Hélio Roque: o futebolista que regressou a casa

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Entrevista conduzida por: Ivo Campos

helioSaudações caros aguiarenses, como já vos tinha dito anteriormente, além dos artigos de opinião e de reflexão, iria dar-vos situações diferentes do que tenho até ao momento escrito. Assim sendo, desta vez optei por vos dar a conhecer alguns jogadores que neste momento treino.

Para alguns poderá ser um desconhecido, mas quem gosta e acompanha o futebol assiduamente reconhecerá certamente o jogador Hélio Roque. Jogador que já passou por vários países e clubes. Começou a “brincadeira” da bola no Arrentela e no Amora, mas cedo o Scouting do Sport Lisboa e Benfica o contratou para o clube. No Sport Lisboa e Benfica fez o último degrau da formação (juniores), passando mais tarde para a equipa B, conseguindo mesmo chegar á equipa profissional do Benfica. Mais tarde, e ainda com contrato com o S.L.B. foi emprestado ao Vitória de Setúbal e ao Olivais e Moscavide, ficando por aqui a sua estadia por Portugal. Como muitos, Hélio procurou o melhor para a sua carreira profissional “aventurando-se” para o exterior, e aqui sim, jogou ao mais alto nível passando 7 época no campeonato Cipriota, onde chegou mesmo a jogar a Liga dos Campeões. Acabando o seu ciclo no Chipre, Hélio procurou novos projetos e foi aliciado para vir jogar para Angola, país que o viu nascer (Cidade de Huambo – antiga Nova Lisboa do tempo colonial) onde veio para representar o Progresso do Sambizanga em 2014. Rápido chamou a atenção dos ditos grandes, e aí, Hélio Roque escolheu o projeto do Sport Luanda e Benfica.

Hélio obrigado por aceitares o nosso convite. Hélio o que significa para ti o futebol?

Eu é que estou agradecido pelo convite. Para mim é tudo porque não cheguei a terminar a escola, que é muito importante e sem o futebol possivelmente seria mais difícil ser alguém na “vida”. Digo vida sinónimo de uma vida tranquila para mim e para a minha família e sem o futebol seria mais difícil certamente. Além disso acho que o futebol é a minha vocação.

 Achas que o futebol te ajudou a seres o humano que és hoje?

Claro que sim porque em todos os degraus de futebolista vais crescendo e aprendendo sempre novas coisas para o dia a dia, tanto coisas boas como más, e no meu caso cresci muito na altura em que fui para o Benfica no ano de júnior e que me ajudou muito , aprendi muito.

Consegues fazer uma comparação do futebol de quando começas-te com o de hoje?

Era um futebol totalmente diferente acho que se trabalhava mais, era jogo mais de equipa e muita posse , o de agora é mais rápido , muito técnico e direto.

Ainda hoje a dificuldade de os jovens futebolistas é muita para poderem treinar, quer devido às limitadas condições de trabalho dos clubes, quer devido à vertente económica dos seus pais. Passas-te por isso?

Eu passei por muito porque os meus pais trabalhavam e não me conseguiam levar aos treinos, então tive sempre muita dificuldade, mas tinha uma força de vontade muito grande. Saía da escola as 18:00, apanhava o autocarro, o comboio e depois outro autocarro e ainda andava a pé cerca de 20 minutos mas como era de noite ia sempre a correr porque tinha medo (risos) e depois a noite vinha sozinho para casa, chegava quase a 00:00 e levantava-me as 7:00 para ir para a escola. Era complicado e ainda tinha 2 amigos que jogavam comigo, viviam a cerca 2 minutos da minha casa e recusavam-se a me levar, era ridículo mas eu aceitei porque um dele jogava na minha posição (risos). Mas no penúltimo ano antes de ir para o Benfica em júnior, era para desistir porque era muito difícil conciliar escola / futebol.  A escola não estava a correr bem, então o meu treinador obrigava-me a ficar em casa e apenas ía aos sábados para jogar. Mais era uma coisa que eu não queria muito porque adorava treinar e estar com os meus amigos. Não era bom para quem queria a carreira de futebolista ter esta rotina. O futebol agora é muito diferente mas continua a ser uma luta diária para quem quer atingir o profissionalismo.

Hélio, és um jogador que já jogou em vários países, em várias provas internacionais, que sugestões podes fornecer aos jovens que se levantam às 5:00 sem tomarem o pequeno almoço , vão a pé durante kms para os treinos e mesmo assim acabam o dia a sorrirem? 

A importância da alimentação sem dúvida alguma. Alimentação é uma componente muito importante no futebol mas não consegues ver isso quando és jovem, só queres é treinar e jogar ,mas acho por volta dos 20, 21 anos vais sentir isso porque no meu caso não comia muito e na altura em que era júnior no Benfica tive que fazer um tratamento especial com alimentação. Começava logo às 6:00 um batido entre outros comprimidos durante o dia todo mas era tudo natural e ajudou-me muito no crescimento.

Como surgiu a hipótese de vires jogar para angola?

Alguns empresários amigos sabiam que eu era angolano, então estavam sempre a falar de angola e também porque a vertente financeira era aliciante. Estive 3 anos seguidos para vir mas um ano a minha mulher estava gravida e não podia viajar , no segundo rejeitei porque achava não ser o momento ideal para sair do Chipre, e no terceiro porque o meu clube no Chipre não aceitou a proposta que era em janeiro mas mais tarde (em junho) vim para o Progresso de Sambizanga.

Como é ser emigrante?

Eu não me sinto emigrante porque primeiro de tudo nasci cá, este é o meu país, mas de qualquer maneira eu vivo com a minha família no Chipre, tenho la casa, carros tudo, a minha mulher e Cipriota e a vida la é fantástica na minha opinião e é la que vou ficar!

Tens uma carreira bastante interessante, foste liderado por diversos treinadores. Sentes que evoluíste com todos eles? Quais os treinadores que te marcaram mais?

Claro que evolui porque cada treinador tem o seu feitio o seu método de trabalho e acabas sempre por aprender e evoluir muito mesmo, com alguns treinadores tive alguns problemas mas sempre respeitei e aprendi algo mas acho que sempre se aprende um bocado. Bastos Lopes e João Bastos no Benfica tive uma relação fantástica, foram 2 treinadores que marcaram muito quando era júnior, excelente treinadores e com um enorme coração , Eli Guttman também foi um treinador que aprendi muito era um treinador muito duro mas sabe muito de futebol agora é o selecionador de Israel e Ronald Koeman que é um treinador fantástico, escola holandesa diz tudo, mas cresci muito com Ronald Koeman.

Já passaste por dois continentes, qual aquele que achas que necessita de melhoramentos?

Acho difícil porque cada um tem a sua cultura e maneira de trabalhar mas na Europa é mais evoluído que em África, mas com o tempo acho que em África vai ficar mais evoluído em termos de infraestruturas , escolinhas de futebol , centros de estágio, embora em angola alguns clubes já estejam muito evoluídos tem tudo, como é o caso do Centro de Treino do Sport Luanda e Benfica.

Ser jogador de futebol é ser lutador diário. Hélio, acredito que já tenhas batalhado muito para chegares onde chegaste, mas já passaste por dificuldades com que não contavas?

Acho que todo o jogador já passou por dificuldades mas acho no futebol tens altos e baixos, é normal mas o que não contava foi no Chipre, quando houve uma crise em que fiquei 7 meses sem receber e não é fácil quando se tem família (tenho 2 filhos), mas graças a deus tudo acabou por correr bem.

Agora representas o SLB, o que podemos esperar do clube está época?

Temos expectativas altas porque temos neste momento um dos melhores planteis do Girabola , o melhor treinador do Girabola e as expectativas só podem ser grandes, mas temos de pensar jogo a jogo com o grupo unido que é o mais importante e trabalhar muito como temos vindo a fazer. Se continuarmos assim, só podemos obter ao que nos propusemos no inicio da época.

Esperas um dia atingir o patamar maior e chegares à Seleção Nacional de Angola?

Qualquer jogador de futebol sonha, uns mais que outros e eu não fujo a regra , só tenho que trabalhar e vamos ver se um dia terei esse prazer e oportunidade não é fácil mas veremos.

Qual o teu maior desejo para achares que atingiste todos os teus sonhos?

O meu desejo é acabar com muitos títulos que é normal mas também como pai e marido gostaria de terminar numa situação financeira muito boa para construir o futuro dos meus filhos em primeiro e também a minha vida depois do futebol.

O teu futuro, quando terminares a carreira de jogador de futebol, passará na mesma pelo futebol? 

O futebol é a minha vida, espero que sim é o que sei fazer melhor que todas as outras profissões , e espero ter algumas oportunidades logo se o vê o futuro o dirá.

Queres deixar uma mensagem aos leitores do ” desportivo transmontano”?

Para continuarem apoiar sempre o futebol e perceber que o futebol não é apenas o que as pessoas  vêm do treino , estádio ou televisão mas por detrás do futebol os jogadores são humanos. Abraço a todos os leitores do Desportivo Transmontano

 

 

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