Por: Gonçalo Novais

Chicotadas Psicológicas: Solução eficaz de Gestão de Recursos humanos ou Fonte de Problemas? 

O futebol, culturalmente valorizado como a modalidade à qual mais atenção mediática se dá e à qual estão afectos significativos recursos financeiros quando comparativamente a outras modalidades praticadas em território nacional, parece-me ser, enquanto leigo absoluto no assunto, uma fonte de contradições significativa em matérias várias.

Uma dessas matérias prende-se com a concepção da função do treinador. No mesmo país em que, com toda a legitimidade, se apontam como preocupações a precariedade e transitoriedade dos vínculos laborais, com a subsequente instabilidade profissional e socioeconómica dos trabalhadores, a incapacidade de definir projectos de vida a médio e longo prazo, a ausência ou limitação da perspectiva de evolução na carreira profissional ou a omnipresente vontade de rumar a outros países no sentido de encontrar melhores condições de trabalho e perspectivas de progressão na carreira, e em que a perda ou restrição de direitos laborais traz consigo a degradação das condições de trabalho de trabalhadores que muitas vezes até têm um muito bom desempenho na execução das tarefas que lhe estão incumbidas, neste mesmo país, quando se trata da avaliação do trabalho de um treinador de desporto, o imediatismo, o resultadismo, a excessiva responsabilização do treinador relativamente a possíveis factores potencialmente originários de insucesso que nem eles conseguem controlar de todo, são critérios mais do que utilizados na amostragem dos chamados «lenços brancos», quando é pedida a demissão do técnico num contexto em que os resultados pretendidos não estão a ser obtidos.

É evidente que os adeptos autores da amostragem dos «lenços brancos», ou mesmo os que preferem mostrar a sua indignação ou contestação nas imediações do autocarro que transporta a equipa que apoiam, não têm responsabilidades directas na gestão desportiva, financeira e mesmo política de um clube desportivo. Um adepto não é pago ou nomeado para gerir um clube. A sua função, de inestimável importância na sustentabilidade do crescimento e consolidação de um projecto desportivo, é uma função de apoio, de suporte, de acompanhamento, função naturalmente carregada de uma forte intensidade emocional. A função do adepto, à partida muito mais “emocional” do que “racional”, apesar de aparentemente “desligada” ou não associada de forma significativa à gestão do clube, traz consigo, contudo, um aspecto importante na gestão da instituição desportiva, que é a identidade social, cultural e histórica que está associada ao movimento associativo que marcou a fundação e o posterior desenvolvimento dos vários clubes desportivos que conhecemos. Se é verdade que um treinador, um jogador ou mesmo alguns dirigentes são essencialmente profissionais remunerados para cumprir uma determinada função ou conjunto de funções, também não deixa de ser importante, a meu ver, a função do adepto, pois este é um agente crucial no estabelecimento de uma ligação, de um elo entre a actividade profissional desenvolvida por aqueles que são pagos para tal, e a identidade e o significado do clube quer para os seguidores que o acompanham, quer para á órbita externa ao clube – um projecto desportivo não vive apenas do acompanhamento e apoio dos seus aficionados, como também do prestígio que consegue granjear perante a sua comunidade local, nacional e internacional.

Todavia, apesar da importância do papel do adepto, há uma fronteira que o delimita da função do dirigente, esse sim responsável pela adequada gestão desportiva e financeira da instituição, fronteira essa que, não impedindo que o dirigente tome contacto com os anseios, reivindicações e eventuais motivos de indignação por parte dos adeptos, o coloca numa posição de decisor que não deve pôr em perigo a qualidade e consistência da sua gestão, bem como a estabilidade profissional e mesmo emocional dos seus colaboradores. Devendo zelar pelo cumprimento dos objectivos estipulados antes de cada época, antes de cada ciclo de trabalho, antes de cada projecto anual ou plurianual de desenvolvimento desportivo, o dirigente desportivo deve procurar, contudo, desenvolver uma liderança directiva minimamente sólida, que não se deixe “levar na onda” dos momentos de euforia/vitória ou contestação/derrota, sob pena de transformar um seu ciclo de trabalho num processo marcado pela instabilidade das condições de trabalho de todos os que no clube trabalham.

É que a opção das “chicotadas psicológicas”, mais do que uma opção solidamente assente numa estratégia consolidada de desenvolvimento de um projecto desportivo necessitado de um determinado tipo de liderança, parece ser mais o produto de decisões directivas normalmente extemporâneas, e condicionadas pela indignação e contestação derivada de resultados desportivos menos conseguidos. O problema é que no desporto nem todos ganham, e não é pelo facto de não se ganhar que se deve pôr em causa a competência de um profissional. Quando tal acontece, perde-se uma excelente oportunidade de desenvolver e consolidar uma determinada visão estratégica para o clube que se dirige, atrasando por vezes um processo de trabalho que, ainda que não estivesse a produzir os resultados pretendidos, talvez pudesse eventualmente no futuro permitir a consolidação de toda uma estrutura que, munida de pessoas profissionalmente competentes no exercício das respectivas funções, e tendo perspectiva de estabilidade na sua carreira profissional, poderia ter tempo para desenvolver todo um projecto desportivo que, passo a passo, pudesse não só inculcar uma determinada filosofia de trabalho, como permitir que, no enquadramento dessa mesma filosofia, se pudessem ir recrutando profissionais com perfil adequado às funções para as quais eram contratados.

Treinar, liderar um grupo de desportistas, não é chegar e impor um “jogar” que idealmente pretendemos, porque os jogadores não são máquinas ou autómatos. Treinar e liderar um grupo de desportistas não é igualmente chegar a uma equipa e “pôr as pedras no sítio”, porque os jogadores não são pedras.

Treinar e liderar é ter uma visão estratégica para o desenvolvimento desportivo do clube que se representa, visão essa que, em condições ideais, deve servir como base para todo o processo de operacionalização de um modelo de jogo, de uma filosofia de jogo, de um processo motivacional, de definição de um conjunto de objectivos e de um modelo de comunicação que, em conjunto, determinarão a evolução desportiva que uma determinada equipa vai registar ao longo da temporada. E apesar de não ter o prazer de conhecer pessoalmente homens como José Mourinho, Julen Lopetegui, Marcelo Bielsa, Brendan Rodgers ou Rafael Benitez, tenho a firme convicção de que todos eles são profissionais que, no domínio das mais diversas áreas associadas ao exercício das suas funções de treinadores, são do melhor que existe disponível dentro da classe profissional a que pertencem. Aplicar a “chicotada psicológica” como método de gestão de recursos humanos deste nível, mais do que tornar dispensáveis profissionais de boa qualidade, vai transformando os projectos desportivos em projectos imediatistas, cada vez mais destituídos de uma visão estratégica que oriente e canalize todas as energias de um clube na prossecução dos objectivos que ambiciona atingir.

Mais do que um eficaz instrumento de gestão motivacional e técnica dos recursos humanos, a “chicotada psicológica” pode, em muitas situações, contribuir para um incremento da instabilidade, fragilidade e perda de organização de um processo de trabalho que se tenta desenvolver. O que nem é bom para os profissionais sistematicamente afectados e prejudicados por estas medidas, nem para o próprio desporto em geral, no qual acaba por proliferar a ideia de que a obtenção de bons resultados deve ser exigida de um dia para o outro.

Que os nossos dirigentes tenham a noção de que, nomeadamente nos campeonatos profissionais do nosso futebol, gerem atletas e técnicos de muito bom nível. Desejo é que tenham a lucidez de aceitar que a competitividade e a competência do funcionamento de uma estrutura levam o seu tempo, e até por vezes bastante tempo. Que seja dado aos profissionais, particularmente aos treinadores, tempo. Porque no futebol, tal como na vida, o sucesso não aparece de mão beijada nem de um momento para o outro.

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