Fernando Parente entrevista João Pedro Ferreira

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O Desportivo Transmontano esta semana apresenta uma entrevista ímpar. João Pedro de Oliveira Mendes Ferreira, conhecido no mundo do futsal por João Pedro Ferreira, o único Diretor Desportivo em Portugal a ser consagrado Campeão Europeu de Clubes pelo SL Benfica. Nascido e criado na Cedofeita (Porto), formou-se no Futebol de 11, foi inicialmente, devido à loucura dos torneios de verão, Treinador de Futsal e terminou (até ver) como Diretor Desportivo, a sua ainda curta carreira na nossa modalidade. Mais uma entrevista a não perder, desta vez a um Dirigente com D grande.

Indo um pouco ao teu início de praticante. Como é que alguém formado no Futebol de 11 (Canidelo e Boavista), aparece de repente a treinar futsal, e logo uma equipa feminina (Biquinha)?

É verdade que toda a minha formação ao nível de praticante desportivo teve a ver com a prática do futebol de 11 mas desde cedo ganhei paixão pelo futsal se calhar como todos nós através dos torneios que se faziam na altura em todas as escolas.

No final do 12º ano quando entrei para a faculdade na área de desporto, optei por deixar a prática desportiva enquanto atleta e surgiu o convite por parte da Biquinha para poder treinar a sua equipa feminina, um clube histórico da Associação de Futebol do Porto, que me permitiu assim ingressar no mundo do Futsal e ter ganho cada vez mais gosto por este desporto.

Estiveste depois, ligado a um dos clubes, que em meu ver, foi uma das melhores escolas de aprendizagem de Futsal do país, o Coimbrões. Como viste o desaparecimento da equipa sénior, depois de tantos anos de êxito nos nacionais da modalidade?

Com grande tristeza. O Coimbrões era gerido na altura em que estava no clube pelo Eduardo Pinto, um histórico dirigente do nosso Futsal que muita falta nos faz. Talvez pelo cansaço acumulado de muitos anos ligado à modalidade, ele decidiu afastar-se e logo aí percebi que o futuro do Coimbrões no Futsal estava traçado. Não havia naquela altura pessoas capazes para dinamizar o Futsal ao nível que o Eduardo Pinto habitou os sócios do Coimbrões. É pena que históricos como o Coimbrões, Fundação Jorge Antunes, Freixieiro, Instituto D. João V, UTAD,… tenham desaparecido, pois traziam aquilo que muitas vezes é uma das grandes lacunas do futsal português: a falta de verdadeiros entusiastas da modalidade.

Conciliavas a posição de adjunto na equipa A do Coimbrões com a de Treinador principal na equipa Juniores. Acredito que essa seria a melhor maneira de fazer chegar os miúdos da formação à equipa principal, consoante a evolução dos mesmos, certo?

O Coimbrões à época já era um clube com um projeto bem delineado ao nível da formação, tendo até inovado a esse ponto com a criação de uma equipa B que, no ano em que saí para o Benfica iria ser treinado pelo Luís Alves e por mim. Este tipo de envolvimento a nível global permitia que, grande parte dos jogadores formados na casa, tivessem oportunidade depois ao nível dos seniores de competir com mais regularidade. Alguns desses jovens acabaram por singrar na modalidade e com certeza que deveria ser um modelo a considerar por outros clubes.

E como se deu o salto do Coimbrões para o SL Benfica?

No início da época 2004/2005, Adil Amarante assumiu o comando técnico da equipa do Benfica não tendo levado nenhum adjunto consigo e, um amigo que na época colaborava com a secção de Futsal indicou o meu nome ao Eng. Luís Moreira, que me fez o convite e acabei por ingressar no clube nessa época como treinador adjunto do Adil Amarante. Nessa fase inicial não poderei esquecer também o apoio que sempre me deram o André Lima e o Ricardinho, que contribuíram decisivamente para a minha continuidade no projeto do Benfica.

João Pedro, como referi na pergunta anterior, tens um passado ligado à modalidade em Portugal e principalmente no SL Benfica. Sentes que esse trabalho (primeiro como adjunto e depois como diretor desportivo), te deu um maior traquejo e experiência para seguires no futsal e arriscares novamente treinar equipas seniores?

Logicamente que o convívio diário com a realidade profissional me deu experiência e conhecimentos importantes para poder arriscar de novo a treinar, no entanto o mercado nacional é muito fechado ao nível de treinadores e apenas lentamente vão deixando entrar uma nova geração de treinadores que felizmente têm dado boa conta do recado como os casos concretos do Raul no Rio Ave, do Joel no Fundão (atualmente no SLB), do André Guimarães no Cascais, entre outros. No entanto não vivo obcecado com isso nem preciso do Futsal para viver.

Ou estás mesmo afastado da modalidade de que tanto gostas?

Neste momento não estou completamente afastado, pois tenho um projeto desportivo em fase inicial que desenvolvi paralelamente à minha atividade profissional. Em breve será apresentado oficialmente e tem a ver com o ensino do Futsal no 1º ciclo.

Voltando ao SL Benfica. Era fácil ganhar lá? Ou o trabalho realizado é que dava frutos?

Fácil não será com certeza. Aliás, o presente mostra que não é fácil conquistar títulos naquela casa, agora, obviamente que, se me perguntas se partimos à frente de todos os outros pelas condições que o clube nos oferece isso eu não tenho a mínima dúvida. Ganhar é uma sequência do trabalho e da estratégia que delineamos e orgulho-me de no tempo que estive no Benfica ter participado na conquista de 16 títulos oficiais.

Porque a passagem de Treinador adjunto a Diretor Desportivo? Foi uma opção tua ou do Clube?

Deveu-se sobretudo ao crescimento do clube a nível profissional e, naquela altura pela minha capacidade de organização e gestão, principalmente logística da secção. Acabou por ser uma passagem natural pelo facto do Eng. Luís Moreira não ser profissional e precisar de alguém para o ajudar nessa área. Enquanto ele esteve como responsável as decisões mais importantes a nível desportivo eram tomadas por ele, que foi sem dúvida alguma o grande impulsionador do Futsal no Benfica.

Após 9 anos a representar o SL Benfica, sais. Queres contar aos leitores do Desportivo Transmontano o porquê da tua saída, sendo tu o Diretor Desportivo de Futsal em Portugal com melhor currículo?

O Sport Lisboa e Benfica será sempre uma instituição que eu respeitarei. Prefiro acreditar que o desgaste da relação de 9 anos e a entrada de uma nova direção nas modalidades levou a uma mudança de mentalidade e projeto. As ideias que eu defendia para a constituição do plantel e estrutura técnica não eram as mesmas das pessoas que passaram a liderar e acharam por bem mudar toda a estrutura.
A única mágoa pessoal que levo tem a ver com o “timing” da saída, uma vez que ainda estávamos inseridos nas duas competições nacionais (Taça e Campeonato), e era possível no meu entender conquistar de novo todas as provas como na época anterior, uma vez que já tínhamos cumprido o objetivode vencer a Supertaça no início dessa época.

Em todos esses 9 anos ao serviço do SL Benfica, o clube ganhou sempre troféus. Será que essa pressão de ganhar pode inibir alguns jogadores, considerados de topo, a não conseguirem dar o máximo das suas potencialidades?

Logicamente que sim. Jogar no Benfica não é para todos e, felizmente durante o tempo que estive no Benfica lidei com jogadores de grande classe mundial e poucos foram aqueles que não conseguiram aguentar essa pressão. No entanto, admito que o campo de recrutamento para uma equipa como o Benfica não pode ser assim tão alargado como alguns entendidos na matéria defendem.

Sentes que, depois de tudo que deste ao Clube, ainda poderias ser uma “peça” importante no mesmo?

Isso não serei eu a avaliar. O que sei é que felizmente construi um currículo desportivo que não deixa dúvidas nenhumas em termos de títulos conquistados. Tive a felicidade de lidar com grupos excecionais de praticantes, profissionais do melhor que há no futsal mundial que me ajudaram também, porque para mim o mérito das conquista é divido por todos, a construir um currículo desportivo do qual muito me orgulho.

 

Estando há dois anos de fora, como tens visto a evolução do nosso futsal?

Nos últimos dois anos houve uma restruturação profunda de todos os quadros competitivos com a criação de várias provas e seleções, bem como a aposta na formação e feminino. Houve a captação de patrocinadores para a Liga e para o Futsal Português e agora fica a faltar que mais clubes como o Fundão, o Leões de Porto Salvo, o Braga, entre outros, façam apostas sérias na modalidade e consigam um crescimento sustentado que os leve a conquistar títulos como foi o caso do Fundão na época passada e o Belenenses no passado. O futsal português tem tudo a ganhar com a chegada de mais emblemas fortes à primeira divisão. No todo acho que o caminho trilhado vai-nos levar a bom porto, se bem que sou da opinião que a 1ª divisão com 14 clubes não é benéfica para esse acrescento de qualidade que se pretende. Agora há que esperar algum tempo para tirarmos as devidas ilações desta aposta transversal da FPF no futsal.

És a favor ou contra o término da 3ª Divisão?

Acho que o que se tentou fazer foi dificultar o acesso à primeira divisão criando um formato competitivo que permita selecionar de uma forma muito mais criteriosa as duas equipas que irão ascender de escalão. As pessoas do futsal sempre se “bateram” por ter pessoas do Futsal no centro de decisão da FPF mas o que parece é que somos sempre uns eternos inconformados. Deixemos quem foi eleito levar a cabo todo o seu plano e no final cá estaremos para as devidas avaliações. Uma coisa é certa para mim. Já se fez mais em dois anos do que na ultima década toda.

E sobre o Plano Estratégico da FPF para o Futsal, apresentado há dois anos a esta parte, achas que vai dar resultado?

Sinceramente,acho que sim. Há muita vontade da FPF em que este projeto resulte. Há investimento. Há cuidado na organização dos eventos. Há gente profissional apenas a cuidar do futsal. Tudo isto tem de dar frutos. Desde que com o andar da carruagem sejam feitos os devidos ajustes em todas as áreas, não tenho dúvidas que o plano Estratégico da FPF tem tudo para transformar o Futsal de vez na segunda modalidade em Portugal.

Em relação a Treinadores. Sentes que o mercado de escolha em Portugal gira sempre à volta dos mesmos, referindo eu aqui a 1ª Divisão?

Nos últimos tempos, alguns clubes, os mais organizados e com uma visão de futuro, já têm dado oportunidade a alguns jovens treinadores que demonstram qualidade. Outros, porém, continuam agarrados ao passado e por isso mesmo também os resultados ano após ano continuam a ser os mesmos independentemente do valor investido e das trocas constantes de plantel.

Durante estes dois anos, nunca pensaste em regressar à modalidade?

Sinceramente não tenho tido sequer tempo para pensar nisso. Numa primeira fase pensava que seria possível mas rapidamente me reorganizei e parti para novos desafios. A minha imagem no Futsal estará sempre ligada ao Benfica e à forma, algumas vezes polémica, como sempre defendi a instituição que defendia na altura. Mas não sou daqueles que me arrependo do que faço. Se fosse hoje agiria sempre da mesma forma e com a plena sensação que dei sempre o meu melhor em defesa do Futsal do Benfica.

Ou nunca existiu uma proposta dum projeto que te fizesse voltar?

Algumas abordagens do estrangeiro mas nada de estimulante que me fizesse deixar a família e partir para uma aventura incerta. De Portugal nunca houve nenhuma abordagem.

De todos os títulos que ganhaste, qual aquele que te deu um gostinho especial?

Ao contrário do que muitos possam pensar, não foi a UEFA FUTSAL CUP o título mais marcante para mim. Foi o mais importante, mas não o mais marcante. O mais marcante foi sem dúvida alguma o último título nacional conquistado. Quase ninguém internamente para além do nosso balneário acreditava nessa conquista e todos nós sabemos o que tivemos de sofrer e trabalhar para o conquistar. Mas sinceramente todos os títulos são marcantes em cada momento.

E de todas as equipas, qual a que marcou mais?

Respeitando todas as opiniões eu tenho a minha. Há dois anos em vários quadrantes, ouvi que o Sporting da altura era a melhor equipa de sempre do Futsal Português. Na minha opinião e respondendo à tua pergunta, uma equipa que tem: Zé Carlos, Bebé, Rogério Vilela, Zé Maria, Arnaldo, Pedro Costa, Ricardinho, André Lima, Joel Queirós e César Paulo; que à época dominava a seu belo prazer todo o futsal nacional com a conquista de três títulos nacionais consecutivos e uma UEFA FUTSAL CUP, tem de ser unanimemente reconhecida por todos como a melhor equipa de sempre do Futsal Português e consequentemente a equipa que mais me marcou.

Amigo João Pedro Ferreira, deixas-te algo por dizer que não tenha sido referido nas questões anteriores?

Apenas deixar-te um abraço e continuação do excelente trabalho que tens realizado.

 

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