Opinião: Livros de Doutorados vs Experiências Vividas

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Por: Ivo Campos*

Com este artigo de opinião pretendo tirar conclusões próprias, que no meu tempo de faculdade que me tentaram “injetar” como sendo a forma única de treino de alto rendimento. Pretendo com cada dia vivido em África retirar ideias de treino que possivelmente em outros países da Europa dão-lhe pouco importância ou significado, com isto não pretendo provar que os livros ou enciclopédias de “doutorados” são “impróprios para consumo”. Mais à frente exemplificarei uma etapa vivida  na minha curta carreira nesta área,  foi no ano de 2012 quando ainda estava no meu anterior clube, G.D. Interclube de Luanda. Logo na minha 1ª etapa com profissional de uma equipa de alto rendimento, estar a liderar a vertente física com este grau de dificuldade, onde estávamos inseridos em várias frentes, campeonato, taça de Angola e CAF (equivalente à Liga Europa). Uma responsabilidade que me deu grande gozo e aprendizagem.

Como descrevi anteriormente África é única para se trabalhar. E porquê? Porque as culturas desportivas – metodológicas são muito diferentes das quais estamos habituados assim como as suas culturas organizativas – competitivas. Mas embora apresentem dificuldades normais para a situação é de louvar a alegria, competência e qualidades humanas por parte dos jogadores . São jogadores que apresentam como é obvio grandes qualidades físicas e com um desenvolvimento  enorme e gradual em termos técnico – tático, sendo atletas de um elevado nível de interajuda e de uma enorme paixão pela profissão que têm. Muitos críticos olham para o futebol Africano como sendo apenas físico e nada mais, pois bem, devo dizer que isso não correspondem á verdade, embora não diga também que não tenho essa preocupação. Digo isto porque entrei no clube numa altura de grande intensidade competitiva ( o Interclube estava inserido em 3 frentes: Girabola – Taça Angola – CAF), tendo feito mesmo 14 jogos em 42 dias, com viagens de 7000 km para países como o Sudão, Etiópia, Zimbabwe e África do sul, com esta conjuntura é obvio que me preocupava com o “físico” dos atletas. Mas mantenho a minha ideia priorizada para a vertente psicológica como melhor treino para a manutenção do “físico”. Acabando a época e somando viagens, estágios, campeonato, taça, CAF …. ver que a equipa  em 5 meses percorreu 70.000 km em viagens,  28 jogos disputados, subindo do 14º ao 5º lugar, só podia estar satisfeito e concluir que mesmo em África o treino de recuperação física e psicológica é fundamental.

Neste novo meu projeto (Sport Luanda e Benfica), volto a perguntar-me sobre a preponderância da aplicação de metodologias de treino avançadas quando talvez (aqui é que me questiono) existem outras vertentes de treino mais importantes em África, como o treino mental, psicológico, regras alimentares e respeito pelo adversário. Nesta jornada (5ª do Girabola), fomos defrontar o Benfica de Lubango, no seu território (antiga cidade Sá da Bandeira, situada no planalto da Huíla) – em altitude (1800 metros), na qual nós eramos lideres do campeonato (10 pts) e o nosso adversário ocupava a última posição (1 pt). Realizamos um morfociclo a condizer com estas condicionantes todas, com todos os cuidados de Scouting e estudando todos os pormenores desde a pré-época no nosso adversário. Sabíamos que o adversário realizou toda a sua pré-época na sua própria casa, tendo realizado apenas 2 jogos de controlo com adversários debilitados, ordenados em atraso e com constantes problemas de grupo, ao contrário da nossa equipa, que realizou estágios em várias zonas da Europa (Melgaço – Portugal; La Manga e Marbella – Espanha), defrontando equipas de nível elevado, como os campeões da Suécia, Dinamarca, Noruega (pretendíamos com isto preparar a equipa para as exigências físicas que estes países desenvolvem no seu futebol) e os campeões da Roménia e Rússia (preparar a equipa para as exigências táticas rigorosas da europa).  A verdade é que saímos com um empate 1-1 de Lubango.

Daí as minhas dúvidas:  “Livros de Doutorados”  ou ” Experiências Vividas, Caraterização do Meio”? Treinar bem só em campo chega? Como controlar / treinar para a não desmotivação e desinteresse?

Pois bem, perguntas essas que espero ter resolvido durante a semana, antes do embate para o derby de Luanda de 6ª feira: S.L.B x Petro de Luanda. Aproveito para convidar todos os interessados a ver em direto o jogo, através da TPAinternacional (Televisão Pública de Angola) pelas 18horas.

Espero que tenha mostrado um pouco mais do “nosso” futebol Africano a vocês.

Um abraço aguiarense

* Preparador Físico do Sport Luanda e Benfica, em Angola

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