Glórias do futebol: Ricardo, tivemos oportunidades

Quando Ricardo tirou as luvas e as lançou para o chão no momento de se preparar para o penálti de Darius Vessel, um calafrio perpassou pela multidão que enchia o estádio da Luz como o ovo. Adivinhava-se o momento de magia: era inevitável, convenhamos. Ninguém, toma uma decisão tão espontânea, tão radical, que não tenha a absoluta certeza de que, lá no alto, um ser superior qualquer avalizou (ou abençoou, se preferirem) o que vai acontecer a seguir. Ele perder a urgência que tomara conta dele, rematou para lá das capacidades de David James colocando Portugal nas meias-finais do Euro-2004. Nunca se vira nada assim. E, de repente, o vermelho engoliu o branco como se o branco se tingisse do sangue de ingleses derrotados.

  – Diz-me lá, sentes-te como um herói do Euro 2004? Depois de tudo aquilo que aconteceu no jogo contra a Inglaterra…

 – Claro que não, amigo…Nem pensar nisso! Sinto-me, sim, como um dos que proporcionaram um sentimento de alegria coletiva aos portugueses como nunca se tinha sentido até então…

 – Bem, mas ninguém te tira um dos momentos históricos: aquele, surpreendente, de tirares as luvas e defender um penálti. Ainda te recordas muito disso?

 – Esse foi, é e será um dos momentos que marcou a minha carreira mas que também me marcou pessoalmente…

 – Então? Conta.

 – Olha, foi um momento genuíno, de inspiração pessoal e como tal é normal que me recorde dele com muito carinho. Desejava e ainda hoje desejo, passados estes anos, que tivesse sido antes na final…Seria supremo.

 – Que te passou pela cabeça naquele momento preciso? Tinhas algo ensaiado?

 – Não. Nada. Foi uma espécie de “olha…, lá vai disto”… Hehehehe…Como te disse há pouco, foi um momento só meu, de motivação pessoal, Completamente espontâneo. Passou-me pela cabeça e fiz aquilo de tirar as luvas e lançá-las para o chão…

 – Estavas mesmo convencido de que ias defender o penálti, não estavas?

 – Se queres que te diga, com sinceridade, nós convencidos estamos sempre…Um guarda-redes tem que interiorizar que consegue defender qualquer bola, seja onde for e quando for. Agora, aquele momento é algo que não se explica…Sente-se…Senti que algo iria ser diferente. E foi, felizmente para nós.

 – E depois: como te veio a ideia de marcar o penálti logo a seguir, ainda por cima decisivo?

 – Já estava pré-definido que, seria os marcadores dos penáltis… A verdade é que minha vez de marcar já tinha passado… eheheh… Assim peguei na bola e resolvi o assunto. Foi tudo em segundos. Uma sensação impressionante com toda aquela gente que enchia o estádio.

 – Era tudo moral?

 – Pode-se juntar o Moral ao Trabalho, assim mesmo maiúsculas. A minha vida tem sido feita dessa forma e continuará a ser. Uma enorme. Dedicação e uma imensa Paixão com que vivi a minha profissão.

 – De que te recordas depois de teres marcado o penálti decisivo?

 – Recordo-me da explosão de sons em meu redor…Incrível! Parecia que não sabíamos ao certo o que fazer. Foi, de facto, um momento que dedico sempre a todo nós que passámos por todas as dificuldades…Todos nós naquela equipa fantástica que merecia ter tido mais sorte e ter dado o título de campeão da Europa aos portugueses.

  – Foi um dos melhores momentos da tua vida?

 – Sem dúvida nenhuma! Isso nem se discute. É um momento que jamais será apagado da minha memória. E que eu revivo muitas vezes com enorme alegria.

  – Depois houve a tristeza da final: Estiveste no centro dos acontecimentos que permitiu à Grécia marcar?

 – Olha. Respondo assim: só somos culpados da maneira como nos entregamos às nossas paixões…e sinto uma tristeza profunda? Sinto sim. Muitos não serão sequer capazes de imaginar. Mas culpa, não!

 – Afinal que desentendimento foi aquele que deu o golo ao Charisteas? Já sabíamos que eles faziam aquela jogada sempre, não fomos apanhados desprevenidos, pois não? Já tinham eliminado a França e a República Checa daquela forma…

 – Pois… É verdade, mas que dizer? Foi um lance repetido muitas vezes pela seleção grega que conhecíamos bem, para o qual fomos alertados e, ainda assim, não conseguimos contrariar…O futebol tem destas coisas. Devíamos ter estado melhor nesse lance? Sim. Mas também não foi apenas o golo da Grécia que definiu o jogo. Tivemos muitas oportunidades para marcar e infelizmente, não fomos capazes. Errámos de um lado e do outro. E faltou-nos um bocadinho de sorte, que tudo fizemos por merecer durante o Europeu.

 – Voltaste a ir a um Europeu, em 2008, na Áustria-Suíça, mas já não foi a mesma coisa, pois não?

 – Todas as grandes competições são vividas duma maneira bastante intensa, mas um ambiente igual jamais vivemos. Não é sequer possível fazer uma comparação entre 2004 e 2008. Não vale a pena entrar por aí…

 – Porquê?

 – Por vários factores. Um dos principais foi, sem dúvida, o facto de o Euro-2004 se ter jogado no nosso país. Envolveu todo o povo português de uma forma fantástica, a forma como as pessoas viveram os jogos em nosso redor, como criavam expectativas para os jogos que aí vinha, as festas nas ruas, uma união inacreditável de apoio à seleção. Tudo isso só se viveu uma vez. Felizmente reparti isso com os meus companheiros.

  – De todos esses momentos, qual recordas com mais carinho?

 – Não recordo um momento. Recordo a união e a amizade que se criou dentro daquele grupo de grandes pessoas e enormes atletas…O espírito de equipa era extraordinário, éramos próximos um dos outros, lutávamos por um grande objetivo nacional. Algo de tão, tão bonito.

Orlando Fernandes (Jornalista)

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