A quem deixou cedo demais

Quem nunca sonhou ser um desportista de elite um dia? Não deve haver criança que renegue esse sonho. Os atletas de tenra idade sabem perfeitamente quem é o craque e sabem ocupar o seu lugar. Para os pais? Para esses há sempre um Cristiano Ronaldo e um Messi em todas as suas crias. Tenho observado que os pais estão divididos em duas partes. A Mãe galinha que acompanha desde sempre o seu mais que tudo, discutindo, se for necessário, com os treinadores as opções ou ainda as táticas usadas num desporto que seria de supor lúdico. Depois há o pai, que embora apregoe que quer é que o filho se divirta e que a própria criancinha é que sabe se vai para este ou para aquele clube, enche as bancadas de opiniões e de sacrilégios. Chega inclusive a opinar sobre o treino e sobre as posições. Muitos pais, depois das suas frustrações desportivas, veem no filho aquilo que eles nunca foram, aquilo que nunca conseguiram ser. Já vi miúdos a ter o sonho de jogar basquete ou xadrez e quase a serem obrigados a jogar futebol. Saudável?  Não. Lógica? Também acho que não. Opinião deixo para os psicólogos, para os sociólogos e para os opinadores profissionais.

Voltando ao contexto da ideia, este, para mim, é o momento chave em que o atleta é escolhido para fazer a sua formação ao nível das bases. É o momento que que se define se a bola é quadrada, para ele, ou simplesmente se é atleta de jogo coletivo ou individual.

Com o passar dos anos, os pais vão se apercebendo se serve ou não serve para lhe encher os egos entre os amigos, nas velhas discussões de bancada no jogo da formação sobre quem faz asneiras e quem é realmente o melhor jogador, normalmente o próprio filho. Há uma idade em que as grandes enchentes de bancadas de pais se transforma em vazio, com apenas um ou outro resistente. É aí que o próprio atleta se começa a divertir, é ai que o próprio adolescente se começa a perceber que realmente nunca será um CR7 e que será sempre um jogador mediano que joga para se divertir, para fazer exercício ou para passar um bocado com os amigos. Aquela fase de andar em bicos de pés gingando pela rua está a passar e compreende que mesmo as miúdas já só olham para ele pelo que é e não porque é craque da bola, da raquete ou ainda do stik ou dos patins. Neste momento a percentagem de atletas que acreditam que vão ser alguém nesse determinado desporto é extremamente reduzida.

E finalmente chegamos aos sub19. A partir daí começa uma vida nova. Chegou a hora das decisões. Há quem tenha de deixar a prática desportiva/competição contra a sua própria vontade. Há quem tenha de optar pela vida, pelo trabalho ou pela família, para deixar para trás uns dos seus amores. Quem teve de pendurar as chuteiras, os sapatos de bicos, os patins, etc. no prego porque durante a carreira foi martirizado pelas lesões ou por azares intermináveis, e teve de se render.

A partir daí, começa uma vida de sofrimento fora do campo, sempre que vê a bola saltitar. Volta atrás 10, 20, 30 anos. Aquele momento que leva o seu filho aos treinos e tem mais vontade do que ele para ir lá para dentro e voltar a fazer os malabarismos que a vida outrora lhe ensinou! Há quem, apesar da idade, do tempo ou das circunstâncias da vida, ainda vê naquele campo, naquela quadra, naquele pavilhão, naquela bola a rolar o vislumbre de felicidade e emoção, condensada em poucos minutos.

Dedico este texto a quem amou de verdade a prática do seu desporto predileto e nunca o pode fazer profissionalmente.

Gilberto Vicente (Treinador de futebol)

Menu