Por: Gonçalo Novais

Falando de Futsal: uma humilde reflexão sobre um complexo problema do Futsal Distrital Portuense

Estamos em 2015, e por isso ainda estamos dentro do prazo de implementação de todo um processo de desenvolvimento do futsal nacional inserido no âmbito do Plano Estratégico de Desenvolvimento do Futsal, elaborado pela FPF (Federação Portuguesa de Futebol) para o período entre 2012 e 2016.

Neste Plano Estratégico, o Eixo 2 chama a atenção para a necessidade de uma administração do futsal “num alinhamento perfeito com as associações e clubes através de uma reorganização administrativa e técnica interna apoiada tecnologicamente”, e num investimento “na regularidade e competitividade dos quadros competitivos masculinos e femininos” como um factor promotor do sucesso da divulgação e evolução competitiva do futsal.

Numa próxima crónica, talvez até mesmo na próxima, possa debruçar-me sobre uma reflexão, humilde mas a melhor conseguida que eu puder, sobre a reformulação dos quadros competitivos do futsal, nomeadamente os registados no futsal sénior masculino. Nesta crónica, acabarei por tocar ao de leve neste ponto, se bem que o foco das minhas observações se centre mais na questão do ALINHAMENTO entre associações, clubes e federação no âmbito da promoção da competitividade e popularidade do futsal entre praticantes, patrocinadores e adeptos da modalidade.

Quando se toca na temática do alinhamento, uma vista de olhos atenta às consequências práticas da reformulação dos quadros competitivos do futsal sénior masculino permite observar um problema do qual, por mais incrível que me pareça, pouco, muito pouco, se discute, e que a meu ver constitui uma temática a ser alvo da maior e mais urgente atenção. Falo da existência de nada mais nada menos do que QUATRO escalões distritais de futsal sénior masculino na AF Porto, por força, seguramente, da extinção da antiga 3ª Divisão Nacional de Futsal, cuja última edição tem lugar na época de 2013/2014.

Na época de 2013/2014, o quadro competitivo do futsal sénior masculino em provas com a chancela da AF Porto comportava uma Divisão de Honra com 16 equipas (o campeão subia aos nacionais), uma 1ª Divisão com duas Séries de 16 equipas cada, e por fim uma 2ª Divisão com 19 participantes.

Na presente época de 2015/2016, e já após a entrada em pleno nas alterações dos quadros competitivos operadas pela FPF, a AF Porto apresenta um total de quatro escalões distritais federados para os seus seniores masculinos: é criada a Divisão de Elite, com 14 equipas, seguida da Divisão de Honra, com igual número de participantes. Depois vem a 1ª Divisão, com duas Séries de 14 participantes, e por fim uma 2ª Divisão com as 11 equipas inscritas que não se encaixaram nos restantes escalões, mescladas com um ou outro projecto desportivo mais solidamente estruturado que, tendo de fazer um percurso ascendente desde os escalões mais baixos, pode ter de competir num campeonato no qual a sua equipa apresenta um nível competitivo completamente diferenciado das restantes.

Apresentado este panorama geral dos quadros competitivos do futsal sénior masculino da AF Porto, existem questões bastante pertinentes a colocar, e que podem levar a pensar que talvez existam aspectos a serem urgentemente trabalhados entre a FPF e a AF Porto, a fim de evitar a manutenção e consolidação de um quadro competitivo que pode constituir-se como um obstáculo ao desenvolvimento desportivo do futsal do distrito do Porto. É precisamente o tema do “alinhamento perfeito” entre instituições desportivas, do qual fala o Eixo 2 do Plano Estratégico da FPF.

A primeira questão prende-se com o, a meu ver, exagerado número de divisões distritais presentes nos quadros competitivos da AF Porto para o futsal sénior masculino. Independentemente do número de equipas inscritas para os campeonatos distritais, seria viável, face ao número de equipas actualmente existentes, o agrupamento das mesmas em menos divisões, com um ligeiro aumento do número de equipas no sentido de se aumentar, pela via do campeonato distrital, o volume do período competitivo propriamente dito, através de um aumento do número de jogos e do período de tempo necessário para o decurso de qualquer dos escalões.

A segunda questão prende-se com a aparente contradição entre o defendido no Eixo 2 do Plano Estratégico e o formato competitivo das competições distritais seniores masculinas da AF Porto. De facto, o Eixo 2 menciona a importância da promoção da regularidade dos quadros competitivos, talvez como forma de promover a regularidade no trabalho subjacente ao processo de treino e de ensino-aprendizagem subjacente ao trabalho desportivo que tenha de ser realizado no âmbito da preparação para a competição das diversas equipas. Com o novo quadro competitivo da AF Porto, o volume e regularidade competitiva mantém-se e não aumenta, e a título de exemplo sublinhe-se o número de jogos realizados pelos vencedores das duas últimas edições da Taça AF Porto, vencedores que, por força da sua chegada à final da competição, acabam por realizar um número de jogos maior do que o daquelas equipas que são anteriormente eliminadas, isto para além da contabilização dos jogos dos campeonatos, sensivelmente em igual número para todos. O GD Cem Paus, vencedor da Taça AF Porto na época de 2013/2014, realizou 37 jogos oficiais, mais dois do que os realizados na época seguinte pelo Moradores da Granja, vencedor da Taça AF Porto em 2014/2015, já com a reformulação dos quadros competitivos em vigor. Podendo eventualmente existir um reduzido número de exemplos em que no novo quadro competitivo se tenham disputado mais partidas do que no quadro competitivo anterior, importa sublinhar a estagnação do número de partidas oficiais disputadas, não se verificando acréscimos ao nível do volume e regularidade dos desafios desportivos ao longo de cada temporada.

Uma terceira questão prende-se com um possível reduzido interesse de adeptos, patrocinadores, treinadores qualificados e jogadores com o mínimo de competência no sentido da participação em campeonatos distritais de divisões inferiores, particularmente a 1ª e a 2ª Distritais. Este pouco interesse limita significativamente a capacidade que pessoas com capacidade e motivação empreendedora tenham de construir uma estrutura desportiva preenchida por recursos humanos de boa qualidade em função, naturalmente, do contexto desportivo no qual estas equipas se inserem. Não é fácil convencer um patrocinador a apoiar financeiramente um projecto de futsal enquadrado numa competição de reduzida visibilidade e projecção, por vezes mesmo incapaz de mobilizar massivamente o apoio das próprias comunidades de onde as equipas participantes são originárias. Tal como não é muito fácil convencer um treinador minimamente habilitado para liderar competentemente um processo desportivo numa 1ª ou 2ª Divisões Distritais, quando poderá ter a possibilidade de trabalhar num escalão que lhe permita coabitar competitivamente com as sempre melhores equipas da Divisão de Elite, ou na pior das hipóteses, na Divisão de Honra, na qual já bons conjuntos se encontram em competição. Pior mesmo será convencer bons jogadores a disputar os mais baixos escalões, que os distanciam da possibilidade de se projectar em clubes que lhe permitam consolidar-se numa Divisão de Elite ou mesmo numa 2ª Nacional, onde poderão em princípio dispor de melhores condições de trabalho, e pelo menos de trabalhar com treinadores e colegas de equipa que muito os poderão enriquecer ao nível do conhecimento e do domínio das várias “dimensões” performativas da modalidade.

A quarta questão prende-se com dois factores que aparecem inter-relacionados, e que portanto junto na mesma. O primeiro factor aponta para o longo período de tempo que, no mínimo, uma equipa demora para chegar do escalão mais baixo da AF Porto até à 2ª Divisão Nacional. Em teoria, portanto, e caso este quadro competitivo se mantenha indefinidamente, uma equipa que comece um projecto desportivo na presente época de 2015/2016 só chegaria, na melhor das hipóteses, à 2ª Divisão Nacional na época de 2019/2020. Não acham isto estranho nem preocupante? Pois bem, atravessem o Marão e observem que, na vizinha AF Vila Real, um clube que inicie um projecto desportivo na presente época de 2015/2016 pode chegar, igualmente na melhor das hipóteses, à 2ª Divisão Nacional na época seguinte, e à 1ª Divisão Nacional na época de 2017/2018, isto numa altura em que uma sua hipotética congénere portuense nem sequer teria chegado, no melhor cenário, ao escalão máximo do futsal distrital! E é aqui que passamos ao outro factor desta quarta questão, intimamente ligado ao factor anterior, e que diz respeito às possíveis dificuldades de incentivo e captação não apenas de novas equipas de futsal, mas PRINCIPALMENTE de emblemas desportivos de grande impacto nacional, que neste cenário podem não achar muito atraente a ideia de criar e desenvolver um projecto de futsal, pelo menos face à manutenção do cenário actual. Com efeito, como convencer emblemas como o Futebol Clube do Porto, ou mesmo do FC Penafiel ou do FC Paços de Ferreira, a juntarem-se a uma modalidade que, ainda que dotada de uma grande popularidade mesmo entre os seus adeptos, requereria um investimento significativo de recursos financeiros e de esforço humano apenas para superar, ao longo de tantas épocas, os diversos escalões distritais da AF Porto? É que um dirigente, mais do que ter a noção de que os adeptos de um FC Porto, do Penafiel ou do Paços de Ferreira (entre outros…) até se entusiasmariam com a criação de uma Secção de Futsal nos clubes, também tem de governar “de dentro para fora”, e de assumir uma postura permanentemente crítica em relação não apenas aos pontos fortes e potencialidades de um projecto desportivo, como também às possíveis ameaças, condicionalismos e pontos fracos do mesmo. Independentemente do próprio “amor” ou paixão que tenham pela modalidade!

É com base nestas questões, que a mim me preocupam como seguidor atento das competições distritais de futsal da AF Porto e apaixonado confesso pela modalidade, que acredito na militância activa das pessoas do futsal não apenas do distrito do Porto como a nível nacional para, em primeiro lugar, enriquecerem com as suas críticas esta minha opinião aqui formulada (pois muito tenho eu que aprender convosco), e em segundo lugar, para alimentarem um debate que tem da minha parte o único propósito de garantir uma permanente melhoria das condições de trabalho e competição do futsal, no sentido de poder, em última instância, cativar cada vez mais a adesão dos clubes de renome a nível nacional que ainda faltem adicionar a esta grande “família”.

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Comentário

5 COMENTÁRIOS

  1. Meu caro, mas eu algum dia referi isso sobre os treinadores, jogadores ou dirigentes dos clubes?

    Olhe que se o fiz, foi completamente sem intenção, e peço as minhas sinceras desculpas aos referidos intervenientes.

    Aquilo que fiz, e isso fi-lo deliberadamente, foi referir a minha discordância relativamente ao facto de haver QUATRO ESCALÕES DISTRITAIS, quando poderia haver menos!

    E fi-lo, atente bem, pois considero que os clubes ficariam a ganhar se conseguíssemos diminuir o peso de uma situação que é desvantajosa para os clubes da AF Porto.

    Disponibilizo-me a esclarecê-lo sobre a minha posição, caso também esteja interessado.

    Vai ver como, pessoalmente e com calma, o senhor irá entender perfeitamente a minha posição, e mesmo discordando, chegar à conclusão de que estou a tentar vir em defesa dos clubes da AF Porto.

    Em todo o caso, calma, muita calma, que por detrás das primeiras impressões, por vezes erradas, existem fundamentações que podem evitar males-entendidos.

    Um forte abraço, meu caro.
    Não se sinta insultado nem ninguém se sinta insultado, pois o meu intuito não foi o de insultar ninguém, mas de pretender lançar o debate sobre um tema pertinente.

    Gonçalo Novais

  2. Desculpe, palavras não fundamentam as realidade e demonstrou não saber, nada de nada, dos campeonatos Distritais da AF Porto.

    Lamento que escreva que as divisões inferiores não tenham treinadores minimamente habilitados, é um insulto gratuito de quem trabalha na divisão inferior ou na maior do mesmo modo e aplicação, pois nas divisões inferiores estão treinadores consagrados que pegaram em projetos com futuro ao Nacional.

    Todas as equipas têm treinadores credenciados seja nível I, II ou II, todos eles têm formação e ao contrário do que acontece por Vila Real, aqui, apesar de haver muitas equipas, ainda temos treinadores sem colocação.

    Acho que se devia limitar à sua Associação e perceber as razões de não haver crescimento, porque, apesar de todas as dificuldades os campeonatos distritais portuenses conseguem manter e em muitos casos aumentar equipas nos mais diversos escalões, será isto um retrocesso?

    E fique sabendo que um clube de “camisola” chamemos assim ao Porto, Paços de Ferreira e outros mais, se um dia se virarem para o Futsal, não o farão a partir da 2.ª Divisão Distrital, mas sim, se entenderão com um clube que já esteja nos nacionais para obter os direitos desportivos.

    Mas descanse que não ficarei por aqui.

    Atentamente

  3. Excelente artigo, amigo e colega!

    O melhor que já escreveste, e que por ser polémico acaba por ter vários tipos de reações.

    Mas eu bem sei que sabes do que estás a falar. E não estás a falar à sorte, não, e mais não digo…

    Desafio-te a fazeres chegar este artigo à própria AF Porto, apenas para debateres o tema diretamente com eles, pois é de pessoas que falem frontalmente do que pensam que precisamos para o futsal crescer…

    Abraço forte, espero é que deixes rápido o jornalismo e regresses rápido ao dirigismo ou ao banco 🙂

  4. Meu caro Artur

    Não o considero um insulto, apesar de considerar que é de facto um tema com alguma polémica, mas que merece de todos a maior consideração.

    Principalmente pela relação custo-benefício de um investimento feito numa estrutura de futsal sénior masculino da AF Porto.

    Já reparou na diferença significativa de recursos humanos, logísticos e financeiros que uma estrutura de futsal, num plano meramente teórico, tem que investir quando comparativamente a um clube da AF Vila Real ou da AF Bragança? Acha bem que uma equipa filiada na AF Porto demore na melhor das hipóteses CINCO anos para chegar à 2ª Divisão Nacional, e uma outra, a título de exemplo filiada na AF Vila Real demore apenas DOIS?

    Não se trata de insultar ninguém, mas de ser pragmático do ponto de vista do desenvolvimento de qualquer projecto desportivo a médio e longo prazo. E de mostrar preocupação quanto a um problema criado pelo quadro competitivo do futsal sénior masculino da AF Porto que pode bloquear o interesse de clubes de projecção nacional que talvez pudessem, noutras circunstâncias, investir mais facilmente no futsal.

    A título final, não pessoalizemos as coisas! Ninguém está aqui a insultar ninguém, nem muito menos ninguém está a escrever teses sem fundamento. Apresentei a minha tese, e fundamentei-a. E acho que um debate como deve ser necessita de elevação, e não de contra-argumentos do género “há pessoas que só falam e escrevem porque têm boca e mãos”.

    Têm opiniões diferentes? Apresentem-nas e fundamentem as mesmas. Como eu fiz com a minha. Concorde-se ou não.

    Um forte abraço, Artur Moreira!
    Gonçalo Novais

  5. Só me apetece dizer, há pessoas que falam e escrevem porque tem boca e mãos.

    Amigo fale primeiro no aspecto competitivo da sua região e o porque de o campeonato sénior ter apenas doze equipas, do que se por a adivinhar e falar sobre uma Associação que mais clubes tem desde a formação aos seniores.

    Em certos aspectos este artigo de opinião é um insulto a todos os intervenientes da modalidade na AF Porto.

    Atentamente
    Artur Moreira

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