Fernando Parente entrevista Marco Santos

Fernando Parente foi ao encontro de Marco Santos, treinador da equipa feminina de futsal do Guarda 2000 e Selecionador Distrital Formação Masculino da AF Guarda.

Amigo Marco, conta aos leitores do Desportivo Transmontano como iniciaste a tua carreira desportiva como treinador de futsal?

Antes de mais agradecer a oportunidade concedida pelo Desportivo transmontano, aproveitando para desejar a todos os seus leitores, um ano cheio de saúde e sucessos.
A minha ainda curta carreira como treinador começou há 4 anos atrás quando o mister Paulo Alves, que era na altura treinador da equipa feminina da Guarda 2000 me convidou para ser o seu sucessor. Após alguma indefinição decidi aceitar o desafio e continuo ainda hoje, a ser treinador da Guarda 2000.

Formação ou seniores femininos, qual a tua preferência como treinador?

Ambos me dão um gosto enorme, porque acima de tudo sou um treinador apaixonado pelo jogo e por tudo o que envolve o treino. No meu caso em particular, o trabalho com a formação é feito em contexto de seleção, que acaba por ter uma preparação um pouco diferente daquela que utilizo no clube enquanto treinador da Guarda 2000, mas não tenho uma preferência, porque o que eu adoro é mesmo treinar.

Também és da opinião de que todos os treinadores de futsal devem passar pela formação, para ir subindo a pulso na modalidade dentro um clube ou associação distrital?

O futebol/ futsal é hoje um fenómeno desportivo e social incomparável, e consequentemente, exerce sobre as crianças e jovens, um fascínio único e indescritível, o que torna pertinente a racionalização dos processos de formação. O papel de um treinador de formação hoje em dia, vai muito além daquilo que é o processo evolutivo dos atletas desportivamente e isso faz com que nem todos tenham características para o exercer bem, como tal sou da opinião e sabemos que isso não acontece, que na formação deveriam estar os melhores treinadores, pela diversidade de conhecimentos que um treinador de formação deve possuir. Mas pegando na tua pergunta não duvido que um treinador com provas dadas na formação tenha uma sustentabilidade maior, para ser bem sucedido, quando atingir o patamar sénior.

Uma vez que já passaste por alguns clubes da AF Guarda, como vês a evolução da modalidade no distrito, quer na vertente masculina, quer na feminina?

O futsal distrital na Guarda, está neste momento a viver uma crise profunda, que esta pandemia veio ajudar a piorar. É com muita pena minha que vejo vários clubes a desistir, ora por vontade própria ora porque os municípios o obrigam, é uma situação complicada que em nada ajuda o desenvolvimento da modalidade. Na minha opinião, o processo evolutivo do futsal na região está muito dependente do trabalho desenvolvido e a desenvolver nos escalões de formação, e nos últimos anos a Associação de Futebol da Guarda tem desenvolvido um trabalho importante junto dos clubes para conseguir ter campeonatos em todos os escalões de formação, o que permite uma maior sustentabilidade em termos de crescimento nos atletas, diferente daquela que tem acontecido de há uns anos a esta parte, e prova disso mesmo, é a dificuldade que hoje os clubes de futsal a nível sénior têm sentido, pagando bem caro o desinvestimento na formação em anos anteriores. Para concluir, referir que temos a perfeita noção que o caminho a seguir terá de passar por uma aposta forte nos escalões de formação e será essa aposta, que no futuro fará o futsal distrital mais competitivo, mais capacitado e ao mesmo tempo mais preparado para acompanhar o crescimento evidenciado nos outros distritos. Refiro-me não só ao masculino como também ao feminino, embora o feminino tenha crescido bastante nos últimos anos, não só no número de praticantes, mas também na sua qualidade.

Iniciaste-te no Futebol, mas foi no Futsal que deste um grande salto de qualidade, primeiro como jogador, atualmente como Treinador. Que recordas do teu início a nível desportivo, sendo que em 4 anos, representaste 4 clubes diferentes na modalidade de Futebol?

Toda a minha formação desportiva foi feita no futebol, porque infelizmente na Guarda na altura não existiam campeonatos de futsal na formação, e na formação representei apenas três clubes, que foram a Associação desportiva da Guarda, o Núcleo Desportivo e Social (NDS), e pelo meio tive uma breve passagem pelo Boavista FC, depois a nível sénior ainda joguei 4 anos na modalidade de futebol, sempre em clubes diferentes é verdade, não por falta de adaptação mas sim por objetivos e ambições diferentes.

Porquê a mudança para o Futsal?

A mudança para o futsal aconteceu num ano em que tive uma lesão complicada (Pubalgia), que me obrigou a uma paragem prolongada. Foi um período de muita reflexão, que me levou depois a optar por experimentar o futsal, isto porque a modalidade de futsal, despertava em mim grande paixão, não só pelas minhas características, mas também pela emoção que o jogo me transmitia.
Foi então que surgiu um convite do GDR Lameirinhas, que após a realização de alguns torneios de verão me convidou para fazer parte do seu plantel que disputava a 2ª divisão nacional.

Apesar de teres representado vários clubes na modalidade de Futsal, penso que o GDR Lameirinhas tem um significado diferente para ti?

É um clube especial para mim e foi sem dúvida o que mais me marcou enquanto jogador, guardo memórias de momentos fantásticos a todos os níveis. Foram seis anos, quatro deles como capitão de grande aprendizagem, camaradagem e muito futsal, porque havia na realidade muito talento naquela altura.

Como é ver, agora como Treinador Feminino/Selecionador Distrital Formação Masculino, uma equipa que deu imensa divulgação à cidade da Guarda, agora andar arredada há alguns anos dos patamares nacionais da modalidade?

É com muita mágoa minha que vejo atual situação da equipa sénior de futsal do GDR Lameirinhas. E digo mágoa porque este clube sempre foi e será a referência máxima da modalidade na cidade, não só pelo seu histórico nos campeonatos nacionais, mas também por aquilo que ainda hoje representa a nível desportivo na cidade.
Mas, não estando por dentro dos objetivos do clube e não tendo fundamentos para expectar quais serão as pretensões do clube futuramente, devo apenas dizer que o GDR Lameirinhas é apenas mais uma vítima do desinvestimento na formação em anos anteriores. Neste momento passa por uma fase de transição, onde está a dar muito mais primazia à formação, para no futuro, penso eu poder ter novamente outras armas, que lhe possam permitir o regresso aos campeonatos nacionais.

O teu percurso desportivo andou sempre entre as duas modalidades referidas acima. Começaste no futebol, andaste 10 épocas no futsal e terminaste como jogador novamente de Futebol. Um acaso ou uma escolha em função da realidade desportiva no teu distrito em relação ao futsal?

A minha última época no GDR Lameirinhas ficou marcada por uma grande frustração em termos desportivos, porque tivemos grandes possibilidades de alcançar a subida ao principal escalão da modalidade e acabámos por não o conseguir por muito pouco, essa desilusão e uma grande incompatibilidade com o treinador na altura, fez com que o meu percurso no futsal terminasse ali. Pensei seriamente em abandonar nesse ano e iniciar a carreira como treinador, entretanto e através de um grande amigo meu, surgiu o convite para regressar ao futebol, algo que eu não tinha em mente, mas que acabou por ser uma lufada de ar fresco para mim. Joguei mais 3 anos e nesse período preparei-me para ser treinador de futsal, tirando o nível I na AF Guarda. Quando achei que estava preparado para esta nova etapa surgiu a proposta da Guarda 2000 e decidi aceitar.

Deixas o campo/pavilhão como jogador e assumes o projeto do Guarda 2000 na época 2017/18. Dentro das dificuldades que existe para treinar no futsal feminino e num distrito do interior, sonhavas estar passados 4 anos ao leme da mesma equipa e a teres o sucesso que estás a ter?

Quando surgiu o convite Guarda 2000 para treinar uma equipa feminina, devo dizer que fiquei um pouco reticente, porque não tinha mesmo a noção do estado do futsal feminino na Guarda. Tenho que admitir que na altura, treinar uma equipa feminina, não era de todo algo que eu ambicionasse, contudo, e com o conhecimento que aos poucos fui tendo da equipa, percebi que havia ali muita qualidade e grande margem de evolução.
Hoje passados quatro anos devo dizer que foi talvez o passo mais acertado para iniciar esta minha caminhada como treinador. Têm sido 4 anos de muito trabalho e dedicação sempre em prol da evolução das minhas jogadoras e na verdade, a qualificação para esta segunda divisão foi sem dúvida o premiar de todo o esforço e resiliência deste grupo.

O projeto apresentado era sustentado na chegada a um patamar nacional ou na evolução da vertente que treinas?

Quando cheguei ao clube, não me foi apresentado qualquer projeto, o objetivo principal era como até a data da minha chegada, vencer as competições distritais e tentar fazer o melhor possível na taça nacional, prova onde a Guarda 2000 nunca tinha pontuado.
Tive um 1º ano bastante atípico e atribulado na gestão do grupo, mas mesmo assim conseguimos no meu ano de estreia passar a 1ª fase da Taça Nacional, no 2º ano e já com o grupo totalmente escolhido por mim, tivemos uma evolução fantástica, lutando até as últimas jornadas pelo acesso à 1ª Divisão nacional.
Falamos de uma evolução continua e sustentada, mesmo perante todas as condicionantes que uma equipa do interior tem, hoje posso dizer, e muito se deve também à sua direção, que a Guarda 2000 é uma equipa com personalidade própria, que está a marcar o seu lugar no panorama nacional da modalidade, tendo cada vez mais o respeito e admiração dos seus adversários. Essa tem sido sem dúvida a minha maior vitória enquanto treinador.

Desde que iniciaste a tua carreira de treinador, que concilias o futsal feminino do Guarda 2000 com as Seleções Distritais da AF Guarda em sub-15 e sub-17 masculinos. O Futsal sempre foi compatível com a tua vida de funcionário da CM da Guarda?

Claro que quem corre por gosto não cansa, e por vezes não é fácil conciliar tudo isto, mas tenho a felicidade de ter um horário de trabalho que me permite conciliar as duas coisas.
Mas sabemos que a vida não é só futsal e trabalho mas também familiar, e são eles sem dúvida os mais prejudicados por esta minha paixão pelo futsal, sem a compreensão dos meus seria impossível o meu caminho como jogador e agora treinador, à minha esposa e ao meu filhote o meu muito obrigado.

E a nível de estratégia, não se tornava complicado treinar no mesmo ano seniores femininos e seleções distritais, na qual terias que lidar com jogadores totalmente distintos uns dos outros e cada qual com as estratégias dos seus clubes?

Falamos de contextos completamente diferentes, logo com conteúdos distintos em termos de preparação de trabalho. No clube o modelo de jogo e a sua preparação já estava definida quando surgiu o convite para selecionador distrital, o que me ajudou a conciliar mais facilmente as duas tarefas.
Relativamente ao contexto de selecionador distrital, o pouco tempo de preparação para os Interassociações, obriga-me a ter de adotar outro tipo de estratégia, não só porque o tempo de trabalho é muito reduzido, mas também porque está fortemente condicionado pelas ideias de jogo que os miúdos trazem dos clubes.
Mas no geral, está a ser uma experiência fantástica, que me tem permitido crescer imenso enquanto treinador, isto porque, para conseguir que os miúdos se adaptem no menor tempo possível a um espaço de seleção, a diversidade de tarefas que temos de implementar é muito mais complexa.

Sentes que atingiste a tua grande maturidade como treinador nos quatro anos que levas de Treinador/Selecionador, ou ainda te falta caminhar mais um pouco para consolidares a tua ainda curta carreira de treinador nesta modalidade?

A cada dia que passa sinto que estou a evoluir como treinador, não tenho dúvida nenhuma que sou hoje muito mais treinador do que era há quatro anos atrás quando iniciei este percurso, tal como não tenho qualquer problema em admitir, que se mantiver a mesma paixão pela modalidade, serei nos próximos anos muito mais competente e um treinador melhor preparado para outros desafios que possam surgir.

O que tens achado da presença dos clubes da tua Associação na 2ª divisão nacional masculina?

Na presente época penso que o Sameiro tem feito pela vida e tem conseguido manter-se na luta pela manutenção, vamos ver e espero sinceramente que o consiga, seria muito bom para o distrito, na época seguinte ser representado por duas equipas nos campeonatos nacionais.
Mas claro que é com alguma tristeza, que tenho assistido às prestações das equipas masculinas da AF Guarda, nos campeonatos nacionais nestes últimos anos, claro que tudo isto se deve a um forte desinvestimento financeiro no desporto local e esse desinvestimento financeiro aliado à não aposta na formação atirou os clubes do distrito para o abismo, distanciando-nos do nível competitivo evidenciado noutros distritos, mas o mais me preocupa é que será muito difícil num futuro próximo, haver uma mudança de paradigma.

Conseguiste nesta época a presença do Guarda 2000 na inédita 2ª divisão nacional feminina. O que esperas dessa competição, sabendo que a pandemia que o mundo atravessa pode parar o campeonato a qualquer momento?

A presença da Guarda 2000 nesta 2ª divisão nacional de futsal, será bastante positiva para a evolução da modalidade no distrito. Será uma competição super exigente, com seis equipas bastante equilibradas e competitivas. Consciente do valor dos nossos adversários e de todas as dificuldades que vamos encontrar, o nosso objetivo tem de passar claramente pela manutenção, e para isso traçámos uma matriz de jogo que nos permite jogar todos os jogos olhos nos olhos com qualquer adversário, tendo sempre como principal objetivo a conquista dos 3 pontos. E não digo isto apenas para parecer bem, a prova disso mesmo foi dada nesta 1ª jornada, onde no campo do campeão distrital do Porto, jogámos o jogo pelo jogo e só não o ganhamos por meros pormenores que fazem do futsal uma modalidade diferente de todas as outras. Quanto à situação pandémica que vivemos, sabemos que devemos continuar a ser responsáveis no nosso dia a dia e que temos de nos adaptar a todas estas restrições se queremos continuar a competir. Relativamente ao futuro, espero e desejo que 2021 nos traga de volta a normalidade e que possamos voltar a usufruir de tudo a que temos direito.

Diferenças e comportamentos que encontraste ao nível de treino das seleções distritais?

Muitas diferenças e poucas semelhanças com o tipo de preparação nos clubes, é esta a realidade em contexto de seleção. E digo diferente porque temos muito pouco tempo para moldarmos os atletas ao nosso modelo de jogo, tendo de os formatar de forma mais vertiginosa.
A seleção define a preparação e muitas vezes essa mesma seleção, obriga-me enquanto treinador a reinventar-me para facilitar a integração, para ao mesmo tempo poder ser uma mais valia no processo evolutivo dos miúdos e dos próprios clubes.

E dificuldades no setor feminino, são muitas?

O despovoamento das cidades do interior diminui a base de recrutamento e essa é sem dúvida a maior dificuldade no setor feminino, o que nos limita muito na constituição dos plantéis. No nosso caso e porque competimos em grande maioria com equipas do litoral, notamos uma diferença enorme. Mas uma das mensagens que eu tento sempre transmitir à minha equipa, é que com humildade e trabalho, teremos as mesmas possibilidades dos outros, não podemos é cair no erro de trabalhar menos só porque achamos que não vai valer a pena.
Relativamente ao futsal feminino em geral, ai sim considero que os comportamentos da FPF deixam muito a desejar, é notório o desinvestimento na modalidade comparativamente com o masculino ou com o futebol feminino. Somos sem dúvida o parente pobre da Federação.

Sentes que a competitividade na AF Guarda a nível dos escalões de formação está muito acima de outros distritos de Portugal, ou a trabalhar para chegar ao mesmo patamar de outras associações a nível de desempenho e conquistas?

Claramente a trabalhar para chegar aos níveis já evidenciados noutros distritos. A AF Guarda só no ano anterior consegui-o realizar campeonatos em todos os escalões de formação, e isso por si só, revela as dificuldades que temos tido para acompanhar a evolução dos outros distritos. Mas o caminho faz-se caminhando e espero sinceramente, ter uma opinião diferente daqui a uns anos.

Qual o segredo para o sucesso que tiveste numa equipa maioritariamente composta por jogadoras da terra?

O segredo tem sido o compromisso, o trabalho árduo das atletas e o acreditar das mesmas nas minhas ideias, esta simbiose tem feito com que os resultados apareçam naturalmente. O meu papel como treinador tem sido treino após treino, dar-lhes ferramentas para elas irem evoluindo no conhecimento do jogo, identificando também quais os erros que tem de minimizar, aumentando sempre o grau de exigência, para sermos cada vez mais competitivos.

Pretendes afirmar a Guarda 2000 no panorama desportivo feminino ou sentes que estás preparado para no final da época assumires um novo projeto?

O meu objetivo atualmente e porque não gosto de fazer previsões futuras, passa claramente por ajudar a Guarda a 2000 a afirmar-se no panorama nacional.
Claro que, se aparecer um projeto diferente e que eu considere que é melhor para mim, terei todo o gosto em analisá-lo e depois tomar uma decisão.
Todos nós treinadores temos o sonho de atingir o topo e eu como é logico não fujo á regra, mas tenho a perfeita noção que nem sempre isso é possível. A única coisa que posso garantir é que vou continuar a trabalhar com a mesma paixão e o futuro logo dirá se mereço ou não essas oportunidades.

Amigo Marco, deixaste algo por dizer que não tenha sido referido nas questões anteriores?

Quero apenas agradecer-te a ti, meu amigo Parente por esta oportunidade de me dares a conhecer aos transmontanos, e desejar-te as maiores felicidades para ti e para os teus, e que consigas cumprir todos os objetivos desportivos a que te propuseste alcançar em Valpaços.

Entrevista conduzida por Fernando Parente

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