O futebol Holandês: Um possível problema do qual praticamente não se fala

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Por: Gonçalo Novais

O título diz muita coisa sobre o tema que opto por abordar esta semana, pois trata-se de uma temática que, além de provavelmente ser pouco importante para os portugueses em geral e os leitores deste jornal em particular, se debruça sobre o estado actual vivido pelo futebol holandês, a braços com a muito séria possibilidade de se ver incrivelmente afastado do primeiro Campeonato da Europa a 24 nações, o que torna a possibilidade da ausência dos holandeses do certame ainda mais surpreendente.

No entanto, uma das coisas que pode tornar o meu espaço de opinião minimamente digno de ser lido pode ser a abordagem de temas inovadores, dos quais ou ninguém fala ou apenas falarão após a consumação da eventual eliminação da Holanda ainda na fase de qualificação para o Europeu. E eu pretendo jogar em antecipação, até para não cair numa situação de falar sobre um tema que depois se torne muito “batido” e bem menos interessante.

Falo da Holanda porque acompanho com muita atenção o campeonato holandês desde o seu início, e vou entendendo com uma profundidade cada vez maior os modelos de jogo das várias equipas da Eredivisie, bem como os princípios e sub-princípios desses mesmos modelos.

E com efeito, a observação sistemática das diversas equipas, às quais adicionei o visionamento de todos os jogos da fase de apuramento para o Euro realizados pela Holanda, permitiu-me, parece-me, identificar dois traços marcantes do comportamento das equipas e da selecção holandesa que talvez ajudem a perceber o porquê da crise que o mesmo vive, particularmente no que se refere à selecção.

O primeiro traço marcante é a deficiente qualidade dos processos defensivos das equipas holandesas e da selecção principal. Os problemas neste âmbito são vários, destacando-se a falta de agressividade e intensidade ao nível das marcações individuais e zonais, a concessão de excessivo espaço de penetração aos adversários, e a não muito alta capacidade de neutralizar iniciativas individuais de atacantes ou os ataques organizados/contra-ataques das equipas adversárias. E a isto pode-se acrescentar o défice de participação colectiva das equipas e da selecção no processo defensivo. Olhando, por exemplo, para a selecção, e destacando os mais recentes jogos diante da Islândia e da Turquia, ambos terminados com derrota holandesa, foram notórios os problemas de qualidade da selecção não apenas ao nível das facilidades que concediam aos adversários em termos de penetração e aproveitamento de espaços, como também ao nível da participação colectiva no processo defensivo, com o habitual quarteto defensivo da Holanda a assumir completamente a execução das tarefas defensivas, sem ajuda relevante dos sectores mais adiantados da equipa. Este problema verifica-se exactamente da mesma forma mesmo nos clubes mais competitivos da Holanda, e que claramente se destacam de todos os restantes adversários, como são os casos do Ajax e do PSV Eindhoven. Um aspecto marcante no processo defensivo destes dois «grandes» do futebol holandês é, conforme acontece na selecção, o encargo significativo que o quarteto defensivo assume no respeitante às tarefas defensivas, comportamento esse que é mais significativo no Ajax, onde as sistemáticas investidas ofensivas dos médios Klaassen, Bazoer, Gudelj, Sinkgraven ou Serero promovem a abertura de um espaço entre o meio-campo e a defesa que pode ser eficazmente aproveitado pelos adversários após a recuperação de bola.

O segundo traço marcante é a aparente dificuldade de adaptação que a selecção holandesa e as equipas da Eredivisie sentem no processo ofensivo perante equipas com maior qualidade na organização funcional do seu processo defensivo. Passo a explicar bem melhor, saindo da terminologia técnica. Conforme foi referido no parágrafo anterior, observa-se sistematicamente uma deficiente qualidade no processo defensivo do futebol holandês em geral, quer ao nível da participação colectiva no mesmo, quer ao nível da própria qualidade dos princípios defensivos específicos de jogo postos em prática por estas equipas. O que se nota é que, como consequência disto, os processos ofensivos estão a ver a sua qualidade comprometida pela falta de qualidade dos processos defensivos que se lhes opõem. Ou seja, pese embora a indiscutível qualidade na preparação técnica dos jogadores da liga holandesa, muitos deles excelentes executantes em vários aspectos técnicos, o facto de não haver na oposição defesas bem preparadas do ponto de vista técnico-táctico para os neutralizar leva a que a própria intensidade dos processos ofensivos não tenha que ser tão significativa para superar as defesas adversárias. E isto traz os seus custos, nomeadamente quando chega a hora de jogar nas competições europeias, onde o nível competitivo das equipas tem que ser muito maior para alcançar bons resultados.

Mas nem tudo é mau no futebol holandês, longe disso! Com efeito, a qualidade técnica dos executantes da Eredivisie em vários aspectos é muito elevada, e a Holanda continua a ser um importante exportador de jogadores extremamente competentes para várias posições, que uma vez adaptados às exigências competitivas dos campeonatos para os quais emigram, se tornam jogadores valiosíssimos. Em Portugal, temos um caso bem conhecido do internacional holandês Martins Indi, jogador do FC Porto, fortíssimo na marcação e no jogo aéreo, que tem ainda uma velocidade razoável e técnica na condução de bola que lhe permite adaptar-se com sucesso à posição de lateral-esquerdo, ele que é um defesa-central de excelente nível.

E no campeonato holandês já se prepara uma nova e imensa geração de jovens excelentes jogadores, que em várias posições assegurarão um futuro promissor à Holanda, ainda que a “Laranja Mecânica” venha a ser uma importante ausente no Europeu de França: Cilessen, Van Rhijn, Tete, Veltman, Riedewald, Dijks, Van der Hoorn, Bazoer, Sinkgraven, Klaassen e El-Ghazi (todos do Ajax), Zoet, Brenet, Jeffrey Bruma, Willems, Propper, Hendrix, Maher, Locadia, Narsingh e Luuk de Jong (todos do PSV), eSven van Beek, Kongolo, Vejinovic ou MichielKramer (estes do Feyenoord), são várias das possíveis transferências mais sonantes do futuro do futebol europeu, assegurando conjuntamente com jogadores como DaleyBlind (Manchester United), Martins Indi (FC Porto), KarimRekik (Marselha), Van der Wiel (PSG), Stefan de Vrij (Lázio), Van Dijk (Celtic), Vurnon Anita (Newcastle), Wijnaldum (Newcastle), QuincyPromes (Spartak Moscovo), LeroyFer (QPR), JeremainLens (Sunderland), BasDost (Wolfsburgo) ou Memphis Depay (Manchester United), um futuro promissor a uma selecção e a um futebol que muito precisa de se tornar mais exigente do ponto de vista da intensidade de jogo e da qualidade dos seus processos defensivos por forma a rentabilizar a indiscutível competência técnica dos seus jogadores.

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Comentário

1 comentário

  1. justificações para esse aparente defice no plano defensivo? treinadores com diferentes abordagens? mal preparados? jogadores com pouca cultura tatica? o porque dessa mudança? com resultados tão negativos…qualidade tecnica dos jogadores pelos vistos não é…impreparação dos tecnicos não será::.
    parece me que a reflexão deverá ser mais profunda….

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