Futsal: Fernando Parente entrevista Adriano Foglia

O pivô, Adriano Foglia, iniciou a carreira em 2000 no PD Augusta onde ficou até 2002; no ano de 2003 atuou no Stabia Calcio em Nápoles; de 2003 a 2005 jogou no Arzignano Grifo-ITA; de 2005 a 2008 atuou no AS Montesilvano-ITA; em 2009 jogou no Jaraguá; voltou ao Montesilvano de 2009 a 2011; entre 2011 e 2012 jogou no Marca Futsal-ITA; em 2012 e 2013foi para a Lazio Calcio-ITA; jogou no Magnus a partir de 2013,2015 e na temporada de2018.
Neste meio período (2013 a 2018), passou ainda pelo Araz, do Azerbaijão, Corinthians e Luparense-ITA. Na temporada 2018, fez dez golos pelo Sorocaba. Pela seleção italiana foi o melhor do mundo 2003, campeão da Uefa em 2003, vice mundial em 2004 em Taiwan e 2007 em Portugal e terceiro na Uefa em 2005 em Ostrawa.

Adriano Foglia, um nome incontornável do futsal mundial. Iniciaste a tua carreira na Sociedade Esportiva Palmeiras. O que te apraz dizer sobre o clube onde te deste a conhecer ao mundo do futsal?

Realmente foi o clube que me deu oportunidade para jugar futsal e futebol de campo. Mas a equipa onde realmente comecei nas categorias inferiores, com 5 e 6 anos foi o Juventus da Mooca (bairro de São Paulo). Foi onde comecei no futsal e até os 16 anos. Depois com 17 fui para o Palmeiras, onde tive a oportunidade de jogar nos sub-20 e na categoria adulto.

Ao contrário de muitos futsalistas brasileiros na altura, emigras para a Itália logo após o teu ano de estreia na modalidade. Era o desejo de seres profissional de futsal que te levou a embarcar nessa aventura?

Sinceramente, foi mais pela oportunidade financeira e para jogar. Já tinha cidadania italiana e quando surgiu a oportunidade para ir, não pensei duas vezes. Eu também jogava futebol de campo no Palmeiras, mas eu era reserva, então eu optei só por ficar no futsal e, na primeira proposta do exterior, fui direto para a Itália.

Com 17 anos assinas pelo  Augusta da Sicília de Itália e naturalizaste italiano. Sede de singrar na modalidade ou um recado para o futsal brasileiro?

Com 17 anos eu já tinha tirado cidadania Italiana e fui pra Itália logo de seguida. O meu primeiro clube foi o Augusta na Sicília e ali eu joguei 3 anos. Depois joguei um ano no Stabia em Nápoles e depois fui para o Arzignano Grifo. Aí fui muito feliz, conquistei vários títulos, um clube recheado de estrelas como Sandrinho, Márcio Brancher (que joga atualmente), colombiano Pinilla, que foi um dos melhores jogadores que já vi jogar, Caio goleiro, Vander Carioca. Foram 3 anos muito bons no Arzignano Grifo.

Segue-se o AS Montesilvano, equipa onde “explodes” como futsalista e onde começas a ser reconhecido como um dos melhores jogadores do mundo. São os títulos ganhos no Montesilvano e as exibições realizadas, que te levam à Seleção Italiana?

Minha explosão no futsal foi no Arzignano Grifo, onde em 2003 fui escolhido como melhor jogador do mundo, conquistando muitos títulos e também com a seleção italiana campeão europeu. Foi onde eu realmente fiquei conhecido no mundo do futsal.

Como brasileiro e, estar numa época em que a seleção brasileira tinha nomes como Falcão, Lenísio, Schumacher, entre outros, foi fácil dizer sim à seleção transalpina?

Com certeza, na época o Brasil tinha muitos bons jogadores. Era um celeiro de craques, onde todos os jogadores de futsal se espelhavam em jogadores brasileiros. E comigo não foi diferente, cresci no mundo do futsal, via muito na TV no Brasil e tive a oportunidade de jogar contra alguns jogadores e depois no mesmo clube deles. Então essa foi uma decisão muito fácil de tomar. Foi a seleção italiana que me abriu as portas para eu desenvolver meu futsal.

Sentes que mundialmente, a seleção italiana podia intrometer-se na luta pelos títulos com Brasil e Espanha, considerados como as melhores seleções mundiais da modalidade nos últimos 20 anos?

Bom, na minha época acho que sim. Conseguimos ganhar alguns jogos à Espanha, ganhamos o Euro 2003 na semifinal contra essa seleção mesmo, onde tive a felicidade de fazer 2 golos. No Mundial de Taipei perdemos a final para a Espanha num jogo equilibrado. Com certeza que eles estavam mais preparados que nós, porque vinham de vitórias contra o Brasil. Nós éramos jogadores desconhecidos, apesar de sérum conjunto de brasileiros e alguns italianos. Mas foi uma aprendizagem e foi gratificante fazer parte dessa seleção italiana, mas hoje em dia Brasil, Espanha e Argentina estão muito à frente dos demais.

Quais as diferenças que encontraste entre o Futsal praticado no Brasil com o praticado na Itália, onde tiveste mais projeção?

Há muita diferença, no Brasil é um Futsal tático, um futsal onde todos jogam muito bem, sabem fazer várias funções. Jogamos em ginásios lotados, com muitas viagens. Já na Itália é um futsal mais marcado, mais forte. Na Itália há umas 3 ou 4 equipas que podem ganhar o campeonato, já no Brasil a disputa envolve uns 10 clubes que podem ser campeões. Vimos no ano passado o Pato Futsal que não era favorito ganhar todos os campeonatos que disputou. O futsal italiano ainda não está ao nível do brasileiro, mas hoje em dia há uma migração de importantes de jogadores brasileiros para a Itália, antigamente eram mais os desconhecidos que iam.

A partir de 2009, e antes de um regresso ao Montesilvano, passas uma nova experiência na Malwee Jaraguá Futsal, juntamente com Falcão e o Treinador Ferreti. Era o tentar chegar junto dos adeptos brasileiros ou o buscar do triunfar na terra natal?

No ano de 2009 eu tive a suspensão, eu fui treinar na Malwee. Joguei apenas um jogo e fiquei entre 2 a 3 meses à espera da resposta da Fifa. Como o resultado foi negativo, pude jogar. Foi um grande aprendizado, onde aprendi muito, pude aprender com muitos craques como Falcão e o professor Ferretti, foi uma experiência bacana, que me fez crescer muito na vida.

Após essa época regressas a Itália e ao teu Montesilvano por mais duas épocas. Foi o regresso esperado ou algo mais atrapalhou o teu desejo de retornar e vencer novamente?

Com certeza, foi uma volta triunfal, fiquei 2 anos suspenso e o Montesilvano conseguiu ganhar o campeonato Italiano mesmo quando eu estava suspenso e como eu já tinha um acordo com eles, eu voltaria e já disputando uma UEFA Futsal, onde fomos felizes e ganhamos a semifinal e final contra times portugueses. Mas antes disso ainda enfrentamos o Sinara em Ekaterinburg na Rússia, onde ganhamos de 2 a 1 e eu pude também fazer o gol quando faltava apenas 3 minutos para acabar a partida. Assim conseguimos o acesso à semifinal, onde vencemos o Benfica por 3 a 0 e na final o Sporting por 5 a 2, onde marquei 2 golos e garanti o prémio de melhor jogador daquela final. Então foi uma final que nem nos meus melhores sonhos poderia imaginar.

Em dois anos (2011-12-e 2012-13) representas dois clubes, o Marca Futsal e o Lazio Calcio a 5. Sentias que a tua esse era o próximo passo para continuar como jogador profissional?

Eu fui para o Marca Futsal que naquele ano era o melhor clube da Itália. Iria disputar a UEFA, conseguimos chegar na semifinal, perdemos para o Dynamo, que fez a final contra o Barcelona nesse ano. Depois ganhamos o 3º lugar contra o Sporting. Na Ásia foi uma temporada ruim, onde fiz poucos golos, embora tivéssemos uma grande equipa, mas onde não soubemos aproveitar as chances e foi abaixo do esperado. Mas foram 2 anos importantes, 2 anos onde tentei fazer o melhor. Foram 2 grandes equipas do futsal italiano, uma não existe mais e a outra em último lugar no campeonato, mas foram boas experiências que fazem um jogador crescer.

A partir daí, novos clubes, novas experiências, novos campeonatos, outras realidades. Essa é a realidade dum profissional de futsal?

Sou um jogador que quer sempre conhecer outros lugares. Mas antes, quando tinha 23 ou 24 anos, nessa média, eu não aceitava propostas por medo, como ir para a Rússia ou Espanha. Quando fiquei mais velho foram aparecendo novas experiências e novas propostas e acabei aceitando e tendo a vida como um cigano. Também houve o fator financeiro que me nos faz mudar bastante de clubes e países. Não me arrependo de nada.

1 Mundial de Clubes, 1 UEFA Futsal Cup, 2 Campeonatos Sul Americanos, 2 Campeonatos Brasileiros, 1 Supertaça do Brasil, 1 Superliga de Futsal Brasileira, 1 Liga Italiana, 1 Supertaça Italiana, 1 Liga Azeri e melhor Jogador Mundial em 2003. Qual o prémio que mais orgulho te deu na carreira e aquele que mais difícil foi de conquistar?

Os títulos citados foram muito importantes, mas os títulos que guardo no coração são a EUFA CUP com o Montesilvano , o Europeu e o primeiro campeonato brasileiro, onde fiz o golo do título. Foi o primeiro clube onde joguei profissionalmente no Brasil, o Sorocaba, juntamente com o Falcão. Eu tinha sido escalado para a final e consegui reverter um jogo de 3 a 1 na prorrogação para 4 a 3 fazendo o gol do título e sagrando-nos campeões. Foi primeiro título de Sorocaba.

Entre 2013-2014 e o ano 2018 entras numa aspiral de clubes entre Brasil e Itália, com uma experiência pela liga do Azerbeijão. Entre o regresso ao Brasil, sempre desejado e com jogadores de renome, com passagens novamente por Itália, foram projetos pensados ou tidos em consideração do nome do clube e palmarés/jogadores?

No Brasil, com certeza, foi um sonho de jogar ao lado de Falcão, tinha esse desejo, sempre fui fã do Falcão, então jogar ao lado dele e conquistar títulos foi um sonho realizado. E as passagens por Azerbaijão e alguns clubes da Itália foi opção que escolhi naquele momento, mas não tem um motivo especial. Também joguei a UEFA pelo Azerbaijão, ficamos em terceiros, também tive a oportunidade em ser o melhor jogador do 3º e 4º contra o Kairat. Foi uma experiência de vida boa, conhecer um lugar novo, que tinha o Araz como um bom nome no futsal, mas a cidade e o país não conhecia. Foi uma boa experiência, aprendi muito com o Alécio, o treinador. Fui muito feliz e pude conquistar alguns títulos.

Magnus Futsal e Corinthians no Brasil, Luparense em Itália, Araz no Azerbeijão, o que significaram na tua carreira estes clubes?

Bom, o Magnus futsal era o clube que na época era o Brasil Kirin. Foi o clube onde tive a oportunidade de voltar a jogar no Brasil, perto da minha família e dos amigos. Com uma estrutura enorme e ainda com o astro, o rei, o melhor jogador de todos os tempos: Falcão. Para mim também foi uma realização de um sonho. O Corinthians foi o time de onde eu moro, o time do meu bairro, da minha cidade, morava a apenas 5 minutos do Corinthians. Posso dizer que também foi uma realização de um sonho, pela história e torcida do Corinthians e pelo clube nunca ter ganho um campeonato brasileiro e quando cheguei, felizmente, conseguimos conquistar o título tão sonhado. O Luparense também tem um espaço no meu coração, pelas pessoas, pela cidade e também ganhamos o campeonato Italiano, que ninguém esperava em cima do Pescara. E depois o Araz foram 5 meses intensos e também foi especial.

Chega uma altura em que pensas que a tua carreira vem numa fase descendente. Representas o Coffee Petrarca de Itália juntamente com o Arnaldo Pereira, internacional português. Qual a intenção do projeto do clube com 2 grandes nomes internacionais?

Realmente foi um erro ter ido para a série B. Na Itália, junto com o Arnaldo Pereira, a proposta foi financeiramente muito boa, mas precisava levar o clube de volta à elite. O presidente não se comportou bem comigo, mesmo eu tendo sido o melhor jogador da Copa Itália da Série B, além de artilheiro. No final da temporada já estava com contrato assinado, mas optaram em não ficar comigo. Naquele momento foi melhor para mim porque tinha regressado ao Brasil para o Magnus Futsal, onde fui campeão mundial. São coisas que acontecem, há clubes que não cumprem com o que prometem, uma situação ruim, mas pude superar muito bem. Enfim, não me arrependo da passagem, o que interessa que é que consegui voltar ao Magnus e ser campeão mundial.

Segue-se o Orzel Futsal da Polónia, onde surges novamente como “cabeça de cartaz” para a edição polaca. Sentes a pressão de resolveres alguns jogos pelo fato do teu currículo desportivo te preceder?

Eu assinei com o Orzel para ter mais uma experiência de vida, um lugar novo, um futsal diferente. Claro que há uma grande pressão sobre mim para marcar golos, e levar o clube o mais longe possível. Era um clube que estava na segunda divisão polaca, subiu este ano, então não há objetivos maiores. Mas estou feliz, essa pressão vai existir sempre. Espero conseguir pelo menos chegar entre 2º a 4º colocado, mas o foco é sempre o mais alto possível.

E a partir daqui, onde Adriano Foglia poderá aparecer. Num projeto de subida, num projeto de promoção, numa fase em que a carreira poderá passar de jogador a treinador?

O Adriano estará sempre com vontade, com garra, extremamente apaixonado pelo desporto. Onde surgirem novas propostas, estarei disposto a passar a minha experiência. Tenho contrato até junho e vamos ver o que acontecerá daqui para a frente.

E entre todos os clubes que representaste, qual aquele que te deu mais projeção na tua carreira de jogador?

Pelos clubes que passei foi o Arzignano Grifo. Deu-me mais evolução e conhecimento no Futsal. Mas há outros clubes a quem também sou grato como o  Montesilvano. O Augusta, que meu deu a primeira oportunidade de jogar profissionalmente e ir para a seleção italiana e também ao Magnus Sorocaba onde ganhei muitos títulos e fui muito feliz.

Qual foi para ti o melhor treinador que tiveste até ao momento, ou aquele que mais proveito tirou do teu potencial?

Tive muitos treinadores porque são muitos clubes por onde passei, mas o Fuentes (espanhol) que treinou a Luparense, foi um grande treinador. Não tínhamos uma boa equipa e fizemos praticamente um milagre, éramos penúltimos e chegamos à semifinal. Tive também o Wander, com quem ganhamos o primeiro título em Sorocaba. O Treinador/Selecionador Alessandro Nuccorini da Itália, que conseguiu o melhor de mim. Mas todos têm espaço no meu coração pela força que me deram para o meu crescimento.

Na tua carreira de jogador passaste alguma vez por dificuldades em alguns clubes? De que tipo e em quais?

As vezes passamos, há clubes que não pagam, não se importam com o jogador. Não gosto de citar nomes, mas com certeza há clubes que deixam a desejar. Alguns jogadores chegam a passar necessidades. Há muitos lugares que o futsal precisa ainda de se profissionalizar, de dar oportunidades a jogadores que querem evoluir no futsal e se esforçam ao máximo para isso. Mas torço para que a cada dia evolua mais.

Com 37 anos, num projeto novo na Polónia, é para continuar a jogar?

Tenho 37 e em abril faço 38 anos, quero continuar a jogar e adquirir mais experiências. Quero estar num clube que me dê condições de treinar e adquirir mais experiência, porque Graças a Deus não tenho nenhuma lesão preocupante, então continuo aberto a propostas e focado no futsal para ganhar ainda mais títulos.

Sonhas com o regresso ao Brasil, ou Itália seduziu-te e vais regressar?

No momento não sei o que fazer ainda, estou pesquisando e pensando ainda em qual o momento de voltar ao Brasil. Ainda quero jogar uns 2 ou 3 anos, tenho uma filha de 1 ano e 4 meses que precisa de uma escola, mas ainda há tempo para eu analisar. Sei que vou continuar a jogar, só não decidi ainda onde ficar.

Jogaste um Mundial Universitário pela Itália em 2002, na Hungria, e perdes na final com a Rússia. A intenção passava por deixares marca em todas as vertentes do futsal transalpino?

O mundial universitário foi uma chance que a Itália me deu. Estudei, não muito, mas pude jogar 2 mundiais, um na Hungria e outro no Brasil onde perdemos a final para o Brasil mesmo. Foi uma ótima experiência, sabemos que não é um campeonato profissional, mas há grandes jogadores, inclusive das seleções principais, como brasileiros e espanhóis. Então, esse segundo lugar ficou muito bom para a Itália.

Amigo Foglia, deixas-te algo por dizer que não tenhas referido nas questões anteriores?

Obrigado pela entrevista, obrigado pela matéria que vai sair, foi um prazer! Quero deixar uma mensagem para todos que querem e jogam futsal para nunca desistirem, seguir em frente com humildade, respeitando o próximo, que certamente se podem tornar grandes jogadores e acima disso, grandes homens. Abraço a todos!

Fernando Parente

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