Opinião: Futebol de Rua vs Futebol de Academias

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África Minha

Por: Ivo Campos*

É com enorme satisfação e orgulho que aceitei o convite do “Desportivo Transmontano”, para escrever um pouco sobre a minha viagem Africana. Tentarei descrever a minha experiência vivida cá; o que é o futebol Africano; como se vive e convive em África; o que significa jogar em África; como é jogar / treinar em África e peripécias passadas. Devo confessar que vim para Angola de uma forma intermitente, pensativa e receosa, no entanto tenho que admitir que passou rápido a uma satisfação enorme onde todos os dias há algo para descobrir, algo para ensinar e algo para aprender.

Escolhi um tema de reflexão para começar, um tema com caso “antigo” vs “recente” e/ou “Futebol de Rua vs Futebol de Academias”. Uma espécie de departamento moderno da qual a maior parte dos clubes de renome mundial já possuem (Scouting) ou então um negócio de última geração para os “abutres e/ou impulsionadores de carreiras desportivas”, os chamados Agentes Desportivos / Empresários.

Quando se pensa onde estará agora a jogar o melhor jogador do mundo de 2020, muitos consideram que estará agora a aparecer nas escolinhas do Ajax, Barcelona, Sporting, Benfica, Arsenal, Inter, Auxerre. Eu pelo contrário penso que estará numa favela do Brasil, num bairro de Buenos Aires mas principalmente acredito que estará num subúrbio de Abidjan, Kumasi, Kinshasa, Bissau, Luanda, Huambo ou Lobito….teimo em acreditar desta forma.

Tendo em conta o número quase infinito de crianças que procuram neste momento o sonho de serem o próximo Messi ou Ronaldo, acredito que cada vez mais surjam jogadores de top em países em que até há bem pouco tempo nem sonhávamos que dessem alguma coisa ao futebol. Casos de Adebayor, Nonda, Sessègnon, Drogba, Yaya Touré, Gervinho, Samuel Eto’o, Song, Ayew, Obi Mikel ou Manucho são bons exemplos do que o futebol se tornou para a sociedade atual.

É precisamente pela complexidade do resultado do processo de treino que vários pensadores e analistas do futebol consideram que os próximos melhores jogadores do mundo virão de locais “desprivilegiados” e desfavorecidos. O Treino tem ajudado ao crescimento e de desenvolvimento de mais e melhores jogadores, criando jogadores interessantes mas que parecem obedecer a determinados padrões qualitativos, com características individuais cada vez mais parecidas. Paradoxalmente, acredita-se que os próximos grandes jogadores apareçam em países onde o processo de treino tem um impacto menos significativo no processo de aprendizagem do jogador, já que a sua aprendizagem não se sustenta nas normas de uma escola ou academia de futebol, mas sim no chamado Futebol de Rua que tanto tem estado em voga. Assim, o jogador que aprende na “rua”, em vez de estar a aprender a fazer p. e. coberturas defensivas através de 4 ou 5 exercícios diferentes, ele aprende através do jogo, da sua leitura e da sua inteligência. Da mesma forma, em vez de realizar uma aprendizagem segundo uma orientação pré-determinada e muitas vezes redutora, o jogador aprende através de uma variabilidade circunstancial muito maior, que lhe permite realizar uma cobertura defensiva de maneiras diferentes para a mesma situação. A situação do “jogador-academia” cria ainda mais interrogações por estarmos a ver cada vez menos jogadores que reúnam em si qualidades como o virtuosismo, a criatividade, a imprevisibilidade, a gingas… habilidades próprias que fazem destes jogadores uma espécie rara.

É verdade que se tem estado a valorizar muito nos últimos tempos o Futebol de Rua, e a falta que o mesmo faz às crianças sobretudo quando se aborda o processo de ensino-aprendizagem do futebol, ou seja, no futebol de formação. Tal “Futebol” é um contexto de aprendizagem socio-neuro-desportiva extremamente estimulante e que contribuiu positivamente para o desenvolvimento individual da criança/jogador que se reflete coletivamente enquanto criança/equipa.

Escusando-me aqui a entrar pelos porquês do desaparecimento do Futebol de Rua, grande parte deles mais que evidentes, a verdade é que o Futebol de Rua, quase já não existe nos chamados países desenvolvidos. Embora continuem a existir exceções, tal como os chamados bairros sociais dos grandes centros urbanos, as pequenas cidades e vilas dos meios rurais e alguns clubes que têm complexos desportivos e metodologias de treino que se assemelham ao futebol praticado nas ruas, o seu desaparecimento parece estar a consolidar-se.

A boa constatação surge se nos afastarmos um pouco mais da nossa realidade, ao vermos que o futebol de rua mais do que ser normal, é natural… E onde? Na América do Sul, América Central e com especial interesse para nós, África.

Existe, no entanto, uma diferença nestes contextos. Nas “Américas” as condições primárias de aprendizagem permitem a existência do Futebol de Rua, principalmente nas grandes urbes, onde o futebol está de tal forma enraizado que muitas das crianças jogam quase tantas horas por dia como as que dormem. Além disso, numa segunda etapa de aprendizagem, se as crianças optarem ou tiverem qualidade, surge a possibilidade delas poderem a vir integrar clubes competitivos, bem estruturados e organizados, pois o meio socio-desportivo assim o permite.

Na África já não é bem assim. Com exceção feita a alguns clubes e academias, os clubes africanos são normalmente pouco estruturados e organizados, não tendo meios físicos e humanos para acatar às necessidades diárias dos jogadores dentro e fora do campo, sejam eles crianças, jovens ou adultos. Embora nos últimos tempos tenhamos visto surgirem numerosas academias de futebol em África, poucas são aquelas que estarão verdadeiramente sustentadas com princípios organizacionais complexos e com objetivos a longo prazo. Isso nota-se na qualidade individual e coletiva dos intervenientes numa partida disputada em África. Julgamos ser aqui que entra o grande desafio do futebol de formação em África. Sabendo que as Federações se têm esforçado para criar condições e centros desportivos, cabe também aos clubes, dentro das suas limitações criarem condições de trabalho dignas para os jovens. Por outro lado, as metodologias de treino utilizadas por grande parte dos técnicos das equipas africanas nem sempre têm em conta as qualidades e potencialidades dos jovens africanos, incidindo pela sobrevalorização da parte física do jogo.

Com esta mudança de paradigma, acreditamos que o próprio “jogador-tipo” africano deixaria de ser o habitual jogador físico e agressivo, rápido, que esconde algumas das suas debilidades táticas com a sua imponente estampa física, fruto da sua deficitária formação. Mesmo os próprios jogadores de top africano, evoluídos tática e tecnicamente, destacam-se também por serem bastante fortes no confronto físico individual: Essien, Yakubu, Song e Drogba alterando o modelo de formação africano, talvez surgissem mais oportunidades para outro tipo de jogadores, que não tendo o tal porte físico conseguissem singrar da mesma forma: jogadores mais virtuosos, ágeis e elegantes, que “espalhassem magia” de outra forma. Imaginamos jogadores como Yaya Touré, Obi Mikel ou Kwadwo Asamoah que se em vez de terem andado a “encher” e ganhar o porte físico que sustentam tivessem andado a potenciar o seu drible e as suas fintas.

É pela valorização global do jogador africano que faço esta reflexão. Não estou aqui a descurar o lado físico do jogador africano, até porque lhe é quase sempre natural e inato. Contudo, gostaríamos de ver outro tipo de jogadores africanos a top. Mais Eto’o’s, Gervinho’s, e Okocha’s, daqueles que num jogo importante “abrem o livro” como se estivessem a jogar num qualquer bairro dos Camarões, Costa do Marfim, Nigéria ou Angola. Infelizmente, parece-me que o caminho que as academias traçam, é precisamente o contrário, onde as componentes físicas e técnicas são treinadas de forma despropositada. E a meu ver a “magia” só aconteceria se o tal Futebol de Rua que tanto se joga em África, tivesse um impacto maior na formação do jogador africano, sendo melhor valorizada pelos agentes desportivos locais. Por isso, ou as academias e os clubes africanos mudam o seu paradigma de formação, ou mais que nunca os jovens craques necessitam de continuar a “treinar” na maior escola de futebol do mundo, a Rua.

* Preparador Físico do Sport Luanda e Benfica, em Angola

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