Efeito dos jogadores estrangeiros no distrital

O Futebol é cada mais um fenómeno global, pelas portas da Europa chegam todos os dias montes de jogadores oriundos de outros continentes, principalmente vindos de África e da América. O aparecimento dos empresários catapultou esta situação, que em Portugal tem crescido a olhos vistos, da 1ª Liga até aos Distritais.

Nos últimos 5 anos, na Divisão de Honra da AF Vila Real, o número de jogadores estrangeiros cresceu. Isto deixa-nos com várias questões no ar: serão assim tão necessários para atingir os objetivos a que cada equipa, atendendo aos custos e à aposta na prata da casa que tão bem representa a região? É um negócio rentável para os clubes? Como se sentem os colegas em relação a estes jogadores? Farão estes jogadores assim tanta diferença? É preciso tudo isto na última divisão do nosso país?

No que refere ao Campeonato Distrital da AF Vila Real algumas questões são fáceis de entender para a aposta no jogador estrangeiro, principalmente para as equipas que têm aspirações de vencer as competições oficiais. Trás-os-Montes está cada vez mais desertificada, é difícil arranjar jogadores que queiram vir para cá e a falta de competitividade nos escalões jovens (que todos os anos as equipas do distrito que vão aos nacionais normalmente descem), fazem com que a aposta no jogador da terra se perca. Trazer jogadores estrangeiros é fácil, no entanto existem encargos que somente os clubes que jogam para a subida podem sustentar, uma vez que estes por norma levam vida de profissionais enquanto cá estão.

Os jogadores que por norma entram na distrital são os brasileiros e os oriundos do Centro e Sul de África (jogadores negros). O jogador brasileiro tem pouco conhecimento tático, principalmente do ponto de vista defensivo, mas com bola costuma ser refinado, algo que os empresários e olheiros que os trazem apreciam, por isso tantos médios e avançados brasileiros chegam a Portugal. O jogador africano normalmente tem qualidade técnica, embora não tão acentuada como os sul-americanos, tem também problemas de conhecimento tático, mas por normal têm características físicas que fazem a diferença: normalmente são fortes fisicamente, altos, rápidos, com muita resistência, que normalmente é acompanhado com um grande espírito de sacrifício e disponibilidade, que no distrital não só permite mascarar as suas lacunas, como se tornam jogadores fundamentais das suas equipas. Estes jogadores mesmo nos treinos, como os encaram como uma profissão a intensidade é enorme e aumenta a competitividade em treino de toda a equipa. O facto de irem ao ginásio frequentemente, de se alimentarem conveniente (provavelmente nem o faziam no seu país), faz com que ainda se evidenciem e potenciem mais. No distrital o jogo menos elaborado e mais de combate, o que os torna jogadores ainda mais importantes. No campeonato distrital como será de esperar irão fazer a diferença, que é ainda mais acentuado uma vez que o Distrital de Vila Real não está ao nível da Distrital do Porto, de Braga, Lisboa, Aveiro ou Viseu.

Nas últimas 3 épocas as equipas que venceram o Campeonato Distrital de Vila Real e a Taça foram aquelas que tinham no seu plantel 3 ou mais estrangeiros (Mondinense na época 19/20, Chaves B na época 17/18 e Vila Real na época 18/19). No entanto, entre as épocas 16/17 e 18/19 o SC Vila Real venceu 3 vezes consecutivas a Taça AFVR.

Resumindo, os números indicam que os jogadores estrangeiros, desde que sejam escolhidos com critério e para posições na qual é mais difícil arranjar na região, como guarda-redes, extremos ou pontas de lança, sendo que os clubes devem uma boa prospeção antes da contratação, dando-lhes boas condições de acomodação e de trabalho. Creio que 5 estrangeiros deveria ser o número máximo, que para o bem-estar dos clubes que os acolhem, que para repor alguma “verdade desportiva” e algum equilíbrio no campeonato.

Deixar aqui duas notas para o SC Vila Real e para o Sport Clube da Régua, que durante alguns anos, num passado recente, foram autênticas “barrigas de aluguer” de alguns empresários e onde nem objetivos desportivos conseguiram cumprir nesse tempo e ainda saíram endividados. Houveram jogadores que chegaram à 1ª Liga, outros que estão em patamares profissionais em Portugal e fora de Portugal, os clubes não ganharam nada com as suas transferências. Foram usados somente. Nessas épocas estiveram inscritos num somatório de ambos clubes cerca de mais de 150 atletas, alguns deles que somente jogaram 1 jogo. É vergonhoso para os adeptos assistirem a isto da parte das suas direções.

Deixei aqui os dois lados da moeda, que creio merecerem ser alvo de reflexão e discussão pelos clubes, pelos agentes do futebol e pelas entidades competentes.

Honremos o futebol!

Diogo Castela (Treinador de futebol)

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