Por: Gonçalo Novais

  O título deste artigo é por demais esclarecedor daquela que é a minha opinião sobre este regresso dos nossos representantes portugueses à Europa do futebol.

Com efeito, e ainda que a chegada às fases de «play-off» de cada uma das competições europeias configurem por si só um cenário de grande dificuldade, não deixa de ser verdade que, para algumas das equipas portuguesas, os desafios que se avizinham poderiam ser relativamente mais fáceis.

Não será esse o caso do Benfica, que nunca teria vida fácil, agravada pelo facto de ter ficado em segundo lugar na fase de grupos. O Zenit, dentro dos adversários possíveis, foi um dos “menos maus” (a par do Wolfsburgo), mas ainda assim é um adversário perigosíssimo. Tendo recrutado o médio-defensivo Maurício ao Terek Grozny e o avançado Kokorin ao Dínamo de Moscovo, a equipa de André Villas-Boas ganha não apenas uma maior consistência defensiva ao centro do meio-campo, como também uma outra opção muito válida para fazer companhia a Dzyuba no eixo do ataque. É na Liga dos Campeões, e na busca por uma maior afirmação futebolística do clube a nível europeu, que parece centrar-se o processo motivacional de uma equipa colectivamente fortíssima, que tem na forma como ataca pelos flancos a sua arma mais perigosa na hora de criar e depois aproveitar oportunidades de finalização. No centro do terreno, quer na defesa quer no meio-campo, a equipa está bem trabalhada a todos os níveis – os centrais Luís Neto, Garay e Lombaerts são fortes defensivamente e igualmente na construção e organização do processo ofensivo a partir da defesa, Javi Garcia é extremamente competente na neutralização das iniciativas atacantes dos adversários, e Witsel é um médio de excelência com particular vocação para o ataque -, mas é na mobilidade e aproveitamento de espaços vazios defensivos para finalizar com eficácia de Oleg Shatov, e na qualidade do drible e remate de Hulk, bem como na sua competência no ataque pelas alas, que residem os grandes perigos para a equipa do Benfica, isto se nos lembrarmos de que nesta temporada, isto pelo menos na minha mais que modesta opinião, a permeabilidade defensiva do Benfica (em particular a da sua ala esquerda) tem sido apontada como uma das lacunas mais evidentes do Benfica de 2015/16. Será ainda uma incógnita saber até que ponto a derrota caseira diante do FC Porto terá afectado emocionalmente uma equipa embalada por uma sequência de bons resultados, mas talvez o mais preocupante seja a constatação, por exemplo nos jogos diante dos «dragões» e do Belenenses, de erros defensivos que podem custar caro à equipa de Rui Vitória na tentativa de superar um adversário que, a meu ver, parte como favorito, não apenas porque disputa o jogo decisivo em casa (o que até nem me parece o factor mais relevante), mas também porque o Zenit me parece uma equipa mais completa, com maior qualidade no seu processo defensivo. Igualmente significativo pode aparentemente ser a grande importância que o Zenit dedica à Champions, na qual está a ter uma excelente prestação a todos os níveis.

As declarações de Mkhitaryan são elucidativas das intenções do Dortmund em resolver o mais rapidamente possível uma eliminatória que, chegando equilibrada ao Dragão, pode criar complicações à equipa alemã do Borussia Dortmund, próximo adversário do FC Porto na Liga Europa. E o certo é que se o ataque dos alemães funcionar normalmente, o jogo no Westfalenstadion será um verdadeiro tormento para os «azuis e brancos». Ver as excelentes combinações tácticas, executadas ainda por jogadores tecnicamente dotadíssimos como Marco Reus, o já referido Mkhitaryan, Kagawa e Gundogan, aliadas à veia goleadora de Aubameyang, fazem antever um jogo de enorme grau de dificuldade para os portistas, que tentarão aproveitar os escassos momentos em que o Dortmund mostre o seu esporádico défice de agressividade defensiva, facilmente mascarado todavia com a excelente competência técnico-táctica de centrais como Hummels, Subotic ou Sokratis.

Todas estas razões são válidas no sentido de acreditar que o Dortmund é favorito à passagem à fase seguinte. Embora o FC Porto tenha obtido uma vitória meritória na Luz, parece ser uma equipa não apenas emocionalmente inconstante, e com lacunas que se foram tornando cada vez mais evidentes principalmente a partir do embate caseiro diante do Dínamo de Kiev – aliás, esse FC Porto- Dínamo de Kiev será mesmo o melhor jogo para Thomas Tuchel (para os menos entendidos, o treinador do Dortmund) perceber como explorar decisivamente as maiores fragilidades dos portistas, em particular quando o eixo da defesa sofre uma pressão mais intensa quando está com a posse de bola. E olhando para as dificuldades que a equipa sente diante de ataques menos poderosos, o FC Porto bem terá de surpreender, e muito boa prestação terá que ter, no sentido de evitar a eliminação.

A vida também será difícil para o Sporting, que terá pela frente um Bayer Leverkusen que, na época de 2012/2013, foi eliminado pelo Benfica precisamente nos 16 avos-de-final, Benfica que, como se sabe, era treinado pelo actual treinador do Sporting. A resolução desta eliminatória dependerá não apenas da capacidade que os «leões» tenham de desenvolver o seu processo ofensivo com fluidez, recorrendo à competência na organização do jogo ofensivo de médios como João Mário ou Adrien Silva, ou de aproveitar a capacidade finalizadora de Slimani ou Bryan Ruiz, como também pode depender da inspiração criativa de Çalhanoglu na hora de fazer chegar à bola a finalizadores sempre letais quando dispõem de oportunidade para criar perigo, como Javier Hernandez “Chicharito” ou Kiessling, apenas para referir os que considero mais perigosos. Em comum as duas equipas parecem ter uma organização defensiva razoável em ambos os casos, com jogadores de grande potencial como Paulo Oliveira ou Coates (do lado do Sporting), ou Jonathan Tah e Omer Toprak do lado dos alemães, embora nem sempre consistentes em jogos em que sejam mais assediadas pelos ataques adversários. Diferente é a abordagem de jogo, com um Sporting mais criativo e mais envolvido como um “todo” nos diversos momentos do seu jogo, e um Leverkusen mais “partido”, com os sectores não tão envolvidos entre si no desenvolvimento dos seus processos de jogo – porém, este ligeiro défice de criatividade é largamente compensado pela elevada competência técnica dos seus executantes, precisos na abordagem e definição de vários lances. Eliminatória muito equilibrada, sem favorito claro, em que sobretudo uma organização defensiva competente e consistente definirá quem passa à fase seguinte.

O Braga foi, de todos, o que menos azar teve no sorteio. Calhou em sorte aos bracarenses o actual sexto classificado do campeonato suíço, o Sion, que chega a esta fase da competição desde um grupo bem difícil, onde igualmente estavam o Liverpool, o Rubin Kazan e o Bordéus. É um importante cartão-de-visita para uma equipa longe de ser macia ou inexperiente, com jogadores como o lateral-esquerdo Ziegler (com um longo trajecto, entre outros países, por Itália, Inglaterra ou Alemanha), o muito competente ponta-de-lança Moussa Konaté (que já passou por Itália e Rússia, estando a afirmar-se futebolisticamente na Suíça), o experiente avançado grego Theofanis Gekas (reforço de Inverno, contratado aos turcos do Eskisehirspor), e ainda o melhor marcador do Campeonato do Mundo de Sub-20 em 2015, o húngaro Bence Mervó, um dos destaques pela positiva da prova, numa equipa onde ainda pontifica o extremo-esquerdo português Carlitos, que aos 33 anos é um dos jogadores mais destacados do campeonato helvético, sendo mais do que provável que venha a ser uma das mais importantes armas do conjunto orientado pelo francês Didier Tholot.

Ainda assim, colectivamente, o Braga parece ser favorito à passagem à fase seguinte, embora com naturais cautelas. Os motivos de interesse no acompanhamento desta equipa não se esgotam felizmente na enorme qualidade técnica no transporte de bola e qualidade de passe e drible de Rafa, na competência finalizadora de Ahmed Hassan ou Stojilijkovic, da precisão dos cruzamentos e passes em profundidade de Alan, ou da enorme segurança defensiva proporcionada pelos centrais Ricardo Ferreira, Boly ou André Pinto. Trata-se de uma equipa competente na transposição dos seus princípios de jogo para dentro de campo, com um relativamente significativo conjunto de jogadores que, pela sua margem de progressão e potencial futebolístico, parecem motivados para se projectar e mostrar a sua qualidade. À semelhança do que aconteceu com a projecção de alguns bons valores do já eliminado Belenenses através desta competição, o Braga é um agradável sinal de que o interesse pelo futebol português não se esgota nos três denominados «grandes».

E assim começa mais uma parte da campanha portuguesa nas competições europeias, aguardando que Portugal, que conta já com 8.5000 pontos amealhados, uma interessante pontuação, até olhando em termos comparativos para os 9.0830 pontos amealhados na época passada, e os 9.9160 na época de 2013/2014.

No entanto, volto à mensagem inicial: há grandes dificuldades no horizonte das equipas portuguesas nas provas da UEFA. Esperemos que os nossos representantes as saibam ultrapassar, à semelhança do que já aconteceu, felizmente, em tantas outras ocasiões.

Deixar comentário

Comentário