Fernando Parente entrevista Sandro Barradas

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A entrevista desta semana conduzida por Fernando Parente, recaiu em Sandro Barradas, guarda-redes do Modicus Sandim onde vai para a décima época consecutiva .

Desportivo Transmontano (DT): Sandro,começaste a jogar Futsal aos 19 anos, mas pode-se dizer que o teu nome e percurso no Futsal andam juntos desde o início. Fazes parte da história do Futsal Português e pode-se dizer que são poucos os casos de atletas que ainda se mantêm num nível elevado como tu o fazes ano após ano, mesmo já não sendo profissional da modalidade. Qual o segredo desta longevidade numa modalidade muito exigente como é o “nosso” Futsal, principalmente para quem joga na tua posição, a de Guarda Redes?

Sandro Barradas (SB): É, sem dúvida alguma, uma posição muito específica, que requer uma série de requisitos essenciais para mantermos esse nível elevado de exigência.
Consequentemente, é primordial o trabalho de treino diário, pois, só assim, podemos chegar à competição com altos níveis de concentração, reflexos, etc. e, fazermos o nosso trabalho da melhor maneira possível.
Acabei de fazer 35 anos, é certo, mas sinto que continuo a ter os “requisitos” necessários para competir ao mais alto nível, e, enquanto me sentir bem, continuarei a treinar e a jogar da mesma maneira como quando iniciei a minha carreira na modalidade.

(DT): A tua formação foi feita no Futebol 11, onde iniciaste o teu percurso aos 6 anos no Guindalense FC e a terminaste aos 18 no CD Candal. Depois de tantos anos no Futebol de 11, como se deu a tua transição para o Futsal?

(SB): Iniciei o meu percurso curiosamente em Futebol de 5, no Guindalense FC, clube humilde na minha zona de residência (Guindais), em que era uma espécie de futebol de rua entre amigos, mas onde também entravamos em torneios.
Após ganhar alguns títulos individuais, senti que era altura de arriscar nu futebol de 11, onde comecei no Padroense, tendo no ano imediatamente a seguir, recebido um convite para me transferir para o Leixões SC, um clube fantástico, onde passei os melhores anos da minha formação, em que trabalhei com muita gente competente nessa vertente, aliás, é um clube que sempre foi uma referência na formação, e o qual me ajudou muito a ser o que sou hoje.
Entretanto, nos meus 2 últimos anos de júnior, e porque também mudei de residência para a área de Vila Nova de Gaia, recebi um convite para alinhar nos nacionais de juniores pelo CD Candal, onde também tive 2 anos bastante bons.
No primeiro ano de sénior, tive o convite para integrar o plantel, mas entretanto, tive um convite de um amigo que jogava Futsal no FC Gaia, e me convidou (com autorização da Direção e equipa técnica) a fazer uma semana de treinos e arriscar pela carreira na modalidade.
Treinei essa semana e a equipa técnica ficou bastante satisfeita com o meu trabalho e convidou-me a integrar ainda nesse ano o plantel que militava na altura na 2.ª divisão, na qual acabamos por garantir a subida nessa época à 1.ª divisão nacional.

(DT): Sentes que a mudança de modalidade foi benéfica para ti?

(SB): Sem dúvida! Tanto a nível financeiro, como a nível desportivo.
Já na altura, o vencimento que fui auferir no FC Gaia era 3 vezes superior ao que o CD Candal me oferecia para integrar o plantel sénior.
No plano desportivo, ganhei muito mais alegria a jogar Futsal, pois permitia-me estar muito mais em jogo e à prova, ao passo que no futebol de 11 havia jogos em que praticamente não tocava na bola e esses jogos muitas vezes eram muito monótonos, precisamente o oposto do Futsal.
No início, foi um pouco complicado a adaptação ao Futsal, até porque, sendo a posição de GR uma posição tão específica, senti algumas dificuldades “técnicas”, tais como:
– manter um posicionamento mais de “parede” e não cair tão facilmente;
– a reposição de bola com a mão;
– a não utilização de luvas no treino e jogo;
– jogar e participar muito mais com a bola nos pés; etc…

Foram uma série de “adaptações” que fui fazendo e, felizmente, com bastante trabalho ao longo do tempo, fui aperfeiçoando, tornando-me no que sou hoje.

(DT): Explica aos leitores do Desportivo Transmontano as diferenças que foste encontrando ao longo dos anos na evolução que o Guarda Redes da modalidade têm tido época após época com as alterações às regras implementadas na tua específica posição.

(SB): Como referi anteriormente, o GR de Futsal, com uma participação tão ativa no desenrolar e na envolvência do jogo, sempre teve um papel muito importante.
No entanto, sempre que há algumas alterações às regras, essas são quase sempre a haver com a posição de GR, onde cada vez mais limitam a nossa ação no jogo.
Concordo com algumas delas, mas outras nem tanto, tal como é a questão dos 4s, em que muitas vezes, o GR ainda nem tem a bola na mão e já estão a ser contados esses (poucos) segundos, o que muitas vezes, nem permite repormos a bola em jogo.
O GR, cada vez mais, é importante na manobra, tanto defensiva, como ofensiva na equipa e tem um papel primordial no desempenho e no desfecho final de uma partida: se um GR for eficaz no jogo, a sua equipa tem mais probabilidades de vencer essa partida…

(DT): Jogaste em clubes emblemáticos do Norte que fizeram parte do nascimento do futsal em Portugal. Numa palavra define cada um: FC Gaia; Boavista FC; Miramar, Freixieiro e AD Módicus.

(SB): FC Gaia: Humilde
Boavista FC: Grande
Miramar: Referência
Freixieiro: Profissional
AD Módicus: Cumpridor

Mencionei os cinco não só por serem os clubes onde jogaste, mas porque têm em comum o fato de alguns estarem extintos da modalidade (FC Gaia e Miramar), outro por se encontrar numa situação impensável (Freixieiro), e os outros dois (Boavista e Módicus) porque têm rejuvenescido e cimentado a sua posição no Campeonato Nacional da 1ª Divisão. O que te apraz dizer sobre estas situações, tendo tu vivido com toda a certeza experiências bastante gratificantes em cada um desses clubes mencionados?

Foi com enorme tristeza que vi desaparecer 2 clubes (FC Gaia e Miramar) que me marcaram, mas, sinceramente, foram 2 casos em que mais cedo ou mais tarde, estava a prever que aconteceria, pois foram 2 instituições e 2 rostos: FC Gaia (Eng.º João Rocha) e Miramar (José Manuel Leite), em que a partir do momento que essas pessoas deixassem esses clubes, muito dificilmente quem os fosse substituir iria fazer um trabalho tão bom ou igual ao que esses “SENHORES” do Futsal fizeram, não só na modalidade, mas particularmente, tiveram um papel decisivo na minha carreira.
Aproveito para, publicamente, agradecer ao Eng.º João Rocha, pois foi ele o meu primeiro presidente e quem no início confiou nas minhas capacidades.
Ao malogrado e GRANDE José Manuel Leite, tive ainda a oportunidade em vida de lhe agradecer tudo o que fez por mim, principalmente na minha última época antes de me transferir para o Freixieiro.
Freixiero, clube o qual também aconteceu um pouco o que descrevi anteriormente, onde o seu presidente ao fim de tantos anos “cansou-se” de lutar e, infelizmente, o clube, que muito prezo, chegou à situação que se encontra.
O Boavista, clube que simpatizo e onde tenho amigos, que continue a fazer um trabalho sustentado e que continue com o bom trabalho realizado na última época.
No Módicus, clube que represento, continuar a fazer coisas engraçadas como as que temos vindo a fazer e cimentar o clube na 1.ª Divisão, que é o lugar que merece.

(DT): Para quem está por dentro da modalidade, como tens visto o desaparecimento de clubes emblemáticos como: Fundação Jorge Antunes, Instituto D. João V, Joarte, AAUTAD, Miramar, etc…, o Loures já este ano?

(SB): É evidente que é uma situação negativa e que não é nada agradável de se ver. São clubes com uma história bonita na modalidade e que, por um ou outro motivo, desapareceram.
Alguns casos têm muito a ver com a situação que referi anteriormente, caso do Miramar e Fundação Jorge Antunes, outros, não conhecendo tão bem as razões, acredito que os problemas possam ser a nível financeiro, pois cada vez mais há menos patrocínios e a situação e conjuntura do país também não ajuda.
Por outro lado, há sempre a parte positiva, pois permite o aparecimento de outras equipas que com trabalho e pessoas sérias na frente desses clubes, aproveitam para, quiçá, serem num futuro próximo, outros históricos da modalidade.

(DT): Sentes que a desistência de alguns deles fez com que durante estes últimos anos existisse a primazia para vencer campeonatos, taças e supertaças somente para as duas equipas profissionais da modalidade, SL Benfica e Sporting CP?

(SB): Sem dúvida. Principalmente, as desistências do profissionalismo da ARF e FJA, permitiram que se começasse a assistir a um campeonato entre 2 equipas, e as restantes amadoras.
Por “sorte”, ou melhor, pelo trabalho e “profissionalismo” de alguns treinadores de equipas amadoras, tem-se vindo a verificar uma diminuição das diferenças entre as equipas profissionais e as amadoras, como têm sido ultimamente os casos de Fundão, Braga, Leões de Porto Salvo, o que, para bem da modalidade, permite que haja mais emoção a um campeonato que, se assim não fosse, não teria o mesmo entusiasmo, como é natural.

(DT): Foi bom para a modalidade ver a AD Fundão ganhar a Taça de Portugal e ir à final do Campeonato neste último ano (2013-14)?

(SB): Claro que sim. É evidente que para os menos distraídos foi uma grande surpresa o Fundão ter ganho a taça e ido à final do Campeonato.
Contudo, convém referir que o Fundão, apesar de um orçamento inferior aos “profissionais”, para além de um excelente treinador, tinha um plantel bom e que treinavam, praticamente, 2 vezes ao dia, o que permitia minimizar as diferenças para o Benfica ou Sporting.

(DT): E para ti, como foi estar presente em algumas finais de competições como a Supertaça Portugal, a Recopa e Taça de Portugal?

(SB): São momentos marcantes, e muito mais gratificantes, principalmente, quando as atingimos com equipas modestas.
Tive momentos muito bons, mas a presença na final da Taça de Portugal contra o Benfica e o jogo da maneira como correu, ficará para sempre gravado na minha memória.

(DT): Nessas competições existe a fator comum de teres sido finalista, mas infelizmente, não chegaste a conquistar nenhuma delas. Como era vivido o antes e o pós jogo?

(SB): Efetivamente, faltou a cereja no bolo! É evidente que, quando chegas a uma final, o principal objetivo é vencer, mas como disse anteriormente, tens que ver as coisas objetivamente, vês que chegaste a uma final com uma equipa que se qualificou para o play-off à justa e que ia defrontar na Supertaça o Campeão Nacional, à partida seria uma tarefa difícil, tal como foi a Taça de Portugal.
Na Recopa, pelo Freixieiro, apesar de sermos profissionais na altura, íamos defrontar uma potência do Futsal mundial, o El PozoMurcia, que contava nas suas fileiras com Kike, FranSerrejon, Lenísio, Paulo Roberto….. Era praticamente impossível vencer!!!

(DT): Dos muitos treinadores que tiveste, quais aqueles que consideras que te ajudaram a evoluir como jogador?

(SB): Sem querer ser injusto para nenhum deles, pois todos foram importantes, para além de todos os treinadores específicos de GR, tenho que mencionar 2 técnicos que foram importantíssimos na minha evolução como jogador:
Orlando Duarte, foi com ele que fiz todo o meu percurso nas seleções, desde os Sub/21 até à Seleção AA, ano após ano uma evolução constante.
Paulo Tavares, costumo-lhe chamar o “tarado do treino”… Trabalha muito e, acima de tudo, tem uma coisa que admiro bastante: Acredita MUITO no seu trabalho, e quando acreditamos no nosso trabalho, é mais fácil chegar ao topo!!!

(DT): Estás na AD Módicus desde 2006-07 e tens visto o clube crescer a olhos vistos. Achas que o clube é o reflexo do trabalho do Presidente António Quelhas?

(SB): Concordo plenamente. Desde essa época tenho constatado uma ambição muito grande do presidente, em levar o Módicus a ser uma certeza do Futsal.
Desde as infraestruturas até ao plantel, sinto que tem sido feito um esforço enorme por consolidar um projeto que acredito que possa colocar a AD Módicus numa referência do Futsal.

(DT): Aliás, foi o único clube onde conseguiste dois títulos (campeão nacional da 2ª divisão). Sentes que a história da ascensão da AD Módicus e do Sandro Barradas no Futsal tem a ver uma com a outra?

(SB): Penso que sim. É lógico que foi todo um trabalho conjunto, desde direção, equipa técnica e jogadores, mas um facto é que efetivamente o meu nome está e estará certamente para sempre associado às conquistas mais importantes do clube, o que me deixa obviamente orgulhoso.

(DT): Para quem, em meu ver e opinião pessoal, é um dos melhores Guarda Redes nacionais, como é ficar de fora das convocatórias da Seleção Nacional, depois de já teres representado num Mundial (Taiwan 2004) e num Europeu (Ostrava 2005)?

(SB): Tenho perfeita noção que o simples fato de, depois da minha saída do Freixieiro, deixar de ser atleta profissional, por si só, é um motivo bastante forte para desde essa altura nunca mais ter sido chamado.
Agora, também tenho a certeza, que tive, depois dessas chamadas, épocas fantásticas no meu atual clube onde, na minha humilde opinião, poderia perfeitamente ser chamado, independentemente de ser um atleta “amador”, mas, sinceramente, não guardo rancor algum por isso.
Posso-me orgulhar de ter estado nas competições internacionais mais importantes do mundo do Futsal, o que me deixa muito orgulhoso.

(DT): Achas que a tua não convocação tem a ver com o fato de teres deixado de ser profissional ou por nunca teres chegado a um dos grandes do nosso futsal?

(SB): Como referi anteriormente, o simples fato de não ser profissional é um motivo bastante forte. É óbvio, que houve alguns casos de chamadas à seleção de atletas “não profissionais”, caso do meu amigo Nandinho, mas é sempre bastante difícil um atleta que treina 4 vezes por semana ter a mesma condição de outros que treinam mais do que o dobro.
Também concordo que o fato de um atleta jogar num Benfica ou Sporting parte em vantagem, ainda para mais depois de se extinguirem equipas como o Freixieiro ou a Fundação Jorge Antunes.

(DT): Teres representado a Seleção Nacional foi a cereja no topo do bolo?

(SB): Sem dúvida alguma! Acho que é um sonho que qualquer jogador deseja realizar. Sentir que fazemos parte de um grupo restrito de jogadores (14) a nível nacional para participar em competições tão importantes como um mundial ou um europeu, não fica ao alcance de qualquer um e eu, felizmente, posso-me “gabar” de ter participado em competições tão importantes como essas.

(DT): Para quem faz parte da “mobília” da AD Módicus, como tens visto a saída de jogadores preponderantes na manobra da equipa ano após ano?

(SB): É um fato que se tem vindo a verificar. Normalmente, a AD Módicus é um clube que tem como principal preocupação na aquisição de jogadores, não só a sua qualidade técnica e tática, mas também se preocupa em contratar jogadores que se integrem bem no grupo, nomeadamente no aspeto social.
É evidente que há sempre personalidades muito diferentes umas das outras, o que faz que por vezes haja algumas alterações na equipa, mas se verificarem por norma a maior parte dos jogadores acaba por permanecer no clube 2, 3, 4 épocas, e depois há algumas “mobílias” como eu que ficam mais tempo.

(DT): E o futuro, que te diz? Jogar mais um, dois anos?

(SB): Enquanto me sentir bem, e verificar que as pessoas do clube continuam satisfeitas com o meu trabalho, vou continuar a jogar por mais uns anos.
Acabei de fazer 35 anos, é evidente que não me vou enganar a mim próprio, a partir do momento que sinta que já não reúno os requisitos necessários para desempenhar a minha função na baliza, acabarei naturalmente por pendurar as sapatilhas…

(DT): E depois, treinar?

(SB): Tenho essa ambição! Sinceramente, não tenciono ser treinador principal de uma equipa, mas tenho como objetivo, depois da minha retirada como jogador, de ser treinador de GR nos séniores ou até na formação, ajudando, no que me for possível, aqueles que queiram um dia chegar onde o Sandro Barradas chegou…

(DT): Amigo Sandro, deixaste ou tens algo a dizer que não tenhas referido nas questões anteriores?

(SB): Unicamente dizer que foi um prazer responder a esta entrevista, foi a entrevista mais completa que fiz e agradecer o fato de te teres lembrado de mim e de tudo o que fiz em prol da modalidade… Um muito obrigado!!!!

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