Pedaços de vida inesquecíveis e emocionantes

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Por: Gonçalo Novais

Eu e a Liga dos Campeões: Pedaços de vida inesquecíveis e emocionantes

Demorei ainda um tempinho a principiar a escrita deste meu artigo de opinião, tal seria a amplitude de temas pertinentes que o desporto nos pode colocar. No entanto, o facto de a Liga dos Campeões começar já esta terça-feira (15 de Setembro) torna-a um tema de indiscutível importância no que concerne à actividade desportiva desta semana, à escala mundo.

O que não falta nos jornais desportivos, bem mais qualificados no assunto do que eu, são análises de antevisão da prestação dos nossos representantes na prova. Ao Benfica, colocado no Grupo C, cai em sorte o estreante Astana, orientado por um treinador que já jogou no saudoso Campomaiorense (de nome Stanimir Stoilov), um Galatasaray que combina a presença de jogadores de topo como Sneijder ou Podolski com uma qualidade colectiva de jogo que está longe ainda do seu melhor do ponto de vista defensivo, e um Atlético de Madrid que, além de à partida ser a equipa mais forte do grupo, vai apresentando no campeonato espanhol um modelo de jogo bem trabalhado e posto em prática pelo colectivo, notando-se uma qualidade alta na forma como os processos defensivo e ofensivo ocorrem, sendo necessária uma equipa extremamente competitiva e bem organizada do ponto de vista estrutural e funcional para levar de vencida esta bem forte equipa do Atlético de Madrid. Desde 2011/12 que a vida do Benfica tem andado difícil nesta competição. Se a chegada a duas finais consecutivas da Liga Europa em 2013 e 2014 fez esquecer as duas eliminações seguidas da equipa na fase de grupos, o descalabro benfiquista da época passada na prova é algo que o clube não quererá voltar a experimentar. Se os dois jogos com o Atlético de Madrid terão um grau de dificuldade bastante elevado para a equipa, que podem mesmo traduzir-se em duas derrotas, já as debilidades defensivas do Galatasaray ou do Astana podem possibilitar a um Benfica forte a possibilidade de, pelo menos, assegurar a passagem aos oitavos-de-final, numa luta renhida que em princípio vai ser travada com os turcos.

A tarefa do FC Porto não será nada fácil, mesmo no que respeita à luta pelo objectivo mínimo exigível aos portistas, o segundo lugar no grupo. Se a superioridade relativamente aos israelitas do Maccabi Tel-Aviv é evidente, será nos dois jogos frente ao perigoso e experiente Dínamo de Kiev que a questão pode ficar resolvida, seja a favor de portugueses ou de ucranianos. No entanto, temos ainda a incógnita Chelsea, acerca da qual não se sabe até que ponto é que poderá transportar os seus enormes problemas defensivos (que se inicialmente eram mais visíveis pelos flancos, já se estendem agora ao centro da defesa) e a falta preocupante de fluidez do seu processo ofensivo até às competições europeias. Incógnita Chelsea que até poderá criar alguma imprevisibilidade num grupo onde tudo pode acontecer ao Porto, desde a conquista do próprio primeiro lugar à repescagem para a Liga Europa em caso de eventuais deslizes.

No entanto, não é de análises desportivas que me apetece falar, mas sim de um tema que toca de forma geral a todos os amantes de futebol, e mesmo até aos que não acompanham regularmente a modalidade.

Com efeito, a Liga dos Campeões é uma competição de tal modo carismática nas vivências do país em que vivemos, que todos nós já temos associados a esta competição um conjunto de momentos marcantes que promovem um vínculo bastante estreito com este evento desportivo. O meu caso é apenas mais um entre tantos outros, sendo ainda para mais eu um amante confesso da modalidade.

O primeiro momento marcante ocorreu quando eu tinha ainda 6 anos e andava na primeira classe. Um dia antes de eu fazer anos, aproveitei o facto de ter jantado mais cedo para ir ver televisão, e acabei por ver, na minha antiquíssima televisão sem comando, a final completa daquela edição da competição, na qual o AC Milan derrotou um Barcelona onde jogava um dos meus jogadores favoritos da altura, o brasileiro Romário, que eu muito gostava de ver jogar na selecção brasileira. O certo é que apesar de craques como o brasileiro ou o goleador búlgaro Stoichkov, e mesmo com jogadores tão competentes na defesa e meio-campo defensivo como Koeman ou Guardiola, a derrota dos catalães foi copiosa, saldando-se num humilhante 0-4. Ao mesmo tempo que fiquei triste por não ver a equipa de Romário ganhar, adquiri um fascínio tal pelas equipas italianas que nunca mais deixei de acompanhar a Série A italiana. Corria o ano de 1994, e do dia lembro-me perfeitamente, dia 18 de Maio, véspera de comemorar o meu sétimo aniversário.

Seria em 1996 que eu sentiria a primeira grande alegria que me era proporcionada por uma equipa portuguesa. Na primeira jornada da fase de grupos da época 1996/97 nunca pensei que o meu Porto pudesse ser capaz de derrotar um AC Milan, em pleno San Siro, repleto de estrelas como Panucci, Paolo Maldini, George Weah, Boban ou Roberto Baggio. Mas Mário Jardel começava a mostrar-se em grande estilo à Europa do futebol, sendo o artilheiro de um fantástico ataque onde o igualmente competente artilheiro Artur, e médios-alas com tanta precisão nos seus cruzamentos para a grande-área como Drulovic ou Zahovic (já para não falar de Rui Barros) brilhavam, naquela que era claramente uma das equipas mais temidas do Mundo. Sendo eu muito jovem na altura, e idolatrando maioritariamente jogadores estrangeiros, tive neste inesquecível AC Milan-FC Porto de 1996 a primeira percepção de que Portugal talvez pudesse ter equipas competitivas, se quisesse.

Percepção que estaria longe de estar errada, pois passados oito anos tive o prazer de ver um clube português erguer o troféu, até agora um feito inédito desde que a Liga dos Campeões assumiu o seu formato actual. Numa campanha em que a final com o Mónaco acabou por ser confortavelmente dominada pelo Porto, talvez o ponto mais alto tenha sido o golo do empate de Costinha perto dos noventa minutos, naquele que, para mim, foi o golo que de longe mais festejei em toda a minha vida.

Só a Liga dos Campeões para igualmente transformar momentos bem complicados e até algo dramáticos, em momentos nos quais somos capazes de ter, no meio das dificuldades, uns pequenos momentos de consolação e entretenimento. Corria o ano de 2006 e eu tinha sido operado a uma cifo-escoliose dorso-lombar, que para os mais leigos consistia na tentativa de me “endireitar” a coluna, e pelo menos descomprimir e expandir alguns órgãos do meu sistema respiratório cujo funcionamento se degradava significativamente. A operação foi de tal modo delicada que o limiar entre uma locomoção autónoma e a cadeira de rodas era bastante estreito. Tendo corrido bem a cirurgia, veio uma recuperação de tal maneira dolorosa e extenuante que não a desejo a quem eu menos quero. E foi no sempre lúgubre ambiente dos Cuidados Intensivos do Hospital de Santo António, que o Benfica me conseguiu deixar com um sorriso nos lábios quando o Luisão, perto do final do jogo da 1ª mão dos oitavos-de-final, cabeceou para o fundo das redes após a marcação de um livre.

Edição após edição, os bem agradáveis momentos que esta competição nos pode proporcionar são muitos, e o impacto da mesma ao nível das muitas horas de lazer e entretenimento fazem com que cada nova edição seja sempre aguardada com redobrada ansiedade, e sempre com o inconfessável sonho de ver uma equipa portuguesa quanto mais não seja a destacar-se, chegando até às fases mais adiantadas da prova, como de certa forma o Porto acabou por fazer na temporada passada.

Edição após edição, multiplicam-se igualmente as memórias que vamos armazenando de toda uma série de artistas que, ao longo dos tempos, vão ficando para sempre recordados pela magia, pela qualidade e talento que espelharam em campo.

Edição após edição, seguramente multiplica-se aquele espectáculo que nenhuma televisão consegue captar, aquela Liga dos Campeões que se joga muito para além dos estádios, e que da mesma forma que gerou um sorriso ténue num jovem portista a apoiar os rivais de sempre, também seguramente chegará a zonas em que, durante noventa minutos, se esquecem as agruras e preocupações da vida por uns instantes para que se possa desfrutar daquilo que de melhor o futebol tem para oferecer.

Mais do que futebol, a “Champions” é magia. E seja nos estádios ou fora deles, que as 32 participantes no certame nos “inundem” com o seu talento e brilhantismo!

E melhor ainda se a final puder ser um Porto-Benfica…

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