Efeitos colaterais

Os escalões de formação estiveram nos últimos meses em modo (estranho) de ativação negativa, devido a esta pandemia que a todos nós dá cabo da cabeça e dos nervos. Existe toda uma geração sofreu com os treinos completamente fora do padrão normal e, essencialmente, pela falta de competição, o que tem levado clubes a tentar sobreviver de todas as formas imaginarias, sendo que alguns não resistiram e tiveram mesmo de fechar portas, sem mencionar os cargos técnicos que estão totalmente parados e no desemprego.  Resultado… atletas e treinadores desmotivados e dirigentes aflitos sem saber que rumo dar às suas associações.

Os números que este vírus trouxe, são completamente absurdos. Nos registos da FPF estavam inscritos na temporada 2019/2020 cerca de 225 mil atletas de formação, enquanto que nesta temporada estão inscritos apenas 47 mil e picos. No total perderam-se, entre as duas temporadas mais de 150 mil atletas de formação, utilizando este tempo vazio, outrora ocupado, sabe-se lá como, afetando gravemente e ferindo de morte, toda uma geração desportiva

Muito dos clubes desportivos, aqui em Trás-os-Montes, tem como enorme fonte de receitas precisamente o desporto de formação. As mensalidades dos atletas, a realização de provas e eventos, os patrocínios, assim como o aluguer dos pavilhões, campos de futebol 7 e 11, etc. Grande parte destas associações desportivas viram a totalidade destes rendimentos desaparecerem neste último ano. Com o desporto de formação sem competição, muitos atletas desistiram e/ou deixaram de pagar as mensalidades aos clubes.

Neste momento o que existe é uma paragem total de todas as competições, os atletas não se registam nas associações, e isso é o que tem contribuído para a estatística negativa do número de praticantes inscritos no desporto federado.

Este assunto, que leva treinadores e dirigentes de escolas de formação ao desespero, é um NÃO ASSUNTO para quem de direito devia meditar, no mínimo, sobre isto.

Acredito que a FPF, esteja efetivamente, a tentar por todos os meios uma solução para este bico de obra, mas por uma razão ou por outra, nada se decide, nem ajudas ao sector, nem soluções outras imediatas

Li algures que há países que uma grande fatia dos dinheiros do plano de recuperação no âmbito da pandemia, vai servir para fazer renascer o setor do desporto. Por cá, isso ainda não foi anunciado nem sei se estará contemplado, mas é claro que deveríamos ter em conta a importância do ponto de vista social e desportivo de toda esta embrulhada que o covid19 nos proporciona.

Este novo confinamento, embora ligth nalguns sectores, para além de caminhar para um eventual final, de uma vez por todas, na discussão do recomeço da formação desta época desportiva, coloco no armário e na gaveta, toda esta esperança que nos tem feito andar, a nós treinadores de formação, aos dirigentes e aos atletas que ainda resistem e continuam esperançosos que tudo isto seja apenas um mau sonho.

Venha a vacina, venha o bom senso, venham as soluções. Até lá, continuemos nesta historia do faz de conta que não existimos e depois logo se vê, no nítido pontapé para canto, por parte de quem nos governa, provocando efeitos colaterais que só mais tarde nos iremos aperceber.

Gilberto Vicente (Treinador de futebol)

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