O caso José Mourinho-Eva Carneiro: Para lá da polémica

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Por: Gonçalo Novais

Como em qualquer situação de conflitualidade vivenciada num contexto profissional entre dois ou mais seres humanos, a prudência e a reflexão profunda na análise que é feita revelam-se fundamentais na capacidade de extrair, de uma dada situação, a compreensão do enquadramento contextual de uma determinada situação, da relação complexa entre os diversos fatores envolvidos na ocorrência dessa mesma situação, e das implicações e ensinamentos que essa situação propriamente dita pode trazer para análises futuras. Em síntese, dizer que a cena de conflito entre o treinador português José Mourinho e os elementos da equipa médica do Chelsea que assistiram Hazard no período de descontos da segunda parte requer, como em muitas outras situações e eventos complexos, nomeadamente os associados ao exercício de funções de liderança e gestão de recursos humanos, uma análise cujo detalhe e profundidade vá muito para além do “raspanete” atestado pelo treinador português aos seus colaboradores do “staff” médico.

De facto, a recente clivagem de José Mourinho com a sua colaboradora Eva Carneiro encerra em si mesma, uma situação em que, longe de se elogiar ou condenar a performance ou o comportamento de qualquer dos intervenientes, se torna pertinente refletir sobre alguns aspetos que de alguma forma estão relacionados com esta polémica de maiores proporções.

O primeiro tema é o do estilo de liderança e gestão de recursos humanos adotado pelo treinador no enquadramento do seu trabalho. O modelo teórico de Chelladurai, pela forma como tenta estabelecer uma interligação complexa entre os antecedentes dos comportamentos do líder, os comportamentos propriamente ditos e as consequências dos comportamentos emitidos, e até pela simplicidade explicativa do mesmo, torna-se suficiente para explicar este meu primeiro ponto. A premissa deste modelo teórico é a de que um comportamento de um líder deve ser entendido à luz dos antecedentes situacionais e contextuais que constituem o «pano de fundo» do seu trabalho, sendo que cada ação comportamental terá forçosamente determinadas consequências/implicações ao nível da satisfação e performance dos colaboradores/liderados. Ora, em termos de enquadramento contextual subjacente à função de treinador de desporto de alto rendimento, tal se caracteriza pela existência de uma forte pressão no sentido da obtenção de bons resultados desportivos e performances coletivas e individuais num curto espaço de tempo, pela exposição do treinador a exigências de cariz desportivo, social e mesmo político por vezes desajustadas às reais condições e possibilidades existentes, ou pela necessidade de atendimento a um grande número de variáveis condicionadoras da performance desportiva, devendo ter o treinador conhecimentos e competências que lhe permitam tomar decisões informadas em benefício da promoção do rendimento desportivo dos atletas ou da equipa que está a treinar. Posto isto, e dadas as exigências significativas que são colocadas aos treinadores por um lado, e à qualidade e valor milionário dos recursos humanos que têm à sua responsabilidade, pode-se considerar plausível a adoção de um estilo de liderança e gestão no qual, acima da democraticidade ou autoritarismo do mesmo, se dá muita atenção aos detalhes, que em paralelo com um trabalho de operacionalização de princípios de jogo, tentam prevenir ao máximo o surgimento ou o impacto de possíveis erros durante o processo de trabalho desportivo desenvolvido ao longo da temporada. A forma como José Mourinho reagiu, de forma bastante irada, com a entrada da equipa médica em campo, pode ser interpretada como uma atenção sistemática dada pelo treinador do Chelsea a detalhes que, passando despercebidos aos que estão de fora do processo, podem contudo determinar o sucesso ou insucesso da equipa em desafios específicos.

O segundo tema tem que ver com o entendimento do processo de desenvolvimento desportivo por parte de todos os envolvidos no mesmo. Com efeito, no desporto em geral, seja profissional seja amador, existindo um modelo estrutural e funcional organizativo quer do funcionamento da instituição desportiva como um «todo», quer do «jogar» particular da equipa ou equipas de futebol treinadas, tal modelo deve ser perfeitamente entendido, sistematizado e melhorado por cada um dos intervenientes do processo de desenvolvimento desportivo. Da mesma forma que não faz o mínimo sentido um treinador principal apresentar um plano estratégico de desenvolvimento desportivo e uma proposta de liderança para o clube sem o mínimo de conhecimento da história e características sociais, culturais, políticas e económicas da instituição desportiva que representa, também não faz lá muito sentido que os colaboradores do treinador, pelo simples facto de não terem formação académica de base na área do desporto, serem marginalizados do entendimento que devem necessariamente ter da evolução competitiva da equipa registada nos treinos e nos jogos. A fisioterapeuta ou a médica não entende o jogo? O psicólogo desportivo tem por vezes intervenções que não coincidem, em termos de objetivos das mesmas, com os valores que o treinador pretende trabalhar e inculcar na sua equipa? Serão estas coisas admissíveis, por exemplo, numa estrutura profissional, com aparentemente todas as condições e mais algumas para proceder a uma adequada formação dos seus profissionais? Será benéfica para as equipas e os clubes esta situação na qual o treinador, longe de ser um receptor de uma riqueza de informações oriundas de diversas áreas, se arroga ao direito de achar que ele é que percebe do assunto, achando tudo o que provenha de outras áreas desnecessário para um competente exercício das respetivas funções? Será que o aparente pouco entendimento do jogo por parte de Eva Carneiro, não será de certa forma uma consequência desta visão dualista que infelizmente ainda vai fazendo escola no trabalho desportivo, que conduz à marginalização de profissionais que, sendo devidamente integrados no entendimento do processo de trabalho que se está a desenvolver, poderiam potenciar enormemente a qualidade do trabalho desportivo realizado em diversas equipas, pelo menos nas estruturas profissionais?

O terceiro tema tem que ver com o conceito de responsabilidade. Paralelamente às exigências próprias da sua função, o treinador, enquanto líder, deve apresentar-se como o principal responsável pelo grupo e pelo processo desportivo que conduz. Além disso, num grupo multidisciplinar, havendo uma interligação complexa entre as diversas áreas do saber que fazem parte dos profissionais da estrutura, existem no entanto funções que especificamente são atribuídas a elementos específicos, em função da sua formação académica e profissional e competências pessoais. E a cada função correspondem imperativos éticos e deontológicos que superam em muitas situações a importância de um resultado num jogo específico. Imperativos esses que exigiam a Eva Carneiro e aos outros elementos do “staff” médico do clube a sua entrada imediata em campo para prestar os devidos cuidados médicos a Hazard, que decerto não estaria a fazer-se de lesionado a poucos minutos do fim, com a sua equipa empatada numa partida à qual era candidata à vitória, tão importante que a mesma seria após a perda da CommunityShield.

Em termos de exercício das suas funções, o “staff” médico cumpriu, portanto, o seu papel, que não deixou de ter como consequência deixar o Chelsea a jogar momentaneamente com 8 jogadores de campo na reta final da partida. Todavia, a equipa médica não terá sido seguramente responsável, nesse jogo, pelos problemas que os laterais Azpilicueta e Ivanovic tiveram para travar André Ayew ou Jefferson Montero. Nem seguramente terão sido responsáveis pela grande dificuldade que Fabregas ou Óscar tiveram para projetar a sua equipa para o ataque a partir do meio-campo ofensivo central, tendo visto grande parte das suas ações ofensivas neutralizadas pelo meio-campo do Swansea, com uma exibição globalmente positiva neste jogo. E já nem vou falar dos problemas ao nível da construção de jogadas de ataque e criação de situações de finalização expressos em grande parte do jogo contra o Arsenal, ou dos problemas defensivos sentidos pela equipa diante do Manchester City.

Se ao “staff” médico compete assegurar a assistência médica a atletas que dela necessitem, tentando colocar-se, na medida do possível, o bem-estar e a saúde do atleta acima de tudo o resto, ao treinador compete a colocação em prática de um estilo de liderança de um processo desportivo que, para além de uma gestão de recursos humanos feita em torno da operacionalização de um conjunto de princípios defensivos e ofensivos coletivos e individuais que constituem o modelo de jogo da equipa, permita o enriquecimento desse mesmo processo com conhecimentos oriundos de várias áreas do saber que sejam pertinentes à realização de um trabalho desportivo de qualidade. E nesse enquadramento há que ter em conta que existem princípios éticos e deontológicos subjacentes às funções desses profissionais que norteiam necessariamente as respetivas intervenções no terreno. Um treinador que aparente mostrar insensibilidade para com estas especificidades pode arriscar-se a “perder” colaboradores que muito podem enriquecer a qualidade do trabalho que faz.

 

 

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