa gente?

 – Aquelas eleições foram um trauma para mim e ainda hoje são. Depois, tive vários convites e recusei. Aquilo foi uma loucura, tive aqueles pseudocomentadores que tinham obrigação de saber que aquilo não saiu de mim. Um jogador japonês tinha sido contratado pelo Peruggia, em Itália, e rendeu milhões. Mais tarde, a Espanha adotou a mesma estratégia com o primeiro jogador chinês a ir para um clube espanhol e, só nesse jogo em que entrou na segunda parte, estavam 300 milhões a assistir. O mais engraçado de tudo isto é que, devido a essa situação toda a geração mais jovem começou a chamar-me “sócio” e reconhecer-me porque os pais lhes diziam quem eu fui. Vinham, ter comigo e diziam-me: “Sócio, tu eras o ídolo os meus pais e avós”.

 – O que fazem atualmente os seus filhos?

 – O meu filho Fábio é trinador das camadas jovens no Atlético de Madrid. O mais velho é um caso sério… digo sempre que o meu talento do pé esquerdo lhe foi para a cabeça. É um campeão, está entre os melhores alunos de sempre da Universidade de Artes. São os dois um grande orgulho. O mais velho é mais parecido comigo, já o Fábio é mais tímido.

 – Em agosto do ano passado, perdeu o seu pai. Sempre tiveram uma relação muito forte. Foi a maior derrota da sua vida?

 – Foi uma perda tremenda, tínhamos uma boa relação.

 – É verdade que o seu pai sempre lhe arranjava defeitos nos jogos?

 – Sempre, sempre. Mais recentemente, estava ao lado dele a ver um jogo de futebol – estava doente – e fez-me um elogio: “Se jogasses agora, estes jogadores não serviam nem para te engraxar as botas”. Foi o primeiro elogio que me fez. Estava ao lado dele e até fique admirado, porque ele ia sempre buscar algum defeito.

 – E na jogada genial que fez na final da Liga dos Campeões e deu golo, disse-lhe que a finalização foi de um jogador da distrital?

 Essa é a frase dele em 87. Nunca ninguém me viu o erro e ele percebeu. Só ele é que viu logo que eu não queria passar a bola. Quando chegámos ao aeroporto, estávamos eufóricos e ele chegou ao pé de mim e disse-me: Fizeste uma jogada de génio e como é que pudeste fazer aquela finalização de um jogador da distrital?” Saí do estádio como o melhor jogador do Mundo, a pensar que ia ser Bola de Ouro e chego o pé dele e diz isso. Orgulhoso, mas queria que tivesse sempre os pés assentes na terra.

Orlando Fernandes (Jornalista)

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