O início da Liga Russa: Um Campeonato a acompanhar

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Por: Gonçalo Novais

Pouco conhecida e pouco acompanhada por tanta gente (inclusive adeptos regulares desta fantástica modalidade que é o futebol), e surpreendentemente mal divulgada por parte dos meios de comunicação social (transmissão de poucos jogos por época, escassez de resumos alargados disponíveis, e mesmo atrasos em termos de divulgação das constituições dos plantéis do campeonato russo), o certo é que a Liga Russa tem vários pontos de interesse que justificariam um acompanhamento mais significativo desta competição, pela qualidade que as suas equipas apresentam.

Para nós, portugueses, o Zenit de São Petersburgo deve ser a exceção à regra do ponto de vista do acompanhamento sistemático que o adepto português um pouco mais apaixonado pela modalidade dedica a uma equipa russa. Desde um treinador marcante como André Villas-Boas (ainda acho anedótico quando se diz que Mourinho e Jesus são claramente os dois melhores treinadores portugueses da atualidade, esquecendo-se daquilo que este grande senhor fez no FC Porto), passando pelos internacionais portugueses Luís Neto e Danny, e somando-se jogadores que se afirmaram categoricamente no nosso campeonato como Garay, Witsel, Javi Garcia ou Hulk, este Zenit tem muitos motivos que levam a que da nossa parte, enquanto portugueses, haja um acompanhamento e um interesse maiores do que os registados em relação a outras equipas.

Mas não é de individualidades marcantes que se faz a equipa do Zenit. Coletivamente, trata-se de uma equipa fortíssima quer no processo defensivo (que começa quase sempre a meio do meio-campo adversário), quer no processo ofensivo (grande envolvimento de todo o coletivo no ataque organizado, e mestria na execução e finalização de jogadas de contra-ataque). É que se adicionarmos aos jogadores de excelência do Zenit supracitados no parágrafo anterior elementos como o guarda-redes Lodygin, dois laterais-direitos de qualidade como Smolnikov ou Anyukov, médios-ofensivos como Yusupov ou Shatov, e finalizadores de grande categoria como Salomon Rondón, Kerzhakov e o reforço Dzyuba (pouca gente conhece o tão competente que é este avançado), e se a tudo isto adicionarmos ainda um modelo de jogo bem consolidado e interpretado coletivamente, então estamos na presença de uma das equipas mais fortes e potencialmente consistentes do futebol europeu, que além de ser a mais forte candidata ao título, é uma equipa com capacidade para fazer uma boa campanha nas competições europeias.

Mas nem só de Zenit se faz a Liga Russa. O Dínamo de Moscovo, apesar de, no seu processo ofensivo, parecer ser uma equipa com alguma dificuldade em construir jogo ofensivo a partir do meio-campo principalmente, compensa essas dificuldades (que podem ser perfeitamente corrigidas ao longo da época) com a presença de um trio de médios-ofensivos que estabelecem entre si uma dinâmica (em termos posicionais e de realização de triangulações ou “tabelinhas”) que dá gosto presenciar. Com efeito, quem ainda não viu Valbuena, Dzsudzsák ou Ionov a jogarem juntos, e se porventura gosta de futebol, devia ver, porque vale a pena. E numa altura em que aparentemente algumas nossas equipas parecem tão capazes de fazer investimentos avultados em contratações de jogadores, bem se podiam voltar para jogadores deste Dínamo como o defesa-central Douglas, o médio-defensivo AntonSosnin (defende com enorme qualidade) ou o ponta-de-lança Kokorin (numa equipa com um processo ofensivo de maior qualidade poderia marcar entre 15 a 20 golos por temporada, num campeonato ao nível do português).

Ainda na capital russa se encontram outros três possíveis candidatos ao título.

O CSKA Moscovo, que terá provavelmente pessoas das mais competentes em termos de “scouting” desportivo, apresenta-se para este campeonato com uma defesa muito consistente, formada por “velhas guardas” tão importantes para a equipa como Akinfeev, os gémeos Berezutskiy ou o central Ignashevich, às quais podemos juntar jogadores no auge da sua carreira desportiva como o médio-defensivo Wernbloom ou o criativo Tosic, estando os mais jovens Mário Fernandes, Dzagoev, Efremov, Milanov ou Ahmed Musa preparados para assumir o futuro do clube como possuidor de uma das mais competitivas equipas da Rússia.

O Spartak de Moscovo, orientado pelo antigo campeão europeu pelo FC Porto Alenitchev, parece ter na defesa a sua maior fragilidade, pois em termos de ataque organizado é uma equipa que pratica um futebol muito bonito e agradável, digno de ser visto. Com dois laterais competentes a atacar (Makeev pela direita e Kombarov pela esquerda), com um dos extremos mais perigosos da liga (QuincyPromes), com criativos de excelente visão de jogo e precisão no remate de meia-distância (Glushakov e Shirokov), e com médios-ofensivos mais móveis, imprevisíveis e incessantemente à procura de diferentes espaços de penetração e desmarcação (Jurado e Popov), o Spartak é uma equipa que tem períodos nos jogos que são dignos de ser vistos por qualquer adepto de futebol.

O Lokomotiv de Moscovo é uma quase antítese, em certa medida, do seu rival Spartak. Possuidor de uma dupla de centrais de bom nível (Corluka e Pejcinovic) e dois laterais competentes em tarefas ofensivas e defensivas (Shishkin na direita e VitaliDenisov na esquerda), e de variadíssimas alternativas no meio-campo de bom nível (ao nosso compatriota Manuel Fernandes, podemos acrescentar o enormemente talentoso AlekseiMiranchuk, e jogadores mais experientes como Kasaev, N’Dinga, Boussoufa, Samedov ou Tarasov), a expectativa residirá em saber se avançados como Maicon ou Skuletic conseguirão contrariar a falta de eficácia finalizadora da equipa na época transacta (marcou apenas 31 golos em 30 jornadas), e se para além disso conseguirão substituir avançados carismáticos como Pavlyuchenko ou Dame N’Doye, que saíram do clube.

Do Krasnodar, grande surpresa do campeonato anterior pelo terceiro lugar alcançado, podem-se esperar novamente jogos de grande nível na construção e finalização de jogadas de ataque (quem não teve a oportunidade de ver em campo jogadores como Laborde, Akhmedov, Ari, Wanderson ou MauricioPereyra a jogar juntos, que arranje maneira de o fazer, ainda para mais agora que se juntou a eles um tal de Smolov, que tão boa época realizou na época anterior no FK Ural).

Quanto às outras equipas, todas elas num patamar mais ou menos nivelado, talvez o KubanKrasnodar (com um plantel recheado de jogadores internacionais e com experiência ao mais alto nível, como Arshavin ou Pavlyuchenko, entre alguns outros) ou o TerekGrozny (equipa coletivamente consistente) possam estar em condições de se intrometer na luta pelos lugares europeus no caso de um deslize das equipas mais fortes, restando a todas as outras equipas a luta, à partida, pela manutenção.

Os leitores desta crónica podem muito bem desconhecer alguns dos nomes que aqui coloquei, bem como acompanharem pouco esta competição. Mas se gostam de futebol, experimentem a Liga Russa. Na passada sexta-feira teve início mais uma edição de um dos campeonatos mais importantes e com mais história do continente europeu. E com muito boas horas de futebol para proporcionar a todos aqueles que se aventurem na descoberta do significativo valor competitivo desta competição.

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