Futsal: Fernando Parente entrevista Paulinho Roxo

Fernando Parente foi ao encontro de Paulinho Roxo, jogador experiente, de 37 anos, atualmente ao serviço do CR Candoso, equipa que luta pela promoção à Liga Sportzone, mas com passagens em Portugal, pelo Sporting, SC Braga, Unidos Pinheirenses, e Futsal de Azemeis.

Paulinho Roxo, chegas a Portugal em 2003, vindo da tua primeira experiência em Itália no Genzano di Roma. Vens rotulado de craque, de finalizador e segues para um clube com muita expressão no futsal nacional, o Sporting Clube de Portugal. Sentiste que a tua chegada ao SCP era a cereja no topo do bolo?

Quando cheguei a Portugal a única coisa que tinha em mente era ser feliz. Era muito jovem e não tinha ainda a dimensão do Sporting CP, só depois de estar cá é que descobri o tamanho do clube e o quanto teria que me esforçar para retribuir a confiança que tinha sido depositada em mim. Mas foi simplesmente mágico, desde o primeiro dia.

Fizeste a tua formação em clubes do Brasil, mas dividido entre o futebol 11 e o futsal. Quando é que realmente decides enveredar apenas pela modalidade de Pavilhão?

Eu praticamente nasci dentro de um pavilhão, meu tio jogava futsal, e por isso desde os 4 anos já andava atrás dele, na verdade o meu coração sempre bateu pela bola pesada.

E o porquê dessa escolha?

Eu na verdade sentia-me muito mais importante e mais à vontade no futsal, apesar de ter feito muito bem o meu papel no futebol de 11. Quanto mais perto chegava à idade sénior, mais vontade tinha de jogar futsal, não foi uma escolha difícil.

Corinthians, Ceret, Universidade de São Judas, Juventus, General Motors, Palmeiras e AA Guarulhos, clubes com futsal e futebol de 11 onde foste formado. O que tens a dizer sobre esses clubes e o que eles significaram para ti, na tua evolução como jogador, mas também como pessoa?

Eu agradeço todos os dias da minha vida, não aos clubes, mas sim ao desporto.
O desporto deu-me tudo: educação, disciplina, despertou esse espírito competitivo que vive ainda hoje como se fosse o primeiro dia, deu-me amigos, histórias.
Tenho a lembrança de cada um desses clubes, pessoas que passaram na minha vida e que ainda são amizades até aos dias de hoje.

Quais as diferenças que encontraste entre o Futsal praticado no Brasil com o praticado na Europa?

Difícil até hoje dizer quais as diferenças de um ou de outro. Cada futsal, cada país tem as suas particularidades, o mais importante disso tudo é o quanto eu estou disposto a adaptar-me a eles, por isso sou e fui feliz em todos os países que passei.

Na primeira vez que chegas ao Sporting, permaneces lá três anos, ganhas 2 campeonatos, duas taças e uma supertaça. Foste o artilheiro mor da equipa, marcando sempre mais golos do que jogos realizados. Como é jogar numa equipa profissional?

Como eu disse, minha passagem pelo Sporting CP foi mágica, tudo deu certo, tudo que fazia dava certo.
Para falar a verdade, eu já vivia do futsal desde os 16 anos. A minha cabeça já era de profissional e como disse, fui tão bem recebido lá que acho que me adaptei no primeiro minuto em Portugal.

Após essas três épocas saltas para o campeonato espanhol. Sentes que o realizado no Sporting te ajudou a conseguires chegar a um patamar mais elevado do que aquele em que estavas inserido?

Com certeza, o Sporting CP abriu-me as portas ao futsal mundial, abriu-me as portas da melhor liga do mundo. Sempre disse que o Sporting CP foi o grande amor da minha vida, pelo momento e pela proporção de como tudo correu, foi lindo.

Em Espanha, em dois anos representas dois clubes, o MRA Navarra que te contratou ao SCP e o Playas Castellon, por empréstimo do MRA Navarra. É realmente o campeonato de futsal mais apetecível para se jogar?

Com certeza. Todos os jogadores sonhavam em jogar na liga espanhola, lá estavam os melhores, com exceção do Falcão, todos estavam lá. Foi a maior e melhor geração de futsalistas que o futsal já viu e eu tive o privilégio de jogar lá, de jogar contra todos eles.

Regressas ao Sporting, mas apenas te manténs lá por um ano. Decisão tua ou do clube?

A verdade é que eu tinha 4 anos de contrato com o MRA Navarra, as coisas não correram bem lá. Tinha mais 3 anos de contrato pela frente e, ficou decidido, já que não houve rescisão amigável, de que seria sempre emprestado, quando houve a possibilidade de voltar ao Sporting CP a decisão foi fácil.
Volto ao Sporting CP, faço uma pré-época prometedora, foram 34 golos em 8 amigáveis, mas uma lesão na Supertaça condicionou a minha época. Mesmo tendo marcado 23 golos em meia temporada e sendo o 4º melhor marcador da equipa naquele ano, o MRA Navarra já aceitava a rescisão, mas não cheguei a acordo com o Sporting CP e decidi voltar ao Brasil.

Entretanto, em quatro anos, representas 4 clubes diferentes e 3 países onde criaste nome. São Paulo no Brasil, Andorra FC e Oxipharma Granada em Espanha e Operário dos Açores, Portugal. Acredito que não tenha sido fácil andar sempre dum lado para o outro, sempre com as malas feitas para viajar?

Tens toda a razão, não gosto mesmo de pular de galho em galho, mas volto ao Brasil para representar o São Paulo e 6 meses depois a equipa faz uma parceria com uma cidade do interior do estado e eu não queria sair da capital. Recebo uma oferta de Andorra e um ano e meio depois e com um ano de contrato, avisam-me para procurar clube porque eles não iam honrar com o acordo. Vou a Granada, fazemos uma época linda, ganhamos a segunda, e por divergências com a junta de Granada, a direção do clube decide terminar o projeto e o clube fecha as portas… não gosto de trocar muito de clubes mas as coisas são o que são.

Entras no ano 2013 no projeto do Operário dos Açores, juntamente com o Mister Canavarro e com nomes sonantes do futsal português: André Sousa (GR), Bibi, Leo Moraes, Miguel Silva, Pimpolho, Nuninho, João Teixeira, Guri, Pypoka, Rúben Reis, só para citar alguns. O que falhou nesse projeto para que a equipa não tivesse o sucesso que se esperava?

Na semana em que acertei contrato com o Operário, houve uma debandada de jogadores muito grande. Saíram muitos jogadores de nome, o clube teve que reconstruir o plantel no meio da liga e, se já é difícil essa transição, imagina com troca de treinador. Depois disso, foi simplesmente uma época má planeada e, na primeira divisão isso paga-se caro.

Nova Geração da Rússia, mais uma passagem e uma experiência que certamente não deu frutos na altura. O que falhou para apenas permaneceres lá meia época?

Daquelas coisas que davam um livro de tão fantasiosa.
Depois de ter recusado 2 investidas do Nova Geração, na terceira aceito e sigo para essa aventura.
Vamos de pré-época, diga se, a pior e mais exigente que já fiz a nível físico, eles decidem colocar 2 amigáveis no meio. No primeiro, ainda jogo bem, vencemos o jogo 2×1, um golo meu e outro do Joel.
No outro dia, pela manhã mais uma carga física tremenda e no amigável a tarde joguei mesmo mal, cansado, sem forças.
Voltamos para Syvtyvkar, (acho que é assim que se escreve), eles decidem dispensar-me, alegando que eu era muito lento para a liga russa. Simplesmente assim.

Após essa experiência sentes que é altura de assentar e passas a fazer parte do projeto SC Braga/AAUM. Foram 3 anos em que te sentiste realizado a trabalhar com um dos nomes mais sonantes do Futsal português, Paulo Tavares?

Se o Sporting CP foi o grande amor da minha vida, o SC Braga/AAUM e a cidade de Braga estão no meu coração para sempre.
É sempre maravilhoso defender um clube de camisola, e defender o SC Braga/AAUM foi lindo porque o calor dos adeptos, a forma como eles empurram os jogadores é diferente de qualquer outro clube. Depois a cidade, que me acolheu e à minha família, que me deu conforto, segurança e uma grande qualidade de vida.

Seguiu-se o Unidos Pinheirense, onde surges como “cabeça de cartaz” para a estreia do clube na Liga Sportzone. Sentiste a pressão de teres que resolver alguns jogos pelo fato do teu currículo desportivo te preceder?

Pelo contrário, essa pressão é que me move, na verdade não é pressão nenhuma. É e foi um grande prazer representar um clube como o U. Pinheirense.

Depois, Futsal Azeméis de Agosto 2017 até Dezembro de 2018, onde passas a fazer parte do CR Candoso, equipa que luta pela promoção à Liga Sportzone esta época desportiva. Foi fácil fazeres essa troca?

Estava muito bem em Azeméis, o clube tem uma grande estrutura, mas por questões pessoais optei pelo projeto do CR Candoso. Além de ser o clube mais próximo de casa neste momento, é sem dúvida o projeto mais ambicioso e mais desafiador. Espero no final, junto com os meus companheiros, colocar o clube na primeira.

Qual foi para ti o melhor treinador que tiveste até ao momento, ou aquele que mais proveito tirou do teu potencial?

Tive o prazer de trabalhar com grandes treinadores, na verdade todos têm suas particularidades, cada um no seu momento.
Paulo Fernandes abriu-me as portas em Portugal, apesar de as coisas não terem me saído bem em Pamplona. Respeito muito o Imanol Aguerri, Bruno Garcia em Granada, Paulo Tavares, Fernando Cabral, Fran Torres, enfim todos têm as suas características, qualidades, cada um no seu momento, fui feliz com eles todos.

Na tua carreira de jogador passaste alguma vez por dificuldades em alguns clubes? De que tipo e em quais?

Quando vives fora do teu país é sempre complicado. Quando os clubes não cumprem com acordos, já passei por bons “maus” bocados, não vale a pena tocar nesse assunto, mas infelizmente ainda é uma coisa muito presente no cenário nacional, quer dizer, mundial…

Com 37 anos, num projeto de subida, é para continuar a jogar?

Quero muito ser treinador, tenho tentado me qualificar cada vez mais para isso, mas com tanta dificuldade em conseguirmos os níveis. De resto, sim, vou continuar a jogar, tenho motivação e fisicamente o corpo tem respondido bem.

Sonhas com o regresso ao Brasil, ou Portugal seduziu-te e vais ficar por cá?

Gosto muito do Brasil, meus parentes, muitos amigos por lá, mas vivo à 7 anos em Portugal, amo Portugal do fundo do meu coração, na verdade é a primeira vez que vou dizer isso.
A única coisa que não vou conseguir realizar na minha vida profissional é de representar a seleção nacional, sinto esse país, por tudo que me deu, por tudo o que me dá, amo Portugal, e respeito demais, sua gente, seus costumes.

Amigo Paulinho Roxo, deixas-te algo por dizer que não tenhas referido nas questões anteriores?

Tudo dito, muito obrigado pela oportunidade. Grande abraço a todos

Fernando Parente

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