Um pequeno balanço e antevisão da segunda volta

         Finda a primeira volta nas fases de grupos da Liga dos Campeões e da Liga Europa, nas quais as nossas equipas estão inseridas, e passada uma semana em que quatro dos nossos cinco representantes até venceram os respectivos jogos numa semana europeia com um saldo francamente positivo para os clubes portugueses, torna-se interessante fazer um pequeno ponto de situação relativamente à prestação portuguesa nas competições europeias.

Começando por olhar para a pontuação obtida no «ranking» da UEFA, em metade da fase de grupos Portugal já amealhou 5.5000 pontos, mais de metade da totalidade de pontos que obteve nas duas últimas temporadas, e até ver, mais pontos do que os obtidos por países como a Inglaterra (5.2500) ou a Itália (5.0000), muito embora os nossos perseguidores mais directos, a Rússia e a França, tenham conquistado mais pontos do que Portugal até agora. Ainda assim, Portugal vai-se mantendo no 5º lugar, ao mesmo tempo que tem amplas perspectivas de contar com pelo menos quatro equipas nas provas europeias após o fim da fase de grupos, o que analisarei de seguida. É, do ponto de vista do «ranking», uma boa prestação portuguesa até agora.

No respeitante às prestações específicas dos clubes, comecemos pelo campeão nacional Benfica, que vai ocupando a liderança do grupo C da Liga dos Campeões, a par do Atlético de Madrid, e com vantagem no confronto directo. É um Benfica inconsistente exibicionalmente, capaz de em certos jogos mostrar uma qualidade colectiva de jogo assinalável nos processos defensivo e ofensivo, e em outros jogos de revelar uma permeabilidade defensiva que o torna particularmente vulnerável, mesmo diante de equipas não muito competentes no ataque. Esta irregularidade exibicional ficou bem patente no jogo diante do Galatasaray, em que os encarnados, diante de uma equipa cuja eficácia ofensiva depende largamente dos movimentos de ruptura para finalização de jogadores como Podolski ou UmutBulut, ou dos passes precisos de Sneijder a partir do meio-campo, sem que haja um grande desenvolvimento dos seus princípios de jogo colectivos ofensivos, sucumbiram após terem largamente neutralizado muito do perigo provocado por uma das equipas de futebol mais fortes do Mundo, no Vicente Calderón em Madrid. A vitória caseira diante do Astana era mais do que esperada, e a exibição na capital espanhola perante o poderoso Atlético pode ter valido à equipa de Rui Vitória a conquista de uma quantidade de pontos suficiente para que a qualificação para os oitavos-de-final seja uma muito possível realidade. Pese embora a sua inconsistência exibicional, o melhor Benfica é um colectivo que se destaca sobretudo pela velocidade das suas transições meio-campo-ataque, pela eficácia e perigo dos seus contra-ataques, e pela capacidade de assumir sem receio a iniciativa de jogo independentemente do adversário que tem pela frente, tendo todavia que corrigir urgentemente problemas de vulnerabilidade defensiva, em particular nas laterais. Vulnerabilidade defensiva essa que se apresenta mais evidente no Galatasaray e no Astana, sendo particularmente preocupante o caos em que se transforma a organização colectiva defensiva dos turcos, principalmente em situações de contra-ataque adversários. Se, posto isto, são expectáveis bons resultados benfiquistas diante de turcos e cazaques, a recepção ao Atlético de Madrid constituirá mais um excelente teste à eficácia defensiva de uma equipa que tem de aumentar, sob pena do respectivo afastamento dos «encarnados» da luta por objectivos desportivos relevantes para esta época.

No Grupo G, o FC Porto vai-se assumindo como o representante nacional mais competitivo na Liga dos Campeões, isto apesar de não conquistar o título de campeão nacional há duas épocas consecutivas. Lopetegui comanda um colectivo fortíssimo, com um modelo de jogo muito assente na procura e manutenção sistemática da posse de bola, ao serviço de um ataque organizado em que pacientemente, mas com intensidade, os portistas procuram criar ou explorar espaços ou erros de posicionamento para criar oportunidades de perigo. A nível defensivo, a intensa pressão exercida pelo FC Porto sobre os adversários ainda no meio-campo destes últimos provoca um aperto que condiciona negativamente a capacidade de organização e desenvolvimento do processo ofensivo dessas mesmas equipas, o que se vai traduzindo nos resultados que a equipa vai obtendo, e que em princípio manterá, apesar de se avizinhar uma segunda volta com duas deslocações sempre difíceis a Israel e Londres. Na primeira volta, o aspecto menos positivo da prestação portista acaba por ser um empate ao cair do pano no jogo em Kiev, quando tudo parecia conjugar-se para que os portugueses saíssem com uma importantíssima vitória da capital ucraniana. No Dragão, as vitórias contra Chelsea (2-1) e MaccabiTel-Aviv (2-0) confirmam a superioridade dos portistas num grupo em que parecem ser o melhor colectivo a todos os níveis, com processos de jogo de maior qualidade do que os evidenciados pelo Chelsea (relativa falta de fluidez nas transições ofensivas do meio-campo para o ataque, problemas defensivos nas laterais e dificuldade na neutralização de perigo criado por atacantes posicionalmente mais móveis) e Dínamo de Kiev (pouca qualidade técnica dos elementos de sectores mais recuados, e organização colectiva ofensiva muito dependente de iniciativas individuais, sendo o envolvimento colectivo pobre no ataque, apesar da qualidade de jogadores como Derlis Gonzalez, Júnior Moraes, Gusev ou Miguel Veloso, nos passes em profundidade e bolas paradas ofensivas).

Na Liga Europa, o Braga é claramente a equipa portuguesa em alta, mostrando na Europa do futebol uma consistência defensiva tremenda, mas acima de tudo um contra-ataque em que não só a equipa consegue colocar rapidamente muitos homens na frente de ataque (destacar neste particular jogadores como Rafa, Alan ou Wilson Eduardo), como tem em Ahmed Hassan um finalizador que normalmente aproveita bem as oportunidades de finalização de que dispõe. Este estilo de jogo, perante equipas medianas como o Groningen ou o SlovanLiberec, e mesmo perante um Marselha muito inconsistente defensivamente, podem valer à equipa de Paulo Fonseca um surpreendente primeiro lugar final do grupo, mas mais importante ainda, a valorização desportiva de um plantel muito jovem, com Alan (36 anos) e Luiz Carlos (30 anos) a serem os únicos “trintões” do plantel. Porém, a partir dos 16 avos-de-final exigir-se-á ao Braga não apenas uma maior capacidade de recuperação de bolas a meio-campo e uma acrescida competência na redução significativa de espaços defensivos, em particular, nesta zona do terreno (verifica-se em alguns jogos que os adversários do Braga têm por vezes mais espaço do que o recomendável para organizar o seu processo ofensivo a partir do meio-campo), como a aquisição de um maior número de soluções ofensivas a explorar quando a equipa desenvolve os seus contra-ataques – é que por muita qualidade técnica e velocidade no transporte de bola que tenha Rafa, é importante que a equipa explore de forma mais sistemática outras soluções, sob pena de ser facilmente neutralizada por adversários de outro patamar competitivo. Será em torno destas melhorias (que podem ocorrer ou não) que os bracarenses poderão definir as suas aspirações europeias, que tanto podem satisfazer-se com a simples passagem aos 16 avos-de-final, como podem passar por chegar mais para lá dessa fase.

Quem pode aspirar de forma realista à conquista da Liga Europa é o Sporting, muito embora a equipa de Jorge Jesus tenha acabado a terceira jornada fora dos lugares de apuramento. Perante um Spartak de Moscovo muito forte no contra-ataque rápido, com homens muito competentes no meio-campo como Samedov, Manuel Fernandes ou Kolomeytsev a servir finalizadores de qualidade razoável como Maicon ou OumarNiasse, e frente a um Besiktas com frágil sentido de jogo colectivo mas com individualidades que podem perfeitamente fazer a diferença (Quaresma ou MarioGomez), o Sporting parece ser capaz de, na segunda volta do grupo, fazer valer a sua maior competência ao nível do seu modelo de jogo, a meu ver melhor trabalhado nos seus princípios, muito embora revele algumas lacunas posicionais ao nível da passagem desde o processo ofensivo para o defensivo, após perda da posse de bola.

A vitória na Suíça deu à interessante equipa do Belenenses uma enorme esperança na qualificação para a fase a eliminar, que seria um feito extraordinário para os homens do Restelo, não apenas ao nível do encaixe financeiro que pode ser feito, como também da valorização de um plantel com vários jovens valores que mostram adaptar-se muito bem a um estilo de jogo de uma equipa que procura lutar pela iniciativa do jogo, que sabe organizar o seu processo ofensivo devido à competência técnico-táctica dos seus jogadores, e que não se coíbe de iniciar o seu processo defensivo no meio-campo dos adversários. Muitos são os jovens que, mesmo na Liga Portuguesa, devem ser seguidos com atenção, principalmente pelo facto de alguns, ao evidenciarem capacidade de se adaptarem ao estilo de jogo belenense que acima referi, poderem dar indícios de que podem ser um bom investimento para equipas de maior projecção internacional ou de campeonatos mais competitivos do que o nosso, onde a adaptação a um estilo de jogo que requeira uma maior intensidade nos processos ofensivo e defensivo é condição fundamental para eventuais progressões na carreira desportiva destes atletas. Neste contexto, homens como João Amorim, André Geraldes, Filipe Ferreira, Rúben Pinto, André Sousa, Tiago Silva, Miguel Rosa, Sturgeon ou Kucasão homens a ter em consideração na construção de equipas competitivas. Não esquecer um defesa-central que muito aprecio, o Mário Palmeira, jogador formado no Diogo Cão, e que infelizmente ainda não foi utilizado esta temporada. Quanto ao grupo, das cinco equipas portuguesas presentes neste momento nas competições europeias, o Belenenses é a única que a meu ver ficará pelo caminho em Dezembro, muito por culpa de um sorteio azarado que a colocou perante dois adversários de um nível competitivo bastante superior, como são a Fiorentina e o Basileia. Por muito notável que tenha sido a exibição na Suíça, na qual a equipa criou supremacia em campo quando assumiu a iniciativa do jogo, e soube revelar capacidade de sofrimento e de neutralização das tentativas de criação de perigo por parte dos suíços na segunda parte, os azuis do Restelo terão que surpreender, e muito, para evitar a eliminação na fase de grupos, muito embora o jogo de Basileia me tenha deixado na expectativa de saber até que ponto o Belenenses será capaz de evidenciar, e até de melhorar, o nível competitivo que evidenciou na 3ª jornada do Grupo I.

Que as próximas três jornadas europeias se constituam como campanhas recheadas de sucesso e agradáveis sucessos para as nossas equipas, apelando eu para que todos apoiemos sobretudo os clubes nossos compatriotas, independentemente das rivalidades internas que existem.

 Gonçalo Novais

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