A entrevista desta traz-nos um técnico conceituado, de seu nome Pedro Miguel Marques de Azevedo, um apaixonado pelo Futsal e pelo extinto Miramar, que agora brilha na orientação do Futebol de Praia do Leixões, sua terra natal. Um Treinador que não renega a sua génese e, que na sua humildade agradece a nomes da modalidade que ajudaram a mesma a crescer e a tornar-se aquilo que é hoje, embora alguns estejam afastados de momento. Mais uma entrevista intimista que relata a experiência de quem foi um dos primeiros técnicos a emigrar do nosso futsal e, que atualmente não consegue ver jogos da modalidade, pelo receio de uma recaída. Do Alto do Avilhó no feminino ao eterno e grande Miramar, Pedro Azevedo passeia a sua classe, qualidade e competência nas areias nacionais.

Amigo Pedro Azevedo,uma questão que se impõe: o que faz um homem do futsal no futebol de praia?
Bom dia Fernando, antes de mais agradeço o teu convite para a entrevista.
Eu adoro Futsal mas em determinado momento da minha vida tornou-se impossível conciliar as exigências do Futsal com a minha vida profissional, entretanto, através do empresário de futebol Tiago Calisto tive o convite para abraçar o Projeto do Leixões Futebol Praia. Tendo em conta a minha paixão pelo Clube da minha cidade que também já tive o prazer de representar enquanto atleta nas camadas jovens e, sabendo que a minha disponibilidade seria maior para um projeto de Verão decidi aceitar juntamente com o Nelson Quintas e o José Fernandes que também vieram do Futsal. O Leixões assumiu a nossa Formação junto da F.P.F. e já lá vão 3 anos de trabalho e neste momento o Futebol de Praia é para mim também uma grande Paixão.

Podes contar aos leitores do Desportivo Transmontano como iniciaste a tua carreira desportiva como treinador de futsal?
Eu iniciei a minha carreira de Treinador de Futsal juntamente com o André Teixeira, como Treinador adjunto no Alto de Avilhó, onde tive a oportunidade de aprender bastante e onde conseguimos obter excelentes resultados desportivos num clube fantástico feito de pessoas sérias e humildes.

Formação, feminino ou seniores masculinos, qual das três vertentes que mais gozo te deu treinar?
Sinceramente a minha preferência passa pelos Seniores Masculinos, no entanto não posso esquecer onde comecei (Seniores Femininos), e a Formação onde tive a oportunidade de trabalhar e aprender muito no Miramar com o Brasileiro Zego, que é sem dúvida um dos melhores treinadores do mundo, sendo na altura Portugal o 18º país onde trabalhou.

E na qual sentiste que a tua mensagem passou da melhor forma?
Eu acho que quando um treinador trabalha com paixão e tem atrás de si um clube que dá todas as condições de trabalho e uma excelente equipa técnica ao seu lado, a mensagem passa independentemente do escalão ou divisão em que trabalha.
Eu considero-me um privilegiado por ter sempre ao longo dos anos grandes treinadores nas minhas equipas técnicas.

És da opinião de que todos os treinadores de futsal devem passar pela formação, nem que seja num projeto a curto prazo?
Sou totalmente dessa opinião. Defendo inclusivamente que na formação deveriam estar os melhores treinadores para o futuro da modalidade estar garantido.
Por exemplo: eu, pelo fato de ter passado por todos os escalões de formação do Miramar, tive a oportunidade de trabalhar com excelentes jogadores, de aprender com todas as faixas etárias e tirar grandes dividendos disso quando cheguei aos seniores.

Passaste por alguns clubes pertencentes à AFPorto, mas sempre a representá-los nos nacionais (tirando o feminino e a formação). Agora de fora, sentes que a modalidade no distrito do Porto tem evoluído na qualidade?
Fernando, acho que as coisas estão a evoluir muito lentamente e, a minha opinião é muito simples. Acho que temos qualidade nos atletas e nos técnicos, mas faltam meios à grande maioria dos clubes para que o resultado final possa ser muito melhor.

Passaste também pelos três escalões nacionais. Qual a tua opinião em relação ao término da 3ª divisão nacional?
Concordo com as alterações efetuadas, uma vez que estavam clubes nos campeonatos nacionais sem condições para responder as exigências da competição. Por outro lado, desta forma conseguimos ter maior competitividade a nível nacional e distrital e isso é ótimo para a modalidade.

E no feminino, achas que o plano estratégico da FPF está a resultar?
Sim, claramente que sim. Com o aparecimento do Campeonato Nacional Feminino, o escalão deu o “Salto” que precisava para ser reconhecido a nível nacional e deixar de ser o “parente pobre” da modalidade. Relativamente a este escalão, acho que temos muitas atletas de grande qualidade e a prova disso é que cada vez mais atletas emigram e são requisitadas por outros campeonatos europeus e, obviamente a nossa seleção nacional só tem a ganhar com isso.

Em várias épocas chegaste a treinar 2 equipas/seleções no mesmo ano. O Futsal sempre foi compatível com o teu trabalho?
A minha vida profissional sempre foi bastante exigente, por isso nunca foi fácil a conciliação mas com esforço e dedicação sempre fui conseguindo até ao momento em que tive de optar entre a minha progressão na carreira profissional e o Futsal e, nesse momento percebi que não seria possível continuar. Felizmente, neste momento a minha vida profissional não me exige tantas viagens para fora do país mas já estou apaixonado pelo Futebol de Praia e apesar de alguns convites confesso que não será fácil o meu regresso.

E a nível de estratégia e planos de treino. Não se tornava complicado treinar no mesmo ano, seniores masculinos ou seniores femininos e seleções distritais, na qual terias que lidar com jogadores totalmente distintos uns dos outros e cada qual com as estratégias dos seus clubes?
Sinceramente não. Nas Seleções trabalhava sobre as orientações do Coordenador Artur Melo, que tinha tudo extremamente bem organizado e dava grande suporte a todos os técnicos, o que facilitava em grande escala o nosso trabalho. Por outro lado, nos clubes por onde passei sempre fui acompanhado de excelentes colegas de equipa técnica que, para além da sua qualidade profissional, sempre foram pessoas de grande caráter e qualidade profissional. Não posso esquecer os que me acompanharam nesta caminhada… Fernando Simões, Albino Martins, António Pena, Carlos Rocha, Hugo Sequeira, Manuel Pacheco, Manuel Almeida, José Fernandes e Nelson Quintas. Eles foram sempre o meu grande suporte e eu agradeço-lhes muito por isso.

Vamos falar do Miramar. Sentiste, na altura em que treinaste a equipa sénior desse grande clube, que o mesmo seria o teu bilhete de entrada com reconhecimento na modalidade?
Eu, quando tive o convite para treinar a equipa principal do Miramar senti que estava a cumprir um sonho, uma vez que quem me conhece sabe que o Miramar era o meu Clube no Futsal. Sabia que a estratégia do clube passava por lançar jovens da formação e eu estava perfeitamente à vontade, uma vez que tinha trabalhado com todos os escalões e isso facilitava e de que maneira o meu trabalho. Os resultados foram fantásticos, mas não posso deixar de agradecer a especial colaboração de um dos meus colegas de equipa técnica, Carlos Rocha, uma vez que eu conhecia todos os atletas muito bem, mas ele conhecia-os muito melhor e isso foi fundamental. Por outro lado sabia que a nossa equipa técnica tinha competência para efetuar um bom trabalho.

Ou sentiste que chegaste lá numa altura de decadência do mesmo?
Nos dois anos que treinei o Miramar nunca senti que o clube estava em decadência, uma vez que eramos muito respeitados em todo o país e sabíamos que todos olhavam para nós como um grande clube, mas as nossas dificuldades eram imensas. Mas nós nunca nos agarramos às coisas más, preferíamos treinar forte, acreditar no nosso trabalho e entrarmos em qualquer quadra deste país e jogar para ganhar. Tínhamos um grupo de trabalho onde cada um de nós dava tudo em prol da equipa e os resultados apareceram com naturalidade. Recordo-me que com uma equipa com uma media de idades de 21 anos conseguimos fazer 187 golos nos 23 jogos do campeonato nacional… os miúdos eram destemidos!

O que te apraz dizer da desistência desse clube que, penso eu,te marcou tanto?
Quando saí do Miramar sabia perfeitamente que seria uma questão de tempo isso acontecer e,essa foi uma das principais razões da minha saída porque quando esse dia chegasse eu não queria estar lá. Isto pode parecer egoísmo da minha parte, mas quem me conhece sabe que eu dava tudo por aquele emblema. É com muita tristeza que ainda hoje falo do extinto Miramar.

Alto do Avilhó (seniores feminino),Miramar (formação), GD Joarte, Sangemil, FC Transilvânia, Miramar, Cohaemato e Arsenal Parada (seniores masculinos). De todos eles qual o clube que ainda hoje pensas para ti e dizes (um dia vou lá voltar, adorei estar lá)?
Depois da extinção do Grande Miramar o meu clube no Futsal passou a ser o Arsenal de Parada, um clube que treinei durante dois anos, que cresceu a pulso feito de gente muito honesta e que deveria servir de exemplo para muitos clubes que se comprometem e depois não cumprem para com os atletas e técnicos. Gostaria de ver o Arsenal Clube de Parada um dia na 1ª divisão…, todos ali dentro merecem o melhor.

Foste, penso eu, um dos primeiros Treinadores de futsal português, a ter uma experiência na Roménia, quando foste convidado a treinar o FC Transilvânia. A realidade que encontraste lá era diferente daquela que supostamente, pensavas encontrar?
O Artur Melo e eu como seu adjunto fomos os primeiros treinadores Portugueses a emigrar. A realidade que encontramos foi um Futsal totalmente profissional em 90% dos clubes. Todos com condições de trabalho fantásticas e com os pavilhões sempre repletos de público e transmissões televisivas de vários jogos por semana.
No F.C. Transilvânia, em casa, tínhamos sempre 5.000 pessoas a assistir aos nossos jogos. Recordo-me perfeitamente o dia em que chegamos ao aeroporto de Bucareste e tínhamos vários canais de televisão à nossa espera. Sinceramente não esperava uma envolvência tão grande à volta da modalidade… Foi uma experiência fantástica, e agradeço muito ao Artur Melo por ter confiado em mim para o assessorar.

O que faltou nessa etapa para que o projeto fosse apenas de um ano?
Na altura eu fui só por um ano uma vez que consegui uma licença sem vencimento para poder viver uma outra realidade que eu sabia que me iria fazer crescer como treinador e como homem. Relativamente ao Artur Melo a ideia seria ele dar continuidade ao projeto, no entanto preferiu seguir para a Hungria para a equipa campeã daquele país onde lhe foram apresentadas condições ainda melhores do que as que tinha na Roménia.

Trabalhaste com alguns treinadores antes de te emancipares e decidires ser treinador principal. Foi fácil o risco da decisão em deixares de ser adjunto parapassar a ser o líder?
Antes de optar por trabalhar como treinador principal, já tinha a experiencia de 3 anos com as seleções femininas como Selecionador, por isso sabia bem o que me esperava e sinceramente sentia-me preparado e com o perfil certo para ser treinador principal. Tive a sorte de enquanto adjunto ter trabalhado com técnicos muito conceituados, que me proporcionaram uma grande aprendizagem, como são os casos do André Teixeira, Artur Melo e Zego.

André Teixeira, Manuel Almeida, foram alguns dos treinadores que partilharam balneário contigo. O que ficou dessas antigas equipas técnicas?
Obviamente que, com o passar do tempo cada um vai seguindo as suas carreiras e não estou com a maioria deles de uma forma regular, no entanto, fico feliz ao ver que alguns que já foram meus colaboradores, hoje são treinadores de sucesso e tenho o sentimento de dever cumprido uma vez que sempre os incentivei a querer mais.
Fica essencialmente o Respeito, a Amizade e o meu sincero Reconhecimento a todos eles sem exceção pelo muito que me ajudaram e pela Lealdade que sempre me mostraram. Da minha parte, como eles sabem, desejo-lhes sempre o melhor nas suas carreiras e sempre que vejo um deles ao mais alto nível fico muito feliz.
Foi com muita alegria que também vi alguns deles em Espinho a apoiar o Leixões na fase final do campeonato nacional de Futebol Praia.

Atualmente, treinas o Futebol de Praia do Leixões. Sentes que a equipa ao longo deste teu 3º ano de liderança, já é mais uma equipa à tua imagem?
Sem dúvida! Eu como treinador aceito que todos possamos falhar enquanto jogadores ou treinadores, mas não admito que falhemos como Homense, hoje sei que a nossa equipa é extremamente competitiva, séria, ambiciosa e, que ao representar uma cidade de pescadores e com adeptos muito fervorosos sabe que tem a obrigação de jogar sempre nos limites. Os Nossos adeptos tratam-nos por “Bravos da Areia” o que muito nos orgulha, porque significa que é exatamente tudo isto que conseguimos passar para eles.

Qual o segredo para o sucesso que tens numa equipa maioritariamente composta por jogadores da terra?
Quando nasces e vives numa cidade de Pescadores sabes a dificuldade por que passam os homens que vão ao Mar e as suas Famílias. O nosso clube representa todos aqueles que sofrem e enfrentam todos os dias as grandes adversidades no Mar, por isso, para representar o Leixões não basta jogar bem a bola, tens de ter algo mais e felizmente temos um grupo que apesar de apresentar vários jovens de 17,18 e 20 anos, misturados de outros atletas com bastante experiência consegue superar-se em campo e para nós não há adversários invencíveis. A prova disso foi o que os atletas mostraram na última fase final 8 do campeonato nacional. Entramos como uma das equipas menos cotadas e mostramos em campo todos os nossos atributos… União, Determinação, Ambição, Respeito pelos adversários e uma vontade enorme de dignificar a nossa cidade e os nossos Pescadores.

Sentes que o Futebol de Praia, depois dos êxitos conseguidos anos após anos com a nossa Seleção, que já tem o devido reconhecimento a nível dos campeonatos nacionais?
A nossa seleção, na minha opinião, tem feito um excelente trabalho e sinto que as pessoas da estrutura sentem que ainda é possível fazer mais e melhor e isso é ótimo.
O campeonato, desde que o Futebol de Praia está inserido na F.P.F. tem vindo a melhorar ano após ano e o grande exemplo disso foi a excelente organização da última fase final em Espinho. No próximo ano, pela primeira vez vai existir 1ª divisão (com as equipas que estiveram na ultima fase final), Segunda divisão e Taça de Portugal. O excelente trabalho da F.P.F. está à vista, mas acredito que as coisas não vão parar de evoluir, uma vez que o Futebol de Praia consegue colocar muito público nas bancadas com grande facilidade e isso é fundamental para o crescimento de qualquer modalidade.

Continuação no futebol de praia ou novo projeto?
Sempre que falo ou vejo Futsal o “ bichinho “ mexe, por isso evito de falar ou ver jogos ao vivo. Já acertamos com a direção do Leixões a nossa continuidade na próxima época, que será um grande desafio para nós, uma vez que vamos ter a oportunidade de continuar a jogar com os melhores na 1ª Divisão.Independentemente da questão do Futsal, queremos continuar a trabalhar na grande instituição que é o Leixões. Quanto ao Futsal, admito que não é fácil aparecer uma proposta que possibilite o nosso regresso às quadras, no entanto, não fechamos as portas a um possível regresso, desde que estejam reunidas todas as condições para que possamos desenvolver o nosso trabalho com qualidade, mas sinceramente, não estamos preocupados com isso.

Amigo Pedro Azevedo, deixaste algo por dizer que não tenha sido referido nas questões anteriores?
Resta-me apenas agradecer a tua lembrança em me convidar para esta entrevista que muito me surpreendeu, e enviar um grande abraço para todos os amantes do Futsal e do Futebol Praia do nosso país e um abraço especial para os adeptos Transmontamos que muito aprecio e admiro.

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