Ivo Campos: o aguiarense que veste de encarnado em Angola

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Perto de cumprir dois anos de experiência em Angola, o aguiarense Ivo Campos, preparador físico de 33 anos, fala do seu percurso, no estilo de vida africano e do seu último desafio, de águia ao peito, ao serviço do Sport Luanda e Benfica.

Ivo, como é que surgiu a oportunidade de ingressares no Futebol Angolano?
Surgiu em Maio do ano de 2012, a convite do Professor Bernardino Pedroto, para ingressar na sua equipa técnica no Grupo Desportivo Interclube de Luanda.

Iniciaste este trajeto com Bernardino Pedroto, agora ingressaste no Sport Luanda e Benfica ?
Verdade, iniciei com o Prof. Pedroto no Interclube na qual permaneci 2 épocas. Neste momento assumi novo projeto, no Sport Luanda e Benfica, a convite de outro grande e conceituado treinador, Angolano, o Prof. Zeca Amaral, bicampeão pelo Libolo e Ex-selecionador de Angola. Convite esse que me orgulha e muito.

E como foi a adaptação ao país?
Como em tudo numa vida de emigrante, nada é fácil, mas felizmente encontrei pessoas fantásticas, nestes dois clubes, que fazem para que a adaptação seja mais fácil e, quando os nossos projetos são reconhecidos e têm sucesso desportivo melhor ainda.
A adaptação rápida faz parte da nossa área, profissionais deste ramo já estão habituados a este tipo de situações. A verdade é que não é nada fácil deixar o nosso País, a nossa família, amigos e tudo um pouco, mas foi um risco que assumi correr e da qual me sinto um felizardo de o conseguir. Neste momento já vou para a minha 3ª época em Angola, já nem me considero num processo de adaptação mas sim de confirmação e, assim espero atingir.

Relativamente ao Futebol praticado no Girabola, é muito diferente do praticado em Portugal?
Sim é. Todos os países, campeonatos têm as suas características próprias e o Girabola não foge à regra. Basta constatar a rica cultura deste Continente e principalmente de Angola. Nunca poderia ser comparado equitativamente ao português só pelo simples facto meteorológico do continente, com isto leva-nos a estudar mais a questão física do que questões meramente técnico-táticas, tratando-se de um futebol de muito contacto físico, debaixo de elevadas temperaturas (atingindo mesmo neste momento de inicio de época os 35 – 40º com 90% humidade), por vezes jogando em altitude (1500 – 2000 metros), para além das distâncias percorridas entre províncias, o que nos leva a ponderar e muito o trabalho a realizar. Com isto para dizer que o trabalho físico é muito importante e não pode ser descurado, não esquecendo a vertente tática como é obvio.

O Girabola é um campeonato competitivo?
Trata-se de um campeonato muito competitivo, dinâmico e interessante, basta ver o historial de campeões de Angola, muda constantemente de vencedor, assim como vencedor da Taça de Angola. É um campeonato que está em franco desenvolvimento e nesse aspeto existe uma forte aposta Governamental em novas instalações (novos Estádios para o CAN 2010 realizado em Angola), regresso ao país de jogadores angolanos que estavam em campeonatos europeus competitivos assim como em jogadores estrangeiros de renome, como são o caso do Meyong (Ex-Braga), João Tomás (Ex- Rio Ave), Mateus (Ex-Nacional Madeira), Jefferson (Ex- Rio Ave), Nuno Silva (Ex-Olhanense), Oliveira (Ex-Leixões) e muitos outros casos. Luta-se e penso que Angola atingirá brevemente para um campeonato de renome como por exemplo o de Marrocos, Argélia, Tunísia ou África do Sul.

E a nível de adeptos nos jogos?
Das coisas mais fantásticas que já vi. São amantes fervorosos de todas as modalidades mas principalmente do futebol. Trata-se de um adepto apaixonado pelo clube, na qual transportam toda a sua alegria para os estádios de futebol, mas também muito exigentes em termos de resultados imediatos. Ao contrário de Portugal os estádio estão quase sempre com lotação esgotada, o que transmite mais adrenalina ao jogador e à modalidade.

Como é que são as condições de trabalho, desde as estruturas à própria organização dos clubes?
Francamente não são as melhores condições, como podemos encontrar na Europa. Existe um pouco de tudo, desde o fraco ao melhor encontrado em Portugal, não podemos esquecer que Angola atravessou muito recentemente graves problemas de guerra mas felizmente já ultrapassou essa situação e está em desenvolvimento constante e com uma rapidez grandiosa de mudar as condições na área do desporto, assim como a organização interna dos próprios clubes. Creio que no futebol as coisas necessitam urgentemente de melhorar nesse capitulo, e isso reflete-se no fraco desempenho da Seleção Nacional de Futebol (quer a nível mundial, quer mesmo Africano e vê-se no fraco desempenho da mesma na CAN ou apuramentos de Mundiais) até porque temos o exemplo de outras modalidades, como são o caso do Andebol e Basquetebol, em que Angola é “apenas” Campeã de África. Mas observo que os responsáveis estão atentos e sabem perfeitamente aonde estão esses handicaps organizativos e já fazem formações no estrangeiro para poderem colmatar essas deficiências.

O treinador português é bem visto neste campeonato?
Sem dúvida alguma. Todo o treinador que traga sabedoria ao campeonato Angolano é bem vindo e, o português nesse sentido tem provas dadas, como são a prova do Bernardino Pedroto (que é o treinador com mais títulos em Angola, mais concretamente 10) Dinis, Álvaro Magalhães ou António Caldas, todos eles com títulos no País. Neste momento encontram-se em Angola os portugueses António Caldas (Sagrada Esperança), Vaz Pinto (Recreativo da Caála), Daúto Faquirá (1º Agosto), assim como muitos outros profissionais em várias áreas como treinadores-adjuntos, preparadores físicos, fisioterapeutas ou mesmo diretores desportivos. Só prova que o português é bem visto.

Pensas continuar neste País durante mais alguns anos, ou se surgir uma proposta interessante em Portugal, regressarias?
Felizmente os convites de Portugal têm surgido, no entanto sinto-me muito feliz aqui e eu só consigo trabalhar e provar aquilo que sou onde sou feliz, logo não me vejo tão cedo a regressar a Portugal. Aqui tenho a oportunidade de andar a mostrar o meu trabalho em provas que em Portugal nunca tive, nem tão perto. Em Angola já tive a oportunidade de discutir títulos do Girabola, Taça de Angola (meia final em 2013) e CAF (1/4 final em 2013, equivalente à Liga Europa), além disso já tive a oportunidade de conhecer países fantásticos e lindos como a África do Sul, Sudão, Etiópia, Zimbabué, Namíbia ou Gabão, adoro estar em Angola, mas é obvio que como profissional desta área não paro com os meus sonhos e um deles é poder regressar à Europa para grandes campeonatos. A prova que gosto de Angola é mesmo a entrada do meu processo de naturalização em Angola, mas o tempo e sucesso do nosso trabalho dirá o futuro sem pressas.

Queres aproveitar para deixar alguma mensagem?
Um muito obrigado ao “nosso” Desportivo Transmontano, mais concretamente ao amigo Luís Roçadas, por acompanhar constantemente a carreira desportiva dos aguiarenses por esse mundo fora. Agradecer aos muitos amigos que me acompanham, dão força e incentivam, ajuda e muito a fortalecer a saudade que sinto por estar a 6000km de casa e apenas poder estar uma vez por ano perto deles. E sem dúvida à minha família, que tanto sofre pela distância, um forte abraço.

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