João Lopes: “Não deixem morrer o futsal”

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Por: Fernando Parente

Aos 48 anos, João Lopes, sagra-se pela sétima vez campeão da 3ª Divisão de Veteranos da AF Porto pelo Bonfim FC. A festejar o seu heptacampeonato nas Caraíbas (para onde foi trabalhar em Dezembro último), podemos dizer que em Portugal deixou a lembrança de uma carreira com mais alegrias do que tristezas, com muitas mais vitórias do que derrotas e, acima de tudo, ganhou uma lista infinita de amigos, conquistada na modalidade que tanto adora.Aqui fica a lembrança da entrevista de um enorme jogador de futsal português, com o qual eu tive o privilégio e a honra de defrontar.

Amigo João Lopes, o teu nome e o do Futsal andam juntos desde o início da modalidade. Fazes parte da história do Futsal Português e pode-se dizer que são poucos os casos de atletas que, mesmo depois de tanta glória e troféus conquistados no Miramar e Freixieiro, ainda consegues “emprestar” a tua imensa qualidade e experiência na equipa de veteranos do Bonfim FC, pertencente à 3ª Divisão de Veteranos da AF Porto. Qual o segredo desta longevidade numa modalidade muito exigente como é o “nosso” Futsal?

Exigente, e também gostar muito da modalidade. Já jogo futsal há 27 anos, onde trêsforam dedicados ao futebol de salão. Como se costuma dizer, o bichinho nunca morre porque, tal como eu, há muitos jogadores que deixaram de jogar em alta competição. Por isso eu fui jogar para os veteranos do Freixieiro e no 1ºano fui logo campeão. Depois o freixo acabou com os veteranos, porque uma equipa de veteranos também dá despesas. Não havia patrocinador, depois fui para o Bonfim, até hoje.

 

Numa primeira fase da formação da tua carreira, a mesma foi iniciada no Futebol de 11, onde jogaste no Leça Futebol Clube. Como foi a tua transição para o Futsal, sendo que passaste toda a tua formação, de infantil a sénior a praticar futebol?

Foi um bocado complicado. Eu no futebol de 11 jogava a extremo esquerdo e, quando me convidaram para ir jogar futebol de salão no Santa Cruz, lembro-me de dizer para a pessoa que me foi convidar (que já faleceu, era o Jorge,o capitão da equipa, que foi graças a ele que eu triunfei no futsal português…, descansa em paz Jorge), será que eu me vou adaptar ao futebol salão? Ele disse que sim e que iria jogar para o Santa Cruz.

 

Sentiste que a mudança de modalidade, com a fusão que houve entre o Futebol de Salão e o Futsal na época 1996-97 vinha favorecer o aparecimento de uma nova realidade competitiva?

Sim, um bocado. Para começar, as regras, depois a bola…A bola do futebol salão era mais pequena, mais dura, as regras diferentes. Como joguei as duas modalidades posso dizer que gosto mais do futsal porque da mais espetáculo.

 

Apesar de já teres optado pelo Futsal na idade de sénior, pode-se dizer que foste mais um dos “produtos” saídos da cantera “made in” Miramar, a equipa “papa títulos” do Norte, antes da fusão. Era fácil jogar no Miramar nessa altura?

Quando fui convidado para jogar no Miramar, foi o grande presidente, José Leite, que me veio fazer o convite. Aceitei logo porque ele me disse que ia ter uma grande equipa. Nomes como: Carlos França, Paulo Tavares, Pita, Alex, Raúl Castro, Lelo, Gil, Márcio, Toti, entre outros. Do Santa Cruz para o Miramar segui eu, Raúl Castro, Jorge Pires, Novais.

Nesta altura, em que a modalidade já deu o “boom” que se esperava, não sentes um pouco a falta de referências na mesma? E quando menciono referências refiro-me a clubes, ex-treinadores e ex-atletas consagrados?

Nesta altura Portugal tem muitas referências. Como melhor jogador do mundo, o Ricardinho, o melhor matador, que faz muitos golos, Cardinal, Joel Queirós. E agora já há juventude a começar a triunfar no futsal português: Tiago Brito, Ricardo Fernandes, Paulinho, entre outros bons jogadores que existem nos outros clubes.

 

Jogaste em clubes emblemáticos que fizeram parte do nascimento do futsal em Portugal. Numa palavra define os mesmos: Miramar e Freixieiro. Podes também definir o clube onde iniciaste a tua carreira no Futsal e aquele que representas neste momento, Santa Cruz e o Bonfim FC?

Primeiro falo do Santa Cruz. Como foi uma mudança do futebol de 11 para o futebol de salão,fui com um bocado de medo de não me adaptar. Mas correu bem, era uma equipa recheada de muito valor, onde muitos delesapareceram no futsal. O Miramar foi sem dúvida alguma a equipa que me fez triunfar no futsal. Começo pelo Presidente José Leite, pois é graças a ele que o futsal está onde está agora. Aqui refiro-me, claro está, às equipas profissionais. Descansa em paz Zé, nunca serás esquecido. Sobre os jogadores que fui encontrar no Miramar na altura não havia melhor. O treinador era Artur Melo, depois o Jorge Ferreira, seguido do Beto Aranha. Este treinador brasileiro também veio modificar muito o futsal português, principalmentena forma de jogar de 4×0. Ele dizia-me sempre: João,aparece ao segundo pau que vais fazer golo. Grande família que tínhamos no Miramar, sem comentários. Quem passou por este clube sabe bem o que eu quero dizer. Sobre o Bonfim, nos veteranos. Fui convidado para jogar lá, no primeiro ano fui campeão. Depois convidei o Zé Luís, oMiguel Mota,o Pedro Ferreira,Pita,Alberto Carvalho, etc. O meu sonho era ter no Bonfim os jogadores que passaram no Miramar, mas aqueles que fizeram parte e os que ainda permanecem também têm muita qualidade.

Mencionei aqueles dois em primeiro, pelo fato de te dizerem muito, pois foi neles onde atingiste uma grande notoriedade no Futsal Nacional, que te levou a representar a nossa Seleção. Mas também, opinião pessoal, porque que te deve doer imenso, um pela extinção e outro pelos problemas que atravessa de alguns anos a esta parte. É verdade?

Sim, é verdade. Foi por eles que eu triunfei nos clubes por onde passei.

 

Travamos alguns duelos interessantes, eu nos Pioneiros, tu no Miramar, mais tarde, eu na AAUTAD e tu no Freixieiro. Que recordas desses embates, sendo que num deles venceste a Taça de Portugal?

Onde o Miramar ia jogar,era para ganhar sempre, porque tínhamos um plantel de luxo. Claro, a equipa do Miramar não se comparava com a equipa que tu jogavas, os Pioneiros. Vocês tinham uma boa equipa, mas as equipas que iam jogar contra o Miramar já entravam convictos que iam ser derrotados.

Apesar da fusão entre o Futebol de 5, Futebol de Salão e Futebol de Sala só ter sucedido na época 1996-97, foste internacional pela Seleção Portuguesa de Futsal em 1993. Recordo-me que grande ou a maior parte dessa Seleção eram jogadores do Norte. Existia nessa altura uma grande rivalidade entre o Norte e o Sul, mesmo a nível de Seleção?

Não existia rivalidade, porque no sul nessa altura jogava-se futebol de salão e futebol de 5.
O que acarretou em ti o fato de seres o capitão de todos nós dessa geração?
Eu não sei porque me escolheram na altura para ser o capitão. Possivelmente, foi pelo fato de eu ser jogador do Miramar. E é claro que fiquei feliz por ser capitão da primeira seleção de futsal português.

 

Dos muitos treinadores que tiveste, quais aqueles que consideras que te ajudaram a evoluir mais como jogador?

Todos me marcaram no futsal português, mas tenho que referir o Beto Aranha e o Joaquim Brito. Dois grandes treinadores, mas os outros: Evaristo, Artur Melo, Jorge Ferreira, também o são.

Foste campeão no Miramar, foste campeão no Freixieiro. Qual o título de campeão que mais “gozo” e prazer te deu ganhar?

Foi ganhar a primeira Taça de Portugal ao Sporting por 3-1. Esse dia nunca vou esquecer porque foi a primeira Taça de Portugal a nível nacional. Grande festa que fizemos depois do jogo com as nossas famílias. Os outros títulos também foram saborosos, pois quando se ganha um título é sempre bom.

Dois enormes nomes do nosso Futsal, duas grandes referências, uma no Dirigismo, outra na parte técnica e tática. O saudoso José Leite e Joaquim Brito. Consegues definir a importância que os mesmos tiveram no “nosso” futsal e na tua carreira?

O José Leite foi o homem que fez crescer o futsal português em todos os aspetos. O Joaquim Brito, grande treinador. Como fui adjunto dele sete anos, sei o que ele passava para estudar a equipa que o Freixo ia jogar, passava horas a ver vídeos, tudo ao pormenor. E nos treinos era igual.

Neste momento e, como já referi atrás, jogas no Bonfim FC. Sentes que é uma dádiva para muita gente continuar a ter o prazer de ver jogar, atletas consagrados do Futsal, como é o teu caso, do Pedro Ferreira, do Miguel Mota, do Zé Luís, do Alberto Carvalho, etc.?

Acho que sim. Jogar futsal é um espetáculo. Quando o Bonfim vai jogar depois das outras equipas, os jogadores e diretores dizem: o Bonfim, aos jogadores que tem, ainda jogava na 3ª divisão nacional. É um orgulho ouvir essas palavras, vindas dos mais novos.

E o futuro, que te diz? Desfrutar da modalidade como jogador, mais um, dois anos?

Neste momento não estou em Portugal. Vim em Dezembro para as Caraíbas trabalhar, mas se estivesse em Portugal iria jogava futsal ate não ter mais força.

Já foste, numa altura Treinador Adjunto do Joaquim Brito no Freixieiro. Sentes que após pendurares as sapatilhas como jogador, que podes seguir a tua carreira no Futsal, mas como Treinador? Ou não te vês como tal?

Na minha opinião, neste momento não gostava de ser treinador principal. Aprendi muito com o Joaquim Brito. Adoro a função de um adjunto, porque faz, também ele, um trabalho de treinador.

Tu, que fizeste parte desta grande modalidade que é o Futsal, como vês a extinção da 3ª Divisão Nacional e o Plano Estratégico da FPF em relação à mesma?

Não estou a par disso, prefiro não fazer comentários.

E o fato de agora, em relação aos Treinadores, onde os mesmos pagaram enormes quantias e fizeram sacrifícios para tirar os níveis dos cursos UEFA A, B ou C para poderem treinar as equipas e, agora têm que ter obrigatoriamente “15 horas” para a revalidação das licenças, tendo que participar em Fóruns, Ações de Formação, seja o que for, organizados pela FPF, pela ANTF em dia de trabalho? 

Eu acho que, se uma pessoa tira um curso de treinador, seja a, b ou c, não deveria tirar mais nada.

Amigo João Lopes, em primeiro quero dar-te os parabéns pela conquista do Heptacampeonato de Veteranos de Futsal pelo Bonfim FC. Segundo, deixaste ou tens algo a dizer que não tenhas referido nas questões anteriores?

Futsal. É a modalidade a seguir ao futebol com mais visibilidade no país. Não deixem morrer o futsal.

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