Por: Gonçalo Novais

Tendo o meu artigo, datado de 25 de Janeiro passado, versado sobre o tema das “chicotadas psicológicas”, o facto de voltar presentemente a este tema deve-se ao facto de equipas que atravessaram recentemente um processo de substituição de treinador e de boa parte das respectivas equipas técnicas que normalmente acompanham os treinadores principais, também terem estado sob o centro das atenções, pelos piores motivos para as mesmas.

Dois casos estão a merecer uma maior atenção mediática por parte da nossa comunicação social, e referem-se ao FC Porto e ao Valência.

No FC Porto, o avultado investimento financeiro feito no reforço da equipa aliado à falta de títulos conquistados num prazo imediato foi conduzindo gradualmente a uma contestação cada vez mais franca e aberta a Julen Lopetegui não apenas dos adeptos (que de modo geral viram as suas expectativas de conquista do título de campeão nacional tremendamente frustradas na época de 2014/2015, pelo que a contestação destes já vinha da temporada transacta), como também, mais tarde, de alguns “notáveis” do clube e até do próprio presidente Jorge Nuno Pinto da Costa, bem plasmada não apenas nas declarações sobre o “Ferrari” Imbula (na minha modesta opinião, um médio-centro de excelente nível, a quem desejo uma afirmação futebolística categórica na Premier League), como também nas críticas explícitas à falta de objectividade da equipa portista no ataque às balizas adversárias, tema que com certeza daria “pano para mangas”, pois a dita e clamada “objectividade” nem sempre é uma virtude…

Saiu Lopetegui, entrou José Peseiro, a equipa sai da Taça da Liga (de onde já estava eliminada) com uma derrota diante de uma equipa da Segunda Liga, e a derrota caseira diante do Arouca, servida conjuntamente com uma saída de campo algo estranha por parte do capitão de equipa Maicon, apenas vem confirmar que, a existirem problemas de organização estrutural e funcional no seio do clube, esses problemas vão muito para além da esfera de influência dos treinadores, uma vez que os problemas exibicionais são transversais aos mesmos. É certo que José Peseiro é um treinador competente na forma como organiza as suas equipas e é um profundo conhecedor do campeonato português, sendo autor de boas campanhas europeias. A ter sido inevitável a saída de Lopetegui, o FC Porto ficou bem entregue. O problema é que, para além do facto de a saída de Lopetegui ser evitável, a equipa permanece com pelo menos três problemas exibicionais mais evidentes mostrados consistentemente esta temporada, como são a falta de profundidade que em largos períodos dos jogos a equipa demonstra (excepção feita a Corona, que é incessantemente procurado pela equipa para conseguir aproveitar rapidamente espaços nas laterais defensivas adversárias, a fim de criar repentinamente perturbações que criem instabilidade nas organizações colectivas defensivas adversárias), as dificuldades na construção de jogo ofensivo sentidas pelos defesas-centrais da equipa quando sujeitos a uma pressão intensa da linha defensiva mais adiantada dos adversários (lacuna que se verifica de forma evidente no jogo da Liga dos Campeões, na recepção ao Dínamo de Kiev), e por fim a falta de eficácia na concretização de golos através de lances de bola parada ofensivos. Problemas estes que eu acredito que José Peseiro conseguirá solucionar, mas que Lopetegui, a meu ver, também conseguiria, com a vantagem de ser um treinador já muito mais familiarizado com uma equipa que foi a sua durante sensivelmente uma época e meia. E por muito que José Peseiro ainda não tenha tido muito tempo de trabalho com os jogadores, e por muito que todos os resultados e performances obtidos pela equipa sejam consequência inevitável de um processo de trabalho iniciado pelo seu antecessor, o certo é que o FC Porto, com a derrota caseira diante do Arouca, vai ter doravante dificuldades significativas na tentativa de regressar à luta pelo título de campeão nacional de futebol.

No Valência, quando a Taça do Rei estava a ser a “tábua de salvação” da campanha de Gary Neville no clube espanhol, competição na qual o treinador inglês estava a conquistar as únicas vitórias, eis que os 7-0 sofridos em Barcelona vêm tornar a vida do antigo lateral-direito complicadíssima em Espanha. Em abono da verdade a equipa do Valência até é razoavelmente competente no desenvolvimento do seu processo ofensivo, mas é perdulária na finalização, e a dificuldade na concretização eficaz das jogadas é um dos factores impeditivos da obtenção de melhores resultados desportivos, problema que já ocorria nos tempos de Nuno Espírito Santo. A tremenda goleada sofrida na Catalunha mais não fez do que destruir animicamente uma equipa bastante competente colectivamente, mas aparentemente bastante debilitada do ponto de vista motivacional e emocional. Numa altura em que já se fala da sucessão de Gary Neville, com Rafael Benitez apontado como o principal candidato à mesma, o certo é que, à entrada do técnico inglês, a equipa até então orientada pelo português Nuno Espírito Santo ocupava o 8º lugar a apenas dois pontos dos lugares europeus, tendo ainda a 2ª melhor defesa na prova, e tendo, diga-se já agora, 9 pontos de avanço sobre o primeiro dos classificados em lugares de despromoção. De referir que na sua primeira época o treinador português conduziu a sua jovem equipa à qualificação para a pré-eliminatória de acesso à Liga dos Campeões, entretanto confirmada na presente temporada. 5 empates e 4 derrotas depois, o Valência ocupa o 13º lugar, apenas 4 pontos acima da zona de despromoção, e a 10 pontos de atraso em relação aos lugares de apuramento para as provas europeias. E agora o que fazer? Despedir Gary Neville pelos maus resultados, contratar outro treinador, e voltar a dispensar esse futuro treinador caso os resultados estejam a ser igualmente maus?

Viajemos agora para Liverpool, onde os “reds” da cidade também atravessaram um processo de mudança de técnico, com o excelente treinador alemão Jurgen Klopp entrou para o lugar do norte-irlandês Brendan Rodgers, no clube desde 2012. É verdade que Rodgers não conquistou nenhum troféu nas três épocas e meia que passou no histórico colosso europeu, mas também é verdade que foi sob o seu comando técnico que se exibiu nos relvados ingleses uma das equipas mais empolgantes da Premier League dos tempos mais recentes. Com organizadores de jogo e executantes de excelência no meio-campo central como Gerrard e Lucas Leiva, e um ataque que conjugava mobilidade, eficácia finalizadora, capacidade de aceleração significativa do ritmo de jogo, qualidade de drible e criação de várias oportunidades perigosas de golo, qualidades estas bem patenteadas por homens como Sturridge, Sterling, Philippe Coutinho e Luis Suarez, o Liverpool esteve prestes a tornar-se campeão inglês na temporada de 2013/2014. No entanto o mundo do futebol é um espaço onde ocorrem por vezes fenómenos fascinantes, e a transformação de um treinador competente em alguém que não merece confiança suficiente na continuidade do seu trabalho é um desses fenómenos. Foi o que aconteceu a Brendan Rodgers, que deixou a sua equipa no 10º lugar, quando se concluía a 8ª jornada do campeonato.

A entrada de Jurgen Klopp terá decerto criado grandes expectativas quanto à capacidade que o treinador alemão pudesse vir a revelar no sentido de promover o nível competitivo da equipa, mas o certo é que a intermitência dos resultados e exibições continua. Alguma fragilidade defensiva no eixo da defesa, a dificuldade que em certos jogos a equipa sente em criar instabilidade nas defesas adversárias através de movimentos de ruptura e de recurso ao drible por parte dos seus homens mais criativos e tecnicamente dotados nesse âmbito, e a pouca mobilidade e capacidade de desmarcação dos seus pontas-de-lança são problemas que Klopp poderá resolver, e tem qualidade para isso. Mas o certo é que a “chicotada psicológica”, à passagem da 25ª jornada, não fez mais do que colocar o Liverpool na 9ª posição, a 4 pontos dos lugares de apuramento para as provas europeias. Se o objectivo era aproximar ou mesmo consolidar o Liverpool em lugares europeus, não foi a substituição de treinadores que o conseguiu fazer.

Viajando para Londres, também no Chelsea se descobriu que o mesmo treinador que levou o clube à conquista de três Premier Leagues afinal é incompetente para conduzir os destinos do clube. Equipa de excelência na gestão da intensidade dos jogos através de uma grande capacidade de manutenção de posse de bola e de uma circulação de bola de qualidade, o Chelsea desta época revelava, de facto, uma permeabilidade defensiva anormalmente alta e um défice de qualidade na construção de jogadas de ataque. Mas será que estes problemas não poderiam ser resolvidos por um treinador tri-campeão em Inglaterra, ou terá José Mourinho desaprendido de uma época para a outra? O técnico português, deixando a equipa no 16º lugar com apenas mais um ponto do que o Norwich City (primeiro dos então três classificados em zona de despromoção), é substituído por Guus Hiddink, que em 8 jogos para o campeonato apenas obteve 2 vitórias. Não estando em causa a competência do treinador holandês, o certo era que se o objectivo da mudança de treinador era a melhoria dos resultados obtidos, o objectivo está algo longe de estar alcançado. De sublinhar que o Chelsea ocupa neste momento o 13º lugar com 30 pontos. Está a 7 pontos de avanço dos lugares de despromoção, mas a 9 dos lugares de qualificação para as competições europeias.

Como estes casos concretos, existem muitos outros que culminam com resultados bastante semelhantes. Em muitos destes casos, o despedimento dos treinadores parece obedecer mais a uma lógica de procura de um “bode expiatório” que possa ser usado como forma de, eventualmente, diminuir alguma pressão dos adeptos sobre a própria Direcção, resultante da crescente insatisfação para com resultados desportivos não tão bons como os desejados, do que a uma decisão de gestão de recursos humanos que, embora radical, tenha algum tipo de sentido estratégico por detrás.

Que alguns destes casos possam mostrar a quem tem responsabilidades directivas no mundo do desporto que, mesmo quando a insatisfação dos adeptos é grande quando as coisas correm menos bem, é fundamental ter firmeza no sentido de manter alguma estabilidade directiva e técnica, na estrutura e funcionamento da instituição desportiva que se dirija. Um dirigente tem de gerir o clube “de dentro para fora”, e evitar que o clube seja gerido “de fora para dentro”. Se o não consegue fazer, de nada adianta usar os treinadores como “bodes expiatórios” para os problemas da instituição. É que dispensar profissionais da qualidade de Brendan Rodgers, Nuno Espírito Santo, José Mourinho ou Julen Lopetegui pode não ser propriamente uma boa forma de aproveitar os recursos humanos existentes no sentido de superar os diferentes desafios desportivos do clube.

Em suma, que se sensibilize a comunidade desportiva para que não se ponha em causa a competência profissional de uma pessoa porque o sucesso obtido não corresponde ao pretendido. No desporto, tal como na vida, o sucesso e o insucesso fazem parte do percurso de qualquer um. A competência e a qualidade de um profissional estão muitas vezes bem acima dos resultados desportivos obtidos, que nem sempre são um bom indicador da qualidade do trabalho que se faz.

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