O talento como recurso de emergência ou necessidade permanente?

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Por: Gonçalo Novais

Caso 1: Nathan Redmond (Norwich/Inglaterra)

A 8 de Agosto de 2015, Norwich e Crystal Palace estreiam-se para a edição 2015/16 da Premier League inglesa, num jogo em que a equipa da casa (o Norwich) inicia a sua luta pela manutenção, ao passo que o Palace, inspirado pela liderança carismática de um rejuvenescido Alan Pardew, tenta um objectivo mais ambicioso, visando o alcance de um lugar europeu. Surpreendentemente, o jogador claramente mais talentoso da equipa, o médio-ofensivo/ala-direito do Norwich está no banco, e apenas entra aos 57 minutos da partida, numa altura em que os forasteiros, com uma qualidade de jogo colectiva e de processo ofensivo bastante superior, já venciam tranquilamente por 2-0 e dominavam a equipa do Norwich, menos competente no ataque e bastante incapaz de produzir desequilíbrios na organização funcional e estrutural da defesa adversária. Com Redmond, o Norwich não só conseguiu aproveitar uma das debilidades defensivas mais evidentes do CrystalPalace – distância mais alta do que o recomendável entre meio-campo central e defesas-centrais, que potencialmente pode ser explorada pelos atacantes adversários para desequilibrar -, como conseguiu, através de ataques mais perigosos pelos flancos, lateralizar melhor o seu jogo de ataque, aproveitando melhor a qualidade de drible e cruzamento de Redmond e o bom posicionamento na grande-área de Cameron Jerome para tornar mais frequentes as oportunidades de finalização para a equipa da casa. Apesar de o Norwich ter perdido esse primeiro jogo, não mais Redmond saiu da equipa titular, marcando um golo na semana seguinte diante do Sunderland, na primeira vitória da equipa na PremierLeague.

 

Caso 2: Bernardo Silva (Mónaco/França)

Eficácia na finalização de jogadas de ataque, exímio aproveitamento de brechas nas defesas adversárias para acções de desmarcação e finalização em zonas próximas das balizas adversárias, capacidade de recuperação de bola ainda no meio-campo ofensivo, excelente qualidade de passe, e como se isto não bastasse, este ainda jovem jogador português, tão completo que é, tem apenas 21 anos, uma margem de progressão enorme, e um futuro que muito provavelmente passará pelo estrelato do futebol mundial.

E a sorte para os adeptos do Mónaco é que o treinador do clube do principado é um dos melhores treinadores portugueses da actualidade, um senhor de nome Leonardo Jardim, conhecido por fazer omeletes deliciosas com muito poucos ovos.

Ainda assim, no jogo da 1ª jornada da Ligue 1 Bernardo Silva, a despeito da tremenda prestação tida no Euro sub-21, surge no banco de suplentes, num dia 8 de Agosto em que o Mónaco tinha de se deslocar a Nice, para defrontar um dos trios ofensivos mais interessantes e perigosos da Ligue, formado por Ben Arfa, Alassanev Pléa e Valère Germain.

Estando a perder por 1-0 após golo madrugador do Nice aos 7 minutos, Leonardo Jardim, competente como é, não perdeu tempo e ao fim de somente 25 minutos tira Pasalic (que não saiu lesionado, apenas para esclarecer as dúvidas), e coloca o nosso compatriota Bernardo, que na primeira parte, além de algumas jogadas de grande perigo junto da baliza do Nice, ainda consegue provocar a falta que leva à expulsão do lateral-esquerdo do Nice Boscagli, para depois no segundo tempo marcar o primeiro golo e dar início à jogada do segundo tento.

Em suma, houve um jogo antes de Bernardo, e um outro jogo depois, completamente diferentes.

 

Caso 3: Miguel Rosa (Belenenses/Portugal

Se no jogo do passado dia 23 de Agosto, domingo, em Guimarães, foi o Belenenses a dominar as operações em termos de construção e finalização do processo ofensivo, a muito se deve à acção deste médio-ofensivo que, aos 26 anos, parece estar a expressar a sua qualidade ao nível da transição meio-campo-ataque, funcionando como um verdadeiro elo de ligação entre o sector intermediário e o mais adiantado da equipa de Belém. A sua capacidade de distribuição de jogo no meio-campo para os homens mais adiantados, em paralelo com a sua qualidade no transporte de bola até às imediações da grande-área da equipa do Vitória de Guimarães foram determinantes na conquista do ponto solitário que os «azuis» do Restelo trouxeram do Minho.

De referir que Miguel Rosa entrou em campo apenas aos 59 minutos de jogo, substituindo um outro médio-ofensivo de boa qualidade, Tiago Silva, mas exercendo um impacto no jogo bastante mais significativo.

Estes são apenas três exemplos de uma situação-tipo que por acaso acontece, não digo frequentemente, mas de forma pouco surpreendente para o adepto comum, que é o aparente resguardar de jogadores talentosos e desequilibradores no banco de suplentes, entregando-se muitas vezes a titularidade a jogadores que, na esmagadora maioria destas situações-tipo menos talentosos, são bem menos capazes de provocar desequilíbrios na estrutura e funcionamento defensivos adversários do que os talentos que são relegados para o banco de suplentes. E quando me refiro a jogadores talentosos refiro-me a jogadores que, quer do ponto de vista ofensivo quer do ponto de vista defensivo, são possuidores (em maior ou menor grau) de atributos técnico-tácticos, fisiológicos e decisionais que os tornam mais aptos para a prática desportiva de uma determinada modalidade, a um nível competitivo de excelência. O que na prática quer dizer, na minha óptica, que o talento no futebol não se reflecte apenas no recurso ao drible, às simulações de corpo, aos remates ou aos cruzamentos e passes precisos para optimizar as oportunidades de penetração nos espaços vazios que, aliadas à mobilidade dos atacantes e à sua capacidade de desmarcação e procura de espaços adequados para uma finalização mais eficaz, maximizam as oportunidades de obtenção de golos. O talento reflecte-se igualmente na neutralização das jogadas de ataque adversárias, na marcação impiedosa movida aos adversários, na capacidade de “cobrir as costas” de um colega de equipa no momento do processo defensivo no sentido de anular possíveis linhas de passe que poderiam ser aproveitadas para a criação de situações de grande perigo favoráveis aos adversários, ou em fantásticos desarmes sem recurso à falta.

Posto isto, e esclarecida, da melhor maneira que pude, a minha definição de “talento”, não vejo, honestamente, em que medida é que a permanência de jogadores tão valorosos no banco de suplentes trouxe algum tipo de benefício às respectivas equipas.

Terão essas equipas, vendo diminuída a qualidade do seu processo ofensivo, visto aumentar em contrapartida a qualidade do seu processo defensivo? Nos três exemplos acima indicados, antes da entrada dos três jogadores que acima destaquei, todas estavam a perder, sem terem obtido qualquer golo. Duplo fracasso, portanto: não só as equipas supracitadas não obtiveram qualquer golo sem a presença destes desequilibradores, como também não impediram que os adversários marcassem.

Terá sido a presença no banco destes jogadores derivada de algum tipo de incapacidade ou problema de ordem clínica, ou mesmo défice de forma desportiva e aptidão funcional para este jogo, o que levaria os treinadores a resguardarem estes atletas pelo menos numa fase inicial das partidas? Bom, numa modalidade que permite apenas três substituições (o que condiciona as opções estratégicas e tácticas dos treinadores para os jogos), e em que lesões de jogadores de campo ou expulsões podem levar a substituições forçadas, podem os treinadores correr o risco de, após terem resguardado atletas que não estivessem na plenitude das suas capacidades, poderem ver-se incapacitados de colocar em campo elementos de grande capacidade desequilibradora, deixando as equipas destituídas de elementos capazes de promover a qualidade das diversas fases do respectivo processo ofensivo em caso de necessidade. Já para não dizer que, em plantéis profissionais, não faz muito sentido, salvo em situações muito excepcionais, convocar jogadores para os jogos que não estejam funcionalmente aptos para os mesmos… E olhando para as exibições supracitadas de Redmond, Bernardo Silva e Miguel Rosa, três exemplos de entre alguns outros, não me pareceu que não estivessem na plenitude das suas capacidades desportivas.

Excluindo portanto as situações anteriores, retenho a minha atenção naquilo que vi. E o que vi foram três jogadores de excelente nível competitivo que promoveram verdadeiras reviravoltas nos jogos, espalhando qualidade pelo terreno de jogo, numa altura crítica para as respectivas equipas. O talento desportivo, uma necessidade permanente de qualquer boa equipa de futebol, revestiu-se nestas situações de uma mera solução de emergência.

Seria contudo interessante, em jeito de finalização desta crónica, conhecer os critérios tidos em conta pelos três treinadores que fundamentaram a opção de colocar estes três bons atletas no banco de suplentes. Até porque, para leigos no assunto como eu, seria interessante saber o porquê de, por vezes, atletas de valor inquestionável em certas equipas apenas entrarem em alturas de maior desespero na procura de um melhor resultado.

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