Futsal vs Covid-19 – a divergência sobre o valor da vida

Quando iniciei a minha carreira de Treinador há uns anos atrás (agosto 2006), coloquei como objetivo aprender, evoluir e crescer bastante para além do que aprendi como jogador e formar-me para tentar ser melhor.
Porque, uma coisa é gostar desta modalidade, outra é estar preparado para ela: para liderar, formar, educar e treinar jogadores.

Todos eles merecem a tua melhor versão de Treinador, mostrando-lhes que estás totalmente preparado para assumir o projeto onde estás inserido.

Apesar dos anos que tive como jogador (13), mais 15 até ao momento como Treinador, nós nunca estamos preparados para uma situação com a qual vivemos diariamente.

A Covid-19 tem-nos testado todos os dias, todas as semanas, todos os meses desde que teve início a época 2020-2021.
A dúvida, a incerteza, o medo vive em nós diariamente. Nas viagens para os treinos, nos treinos, nos jogos.

Durante a paragem competitiva, muitas queixas existiram, muitos clubes se uniram e muita luta se travou para haver justiça desportiva.

Uns ficaram contentes porque não desceram, outros acabaram por ficar felizes por ver a sua luta trazer benefícios e as subidas desejadas por todos os que trabalharam para tal.

A retoma competitiva, apesar de tardia e desejada foi vivida com a vontade e ansiedade do: “vamos lá ver como isto corre”.

Testes aleatórios adensaram ainda mais a dúvida e a incerteza do grande e grave problema que todos atravessamos.
Eu, tenho jogadores que estudam, outros trabalham. Estamos limitados a nós próprios, à nossa responsabilidade individual e coletiva para podermos gerir os recursos que temos dentro do contexto que vivemos.

A FPF não exige testes, a FPF apenas olha aos €. Se jogas, tens de pagar, isso é o mais importante para eles. Arbitragem, policiamento, inscrições, etc…

Mas, e infelizmente, se algum jogador da 2ª divisão nacional contrair o vírus, a responsabilidade não é da FPF, é do próprio jogador e do clube que representa. Estamos sozinhos desde o início, andamos à deriva dentro de uma tempestade que parece não ter fim.

Somos o enteado da FPF. Não somos tidos nem achados para nada. Parece que a luta travada para atingir as devidas subidas, virou agora num: “assim quiseram, agora amanhem-se” ou o normal “comam e calem-se”.

A diferença entre jogar na Liga Placard, na 2ª divisão nacional ou em um distrital é vista de maneira desigual porquê? O vírus não escolhe idades, não escolhe géneros, não escolhe modalidades nem muito menos divisões.

E, quer queiramos, quer não, neste momento ninguém tem condições de isolamento, nem os clubes têm capacidade financeira que lhes permita testar jogadores, treinadores, diretores as vezes necessárias para pensarmos que estamos a trabalhar e a competir em segurança.

Neste momento, estamos todos expostos à honestidade do próximo. E será que todos são honestos? Ou só quando convém?

Não quero com isto dizer que existe ou que já existiu trapaça, mas que estamos totalmente expostos a esta pandemia e a ter uma enorme responsabilidade sobre o próximo, seja adversário, seja em nossa casa, lá isso estamos.

Se já tivemos de alterar jogos para o fim de semana de manhã, para noites durante a semana, para adiar, trocar, enfim…, se já andamos aqui como joguetes, façam a última cartada. Olhem para o que realmente importa: a saúde e a vida de todos.

O Covid não nos pode desunir em função de olharmos apenas para o nosso umbigo. Hoje estamos em alta, amanhã não sabemos.

O lema da nossa modalidade é competir, treinar, melhorar e reajustar.
Mas não a qualquer preço.
Não ao preço de uma vida.

Fernando Parente (Treinador de futsal)

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