FUTSAL da 2ª Divisão – O FUNDO DO POÇO

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Por: Fernando Parente

Se há 5 anos atrás escrevi num dos meus artigos que o Futsal em geral caminhava para o fundo do poço, desta vez apetece-me dizer que, se a Liga Sportzone estagnou em todo o seu ser, a 2ª Divisão, na sua 4ª época de novo modelo competitivo, que entrou em vigor em 2014-15, está mesmo a bater no fundo do poço. E quer-me parecer que há alguém que lhe interessa que bata mesmo…

Para quem pensava que alterar o modelo competitivo da 2 divisão nacional, extinguir a 3ª divisão, facilitar a subida das equipas campeãs distritais aos nacionais e, melhorar o nível competitivo da nossa modalidade iria dar certo, enganou-se redondamente.

Para quem ousou pensar que com as alterações mencionadas atrás iria acabar com a desistência de clubes, deixe-me só relembrá-lo: Casa do FC Porto de Mêda, Empregados do Comércio, Lamas Futsal, ADR Mata (prefere jogar na distrital AF Leiria), são alguns dos exemplos de equipas que, mesmo indo à fase de promoção, deixaram de fazer parte da nossa modalidade.

Muitos de nós, agentes da modalidade, temos a perfeita noção de que, vocês aí, sentados no poleiro, não querem saber para nada da 2ª divisão, nem dos campeonatos distritais. A cada ano que passa dificultam mais a vida aos clubes, pois não é com certas obrigações que vão conseguir os vossos intentos.

O sonho demagogo em insistir olhar para o “vizinho” do lado e querer uma Liga Sportzone e uma II Liga de Futsal profissional não passa mesmo disso, de um sonho vosso.

BASTA. Olhem para a nossa modalidade e principalmente para nos (2ª divisão, distritais e feminino) como devem olhar, não com os olhos de quem vê uma modalidade de pavilhão a ser mais espetacular que o futebol, o vosso filho barão. Não nos tratem como enteados. Para isso deixem-nos reativar algo que sempre se preocupou com a modalidade, deixem-nos reativar a Federação Portuguesa de Futsal. Queremos alguém que se importe connosco, que nos ouça, que compreenda as dificuldades que os clubes têm, e que nos ajude a ultrapassá-las.

Não queremos uma Federação distante. Uma Federação que coloca ano após ano, época após época, cada vez mais entraves aos clubes. Uma Federação que altera os regulamentos e não dá cavaco nenhum aos clubes. Pior, uma Federação que altera os regulamentos (embora o modelo competitivo seja o mesmo), e não ouve os clubes interessados.

Não queremos uma Federação que só olhe para as seleções nacionais, uma Federação que só olhe para a Liga Sportzone e escolha os dois clubes que devem subir e descer para tentar profissionalizar aquilo que não tem sido capazes.

Não queremos que olhem apenas para os números de praticantes. Esse foi e tem sido o vosso único triunfo.

Mais uma vez, BASTA.

Basta de nos atirarem areia para os olhos. Todos já vimos o grande erro que cometeram em extinguir a 3ª divisão. Vocês também já deram conta, mas custa voltar atrás numa decisão, não é? Nós sabemos que custa.

E então as dificuldades que os clubes sentem e têm para poder competir, isso não vos custa, pois não? Claro que não, vocês não se importam. Até que ponto as vossas alterações/obrigações nos vão levar? A querer que a 2ª divisão termine a médio longo prazo? Num espaço de 4/5 anos? Por este andar acredito muito que sim. Querem uma 2ª divisão apenas com 14 clubes, e com algum poder económico para vos satisfazer? Então assumam isso duma vez e não enganem ninguém.

Onde está o Plano Estratégico para o Futsal que deveria ter entrado em vigor em 2012? Pois é, não está em lado nenhum.

Querem exemplos concretos? Aqui vão alguns para vos reavivar a memória. E vamos aos mais recentes, que ainda estão fresquinhos. Época 2017-2018, 2ª divisão nacional. A composição das séries sai a um mês do início do campeonato. Porquê? Porque simplesmente essa mesma composição iria dar borrada, iria dar reações negativas como deu. Simplesmente inexplicável o que fizeram, ainda por cima quando apenas enviaram as composições das mesmas a um sábado de manhã…brincadeirinha meus amigos.

“REGULAMENTO Campeonato Nacional da II Divisão de Futsal

CAPÍTULO II Organização Técnica

Artigo 11.º Formato da Competição
1. O Campeonato Nacional da II Divisão de Futsal é constituído por 3 fases, sendo os Clubes agrupados por séries, de acordo com o estabelecido no Anexo I do presente Regulamento.
2. O agrupamento das séries é elaborado pela FPF é elaborado de acordo com a localização geográfica dos clubes, em conformidade com critério publicitado por Comunicado.”

Onde está a lógica da composição das séries este ano? Localização geográfica? Alguns não se importam de engolir essa denominação, outros, como eu, preferem que não nos gozem mais.

O Mogadouro, uma equipa da AF Bragança, salta da série A para a série B, onde na maioria são equipas da AF Porto?

Os Amigos Abeira Douro, que sempre competiram na série B, equipa que pertence à AF Vila Real, salta para a série C, composta por equipas das AF´s de Aveiro e Viseu, quando as da sua associação e associações mais perto militam na série A e B?

Porque será que o Póvoa Futsal e o Caxinas num ano ficaram as duas equipas na mesma série, no ano a seguir uma ficou na A e a outra saltou para a B e este ano estão as duas na B. Há localização geográfica em relação a estas duas equipas? Não, não há.

Meus amigos, não brinquem connosco. Vocês estão, com estas medidas, não a ir pela localização geográfica, como querem fazer crer, mas a levar os clubes em direção ao abismo. Contem os quilómetros de distância, vá lá, contem os quilómetros que as equipas têm de fazer. Parem e vejam as associações a que cada clube pertence e depois realmente tentem agir em conformidade.

Outro exemplo: as equipas da AF Madeira. Pela lógica devem permanecer nas séries onde coexistam equipas mais perto dos aeroportos. Se anos houve em que uma delas ficou na série mais a norte, com equipas do Porto, ultimamente têm ficado na série de Lisboa. Acontece que algumas equipas de Lisboa este ano ficaram na série F, juntamente com as do Algarve. E as equipas da Madeira ficaram na série E, onde, além de aterrarem em Lisboa, terão de realizar muitos mais quilómetros: vão para Óbidos, Fátima, Ponte de Sor, Alcobaça, Porto de Mós, etc, há lógica? Penso que não.

Mas ainda há mais amigos: porque será que agora os agentes desportivos (treinadores, dirigentes) têm de estar vestidos de cores completamente diferentes do clube da casa, do clube adversário e, vejam só, até dos árbitros. Lógica nenhuma ter que andar com não sei quantos pólos e casacos diferentes, só para inglês ver. Ridículo, simplesmente ridículo.

Como ridícula é a tão propalada lei dos cartões amarelos. No futsal, cartões amarelos dar castigo? Esta, sem dúvida, é para rir. Vocês querem tirar toda a intensidade de um jogo que é intenso?

Esta dos cartões amarelos, é quase idêntica à dos vermelhos nas fases regulares: és expulso, ficas apenas um jogo de fora, mas nas fases de decisão, com o mesmo cartão vermelho e dependendo do clube que representas, podes levar muitos mais.

Querem mais? Os policiamentos aos jogos. Digam-me a razão porque numa época um clube sem policiamento (mas com segurança privada), não pode jogar e perde o jogo por 0-3 e recentemente, numa situação idêntica (segurança do clube), o jogo é mandado repetir e não dá pena de derrota para quem prevaricou? E porque essa alteração não foi anunciada aos clubes com tempo? Teve de suceder para que muitos agentes desportivos e clubes tenham a noção de que a FPF abriu um grave precedente com a alteração do artigo 85º das leis de jogo, onde agora permite que um clube possa pelo menos num jogo não requisitar policiamento, que não o perde?

Paga a quota de arbitragem, certo. Paga as despesas ao adversário, certo. Mas não perde o jogo. E se esse ou esses clubes forem espertos, basta ter um jogo importante em que tenham jogadores nucleares lesionados ou castigados para o fazer…isto vai dar lenha para queimar.

Outra questão muito pertinente: renovação das cédulas de treinadores. Já se falou muito nisto, mas parece que todos têm receio de falar. Não faz sentido, e querem saber porquê? Porque apenas andamos a pagar para ter algo que já está pago e para encher os bolsos de quem não precisa. E para quê gastarmos dinheiro, se são sempre os mesmos que continuam no poleiro. No poleiro das seleções, no poleiro da liga Sportzone, no poleiro das formações.

Digam-me qual é a lógica de, neste momento, quem quiser tirar o 1º e 2º grau de Treinador, em vez de o fazer em alguns meses como anteriormente, tem no máximo entre dois a quatro anos para os tirar? É quase como a situação dos pagamentos aos tutores. Há associações que pagam, e depois há as outras, que até iam pagar, mas serve como desculpa o fato de a FPF não ter remetido nenhum comunicado para o fazerem. Mas continuar um curso de grau dois sem o número suficiente de treinadores para o realizar e ir contra o que está estipulado pela FPF, já se pode fazer, enfim.

Não nos deixam reativar a Federação Portuguesa de Futsal, pois não? Não lhes convém, não é?

Pode ser que os clubes abram os olhos de uma vez e criem a tão propalada Associação Nacional Clubes Futsal, vulgo ANC Futsal. Aí vocês vão mexer-se, aí vão querer preocupar-se com a nossa modalidade, mas aí já será uma realidade bem diferente para o nosso futsal, e já será tarde demais para vocês que nada fazem por ele.

Lembrem-se que neste momento não são só equipas da 2ª divisão nacional que desistem. Já começam equipas e com historial a prescindir de entrar no feminino. Temos o mais recente exemplo dos Restauradores Avintenses.

E qualquer dia vamos ter a série Açores a revoltar-se, pois não faz sentido a FPF continuar a gozar e abusar das boas intenções que os agentes desportivos nos Açores tem. Parem também de lhes atirar com areia para os olhos. A Série Açores funciona para as equipas que a constituem quase como a distrital que já tinham antes, só e apenas uma equipa em 8, neste caso, terá o direito de jogar na fase de promoção contra as restantes. Acham que isso dá evolução para as equipas açoreanas? Nem existe evolução, nem competitividade que permita a uma dessas equipas poder lutar pela promoção.

Outra situação caricata é o calendário da 2ª divisão. Apesar de terminar 1 mês e meio do que era usual, existem datas que devem ser respeitadas e não haver jogos. Qual o fundamento de se jogar no fim de semana da Páscoa? E no dia dos fiéis (1 de novembro)? E já agora, porque é que este ano jogamos a 30 de dezembro, faz sentido? São alturas de estar em família, não de jogar.

Mas a grande questão é o despesismo latente inerente à própria competição.

Qual a lógica das despesas disciplinares? Porque é que um clube, quando é castigado, paga mais de custas processuais do que da multa inerente ao castigo efetuado? Já para não falar da nova moda dos cartões: atletas e dirigentes são realizados via associação, têm um preço. Já o dos treinadores tem de ser via ANTF e paga-se um balúrdio por um misero cartão.

Infelizmente as despesas são cada vez maiores para os clubes. O futsal está a enveredar por um caminho onde só os mais fortes economicamente vão poder competir.

Mas isto vai apenas subsistir até os clubes irem para as assembleias gerais, irem para as associações fazer barulho, fazer-se ouvir, e até para os fóruns da modalidade. Tem, de uma vez por todas, de se acabar com a injustiça e imoralidade que todos os anos são cometidas contra os clubes. Somos pequenos, mas somos honrados. E nunca se esqueçam, os que ajudaram a fazer do futsal aquilo que ele é hoje, estão na sua maior parte nas divisões secundárias pois não há espaço para todos na liga, mas esses estão fartos de lutar pelo amor que têm pela modalidade, agora têm de lutar pela verdade desportiva.

Mas haverá muito mais para falar: competições distritais, obrigatoriedade de um clube ter “x” equipas de formação para poder competir num nível superior (sem que alguém faça o seu trabalho associação a associação para ter a noção da realidade dos clubes), convocatórias das seleções, observação de jogos, enfim, uma panóplia do que está mal e deve mudar.

Antes que seja tarde demais e eles matem a nossa modalidade, vamos unir-nos e lutar por ela. Fomos nós que a construímos, fomos nós que a elevamos a um patamar mais elevado, fomos nós…

Por último, deixem-me acrescentar o seguinte: se os responsáveis pela origem e promoção (pelo desporto anárquico e indígena), pelos maus serviços desportivos e sociais, não forem sancionados e excluídos pelas respetivas estruturas, a sociedade encarregar-se-á de eliminar esses parasitas desportivos e sociais, seja qual for a sua cor, a sua raça ou religião.

A utilidade pública deve ser retirada a todas as instituições que não cumprem e respeitem a governação.

Legislar por conveniência de contexto é próprio de uma sociedade selvagem que não se respeita.

Há que ter a noção que o centro do desporto é o praticante/atleta/jogador.

Há que ganhar consciência dos danos que o mau desporto e o mau dirigismo causam ao desporto e à sociedade.

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