Futsal feminino: entrevista a Rute Carvalho

Não me vejo sem treinar nos próximos anos e estou aberta a todas as possibilidades”

No passado mês de dezembro, a equipa de Futsal Feminino do Grupo Desportivo de Chaves, comandada por Rute Carvalho, marcou presença pela primeira vez na final da Taça de Portugal, referente à temporada 2019/2020, frente ao Benfica. Em entrevista ao Notícias de Aguiar, a treinadora das valentes transmontanas falou do seu percurso profissional até agora e, ainda, daquilo que tem sido e será o universo do futsal feminino no contexto distrital.

Por: Daniela Parente

De jogadora a treinadora

“A passagem de jogadora para treinadora não foi propriamente uma decisão que eu quisesse tomar, mas senti-me um obrigada a deixar de ser jogadora. Ainda que até tivesse tido um percurso interessante ao nível distrital, com passagens pelas seleções distritais, sempre tive muitas dificuldades físicas. Estava constantemente com pequenas lesões, que me causavam mal-estar até na vida quotidiana. Assim, aos 24 anos, decidi deixar de jogar. Ainda durante o período em que ia insistindo em manter-me como jogadora, numa fase em que estava lesionada, orientei a equipa de futsal universitário na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e acabei até por me sair bem. Contudo, só mais tarde é que enveredei efetivamente pela carreira de treinadora, um pouco por acaso, mas que acabou por se revelar uma verdadeira paixão.

Foi na época 2014/2015, na Escola Johnson Januário, em Carrazedo de Montenegro, onde ingressei como Psicóloga do Desporto, área na qual me formei. No meio da época o treinador da equipa de infantis teve de sair do projeto e, por força da necessidade, acabei por tomar as rédeas da equipa e terminar o campeonato desse ano. Nunca mais parei!

Na época seguinte iniciei o curso de treinadores e mantive-me com uma equipa de infantis. Em 16/17 mantive-me no clube com a equipa de juvenis e recebi o convite de um formador do curso de treinadores para ser sua treinadora adjunta no GD Macedense, na segunda divisão nacional de futsal.

Em 2017/2018 foi a época de maior sucesso, pois acabei por conquistar o campeonato distrital de Iniciados e seguir com a equipa até à segunda fase da taça nacional, mantive-me como treinadora adjunta do GD Macedense e ingressei no GD Chaves para terminar a época, quando a equipa disputava já a fase de manutenção. Essa época valeu-me depois alguns convites para o ano seguinte e aceitei o desafio de coordenar a formação e ser treinadora principal de uma equipa sénior masculina no distrito de Bragança, designadamente o AR Alfandeguense, função que acumulei com a que desempenho ainda no GD Chaves”.

Anos de trabalho árduo

“Em relação ao ponto alto da minha carreira, a resposta lógica e mais esperada remeter-me-ia imediatamente para a final da Taça de Portugal. Foi sem dúvida aquele que me deu mais visibilidade e, evidentemente, imenso prazer e orgulho.

Mas honestamente, em termos de prazer pessoal, não consigo escolher entre esse momento ou as conquistas ao nível da formação, nomeadamente a presença, também inédita, numa segunda fase da Taça Nacional. Porque o trabalho foi contínuo e acabou por ir dando frutos ao longo do tempo. A Taça de Portugal é um feito mais pontual, ainda que, obviamente, farei tudo que puder para o poder repetir”.

Final da Taça de Portugal ao comando do GD Chaves

“O percurso não teve segredo nenhum. Foi disputar cada jogo como se fosse o último, mas sem a pressão do resultado. Só queríamos jogar e aproveitar cada momento. Normalmente, neste tipo de competições, é preciso ter sorte nos sorteios, para conseguirmos chegar mais longe. No nosso caso nem tivemos essa sorte, porque em duas das três eliminatórias que disputamos apanhamos logo equipas do Campeonato Nacional.

Por outro lado, se calhar ficamos com a estrelinha dentro do campo. Fizemos dois jogos épicos até chegar à final-four. Desde o primeiro jogo que sabíamos bem das nossas limitações e o principal objetivo sempre foi desfrutar e tentar ficar na história. Eliminatória a eliminatória fomos conseguindo alcançar o proposto.

O que pesou mais foi sem dúvida o esforço e sentido de compromisso das jogadoras. Fomos muito coesas e o coletivo pesou sempre mais em detrimento do individual”.

Evolução do futsal feminino na última década

“A nível nacional nota-se uma grande evolução. Um jogo mais complexo, equipas muito competitivas e executantes de grande nível. No contexto distrital, parece-me que a tendência é oposta.

Há cada vez menos equipas e com pouca qualidade e isso é notório quando uma equipa da nossa associação disputa competições nacionais. Faltam executantes com mais qualidade em atividade, pois as que temos ou estão fora do distrito ou deixaram de jogar ou estão em equipas a disputar o campeonato nacional.

Falta evolução tática no jogo coletivo. É preciso investimento, tanto dos clubes, como das autarquias e até das pessoas. Ainda há o estigma do futsal feminino ser o parente pobre e atrai pouco os treinadores. Posso estar errada, mas é o que vejo um pouco à distância, visto não acompanhar de perto o campeonato distrital”.

O futuro entre as quatro linhas

“Não me vejo sem treinar nos próximos anos e estou aberta a todas as possibilidades, desde a formação até ao assumir novamente uma equipa masculina. Não sei o que o futuro nos reserva.

No meu percurso não há segredo nenhum. Tento fazer o meu melhor a cada dia, tento ser profissional mesmo dentro do amadorismo natural da profissão de treinador. Não tenho medo de perguntar aos outros quando tenho dúvidas e coloco muitas vezes tudo em causa. Nunca acho que o que faço e o que penso é uma verdade absoluta. De facto, tenho tido algum sucesso, mas também já tive fracassos e talvez tenha sido isso o que mais me fez crescer.

Tem sido tudo muito rápido e só espero poder alcançar tudo aquilo que pretendo, apenas e só com o meu trabalho e o meu esforço, fazendo um caminho natural até lá chegar”.

Menu