Opinião: Belenenses só há um

Há o Yin e o Yang, o Egas e o Becas, a Thelma e a Louise, as cervejas e os tremoços. Enfim, a lista poderia continuar indefinidamente, mas o ponto é este; há ligações que parecem indissociáveis e uma delas é a de um clube com a sua Sociedade Anónima Desportiva (SAD), no caso do Clube de Futebol Os Belenenses.

Ou melhor, correção de tempo verbal; era a do Belenenses clube com a sua SAD, uma vez que já nada liga as duas entidades. E esse é um dos pontos que Patrick Monteiro de Carvalho pretende esclarecer definitivamente, no anúncio da sua candidatura a um terceiro mandato enquanto presidente do clube. “Houve um dia em que percebi que estava na calha uma lista de candidatos cujo objetivo era escancarar as portas do Restelo ao regresso da SAD”, explica, em exclusivo ao Desportivo Trasmontano, o líder do clube desde 2014, “Jamais poderia dormir descansado se não dissesse aos sócios: estou aqui para continuar o caminho que decidimos em Assembleia Geral. Neste novo mandato é hora de arrumar de vez o assunto B-SAD”, assume. “Avanço para continuar a defender o clube de todos os que lhe querem mal”.

Nos últimos seis anos, clube e SAD andaram sempre às turras, mas antes de pormenorizar a separação com a B-SAD, que compete na I Liga e é liderada por Rui Pedro Soares (a equipa do clube está na I Divisão Distrital e quer subir esta época ao Campeonato de Portugal), Patrick Morais de Carvalho recorda o que encontrou quando chegou ao clube “ A situação que herdámos em 2014 é conhecida de todos partimos abaixo do grau zero. Não havia dinheiro nas contas bancárias, a concessão do Bingo estava a acabar, o arrendamento da sala do Bingo da Avenida João Crisóstomo idem, havia vários meses de salários em atraso aos trabalhadores que se encontravam em dificuldades e sem motivação, com um passivo de curtíssimo prazo assustador, sem valores na tesouraria, com a maioria do capital da SAD perdida sem receitas, televisivas e sem receitas de bilheteira” resume. Atualmente, a situação é bem diferente, diz o presidente: “Resolvemos todos estes problemas. O Belenenses entra no seu segundo século com o seu património totalmente livre de penhoras e hipotecas”.

Ainda assim, o nome Belenenses continua a confundido com o da sua ex-SAD, pertencente à Codecity de Rui Pedro Soares, e isso é algo que prejudica o clube, defende Patrick Morais de Carvalho, assim como a associação a episódios como o que foi revelado pelo jornal “Público”, que escreveu que “o Belenenses SAD esconde salários ao fisco”, algo que a B-SAD entretanto refutou. “Claro que nos prejudica muito a confundibilidade que eles promovem ao dizerem-se Belenenses, mas se ninguém quiser resolver, os tribunais farão justiça, porque a razão esta do nosso lado. O clube seguiu o seu caminho a partir de 30 de junho de 2018 e nada tem a ver com as práticas de gestão da B-SAD”, assegura, referindo-se ao término do protocolo de utilização do Restelo pela SAD, altura em que esta mudou a equipa profissional para o Estádio Nacional no Jamor.

No mês passado, o clube completou de vez o processo de separação, ao vender a Ricardo Sá Fernandes os últimos 10% que ainda detinham da B-SAD, enquanto clube fundador da SAD. “A lei atual da SAD permite-nos vender as ações que detínhamos”, explica Patrick Morais de Carvalho, que não tem dúvidas de que a lei da SAD precisa de ser repensada…mas não por João Paulo Rebelo, “Há rumores de que nos corredores se prepara uma alteração à lei, mas qualquer alteração que seja conduzida pelo atual secretário de Estado da Juventude e do Desporto será sempre feita contra os clubes fundadores e contra Os Belenenses”.

“O atual secretário de Estado comporta-se como o melhor amigo da B-SAD. Quando a B-SAD saiu do Estádio do Restelo, insultando Os Belenenses, abriu-lhe a porta do Estádio Nacional, em condições financeiras não benéficas que parecem ser uma ajuda de Estado”, indica o advogado, que entende que os clubes profissionais não devem ser obrigados a constitui uma SAD ou uma SDUQ para competir. “Quando o Tribunal proibiu a B-SAD de usar os elementos da marca Belenenses, o secretário de Estado pouco se importou ou importa que o Estádio Nacional seja o palco da prática de crimes de desobediência qualificada. Demos conta disso pessoalmente, que não fazia sentido que o Estado aceitasse que o património nacional fosse usado para afrontar os Tribunais mas o secretário chutou para canto e desconsiderou o clube”, conclui.

O advogado também lamenta que a B-SAD continue a ser referida como Belenenses SAD nas provas de futebol – o que implica “multa de 3 mil euros por dia à B-SAD por violação de sentença de uma providência cautelar, os quais serão cobrados, num valor que ronda já os 2 milhões de euros” – e garante que já avisou as entidades competentes. “A Liga está avisada vezes sem conta pelo clube de que é cúmplice na violação de uma sentença judicial, e que continua a negociar com patrocinadores um pacote de benefícios financeiros ancorado, também na falsa participação do Belenenses. A FPF, como entidade que responde pelo futebol em Portugal, delegando na Liga competências, está também a par da situação, e dela retira dividendos comerciais. Posso garantir que qualquer delas está mais do que avisada de que não tem autorização para utilizar indevidamente as nossas marcas, e que fazê-lo terá consequência sérias, a devido tempo, para quem nela persistir ou permitir”, alerta, aguardando para ver como será apelidada a B-SAD, de forma oficial, em 2020/21.

“O único princípio de que não adicamos é o de que Belenenses só há um. Tem 100 anos e joga no Restelo, agora na I Divisão distrital, mas em breve estará de volta ao seu lugar, n I Liga.”

Orlando Fernandes (Jornalista)

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