Futebol de rua

Eu, talvez, tenha feito parte da última ou das últimas gerações que ainda puderam usufruir/desfrutar de passar uma tarde toda na rua a jogar futebol. Às vezes beneficiando de duas árvores ou duas pedras como baliza, fazer aquela finta usando a tabela com o muro do vizinho. Aquele espaço barrento, no Bairro dos Loios, em Coimbra, totalmente irregular. Na minha rua, até aos 5 jogávamos a descer e depois a subir. No meu tempo existiam as velhas máximas do gordo ir à baliza ou o dono da bola tinha de jogar. Se bem que ali essa não existia porque a bola era a minha, do Rebanda ou do João e nós éramos sempre titularíssimos. Era fantástico, grandes recordações tenho dessa altura. Junto à minha casa havia o muro da Dª Manuela, mesmo em frente à Dª Luisinha dos gatos, que era aquilo mais parecido com uma baliza…. Que grandes tardes ali passávamos, que grandes golos se marcaram ali.

O futebol de rua, infelizmente, está quase extinto cá em Portugal. Talvez por uma questão social. Cada vez menos espaços, cada vez mais carros, muito mais tecnologia, a invadir esse espaço que havia para a prática. Nesse aspeto, o futebol de rua está a perder as crianças para os tablets, para os sofisticados telemóveis e para as brincadeiras dentro de casa.

O antigo jogador português tinha essa malandragem, essa habilidade motora acima da média porque praticava o futebol de rua com muita intensidade. Muitas horas sem aparecer em casa. Acredito que foi uma evolução natural de algumas coisas, especialmente o acesso a computadores, alterou completamente o nível do entretenimento para os jovens. Acredito que ainda possa existir uns resquícios de praticantes, especialmente nas periferias, algures no interior do país, especialmente nos bairros mais sociais.

Nesses jogos existiam regras muito próprias. Por vezes respeitava as regras do jogo. Outras vezes, o próprio jogo respeitava as regras do bairro, do pessoal que jogava. Isso, eleva também o aspeto da aprendizagem. As crianças se acostumavam a respeitar a regra que ali, naquele momento e naquela zona, vigorava. Agora, claro que não se tem o quesito tático, estratégia, situações de uma orientação, de alguém conduzindo o processo como um todo. Isso não existe e isso tornava, sem dúvida, a criança ou o adolescente, muito mais autónomo nas suas decisões. Faz pensar, faz discutir, exercita a liderança de processos, liderar o jogo dentro de campo, e isso é uma das riquezas do futebol de rua.

Ali se formavam jogadores com muita personalidade porque aprendiam a resolver o problema sozinhos. Muitas vezes eles chamavam a equipa, eles orientavam, organizavam, tomavam as ações, chamavam o jogo para si. Havia muita coisa que o futebol de rua fazia a favor da construção de uma personalidade muito forte, de um jogador com muita autonomia.

A importância era muito grande para todo o tipo de desporto, não só o futebol. A brincadeira de rua, os jogos, uma infância rica em picardias que exercitavam, que desenvolviam o corpo e a mente, que faziam a criança pensar, mexer-se e equilibrar-se, e garantiam uma evolução motora eficaz, uma coordenação mais apurada e ia dando uma resistência física muito elevada.

Acredito que, quanto mais rica a infância, quanto mais na rua, quanto mais brincadeiras, mais jogos, mais atividades desportivas, maior a vantagem da criança. Se resolver ir para um desporto de alto rendimento, ela já chega dotada de bastantes elementos físicos, bastantes mais que das crianças que não tiveram isso. A criança já chega, como normalmente se comenta, comparada com uma pedra preciosa, um diamante por lapidar. O jovem se tornou diamante, ao fazer a sua formação inicial, nessa riqueza de experiências que ele teve na infância e na adolescência.

Esse é o grande desafio que os scouting dos clubes deveriam ter: encontrar esse tipo de jogador. Têm de ir procurar às periferias. Tem de se ser bom observador, ser experiente, possuir capacidade de avaliar muito bem os jogadores, para conseguir chegar primeiro nessa corrida pelos talentos naturais.

Os jogos de computador são um concorrente enorme. De certa maneira, contempla essa vontade de competir, de praticar desporto mesmo que virtualmente. Sacia, de alguma maneira, essa vontade que toda criança tem. Claro que não substitui, mas alivia.

O computador não é de todo mau. Agrega alguma coisa, especialmente a nível mental, na tomada de decisão por exemplo, mas que, com certeza, não vai substituir a prática do futebol na rua. Jogado, ele tem um valor muito maior.

As escolinhas de futebol, que proliferam por ai no país, tentam a substituição e, com isso, acabam a dar oportunidade às crianças de terem esse contato com o desporto, a praticarem sua atividade num ambiente mais controlado.

Claro que durante muito menos tempo do que elas praticaria a jogar na rua, porque os treinos têm um tempo de duração. Logo aí começa uma grande desvantagem, porque o futebol de rua, quem jogou sabe, às vezes, jogávamos até não conseguir ver mais a bola. Eram cinco a seis horas no mesmo dia. Seis, sete vezes por semana. Em suma, uma desvantagem muito grande.

As escolas de futebol acabam por nivelar o atleta, fazem a separação por idade, muitas vezes por aptidão. No futebol de rua era muito interessante o quesito de a criança mais nova praticar com mais velho, e, só com isso, já dava uma maturidade muito maior, acelerava esse processo. As crianças ganhavam uns índices de confiança muito altos.

Eu acredito que as escolinhas não conseguem substituir, mas, pelo menos, atenuam essa quase inexistência da atividade de rua. Pelo menos, algumas crianças têm a oportunidade de praticar um pouco do futebol.

Eu não acredito que haja um treinador, na base da formação, que não estimule os seus atletas a partir para o drible, a inventar uma jogada. Nunca vi um treinador limitar um atleta habilidoso.

O que os treinadores fazem é organizar a equipa e o jogador a aprender a trabalhar dentro do contexto do que é uma equipa. Trabalhar o coletivo, e que isso também é importante na formação. O atleta joga um desporto coletivo, o futebol é um dos desportos que mais exige essa capacidade de associação com os companheiros, e isso não é mau de maneira nenhuma.

A organização é quase que uma condição para que se vença. As equipas têm de ser organizadas, os atletas têm que aprender a jogar coletivamente, têm que aprender a colocar o seu individualismo, a sua característica dentro do que é o processo das equipas, e isso é parte da evolução e de aprendizagem de toda criança, de todo adolescente. Claro que os atletas, quanto mais jovens, mais terão de ser estimulados em jogos, que em alguns momentos não se cubra tanto essa organização e que se dê mais liberdade para, justamente, formarmos um jogador autónomo. Essa é, para mim, a exigência que tem de se fazer aos profissionais que trabalham na formação lúdica, que, muitas vezes, não têm a experiência que deveriam ter e, infelizmente, fazem parte do processo de um atleta.

“Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga na alma.” Carlos Drummond de Andrade

Gilberto Vicente (Treinador de futebol)

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