Aprender com os Ingleses

A Superliga europeia tanto apareceu como desapareceu do mapa por dois motivos essenciais. Por pressão política e institucional, dos governos nacionais e da UEFA, e por pressão dos adeptos ingleses que amam genuinamente o futebol e entendem-no na verdadeira essência ou seja, como um jogo em que as desigualdades podem, ser atenuadas se houver luta e inspiração dentro do campo.

Em Portugal, se um dos três grandes aderisse à absurda ideia de integrar um campeonato fechado e elitista muito dificilmente os adeptos se manifestariam nas ruas ou à porta dos estádios contra uma decisão vinda de cima. Porque muitos deles não gostam de futebol, apenas amam, o clube que aprenderam a respeitar desde criança; e outros odeiam mais o rival do que veneram o clube deles.

Em suma, a falta-lhes pensamento crítico para além do simples pontapé para a frente e das estafadas questões de arbitragem.

Mas a culpa deste projeto da Superliga europeia não pode apenas centrar-se na sede de 12 clubes capazes de dar um golpe palaciano que iria colocar em causa a história e a evolução da modalidade.

A culpa também, é da própria UEFA quando há cerca de 30 anos distorceu a essência da Taça dos Campeões Europeus para transformá-la numa prova aberta a representantes que não fossem exclusivamente campeões nacionais. Foi assim que nasceu a Liga dos Campeões, à luz da competitividade, da grandeza, do estar entre os melhores, assente numa lógica de distribuição de receitas gordas, tão gordas que os campeões em título engoliram em seco e aceitaram-na como necessária, mesmo sabendo que estavam a trair a génese da competição e que, a partir dali, ganhar aquele troféu seria muito mais difícil.


A Superliga é o último, exemplo de como o negócio e os investidores podem, transformar o desporto num fenómeno perigoso e cheio de desigualdades. Mas felizmente ainda há adeptos lúcidos e que amam, genuinamente o futebol.

Orlando Fernandes (Jornalista)

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