Esta semana, o meu entrevistado é Hélder Martins, conhecido no futsal como “Cera”. Para mim, que tive a oportunidade de o treinar e o privilégio de conhecer, confirmo que, a margem de progressão, a técnica de baliza, o sentido tático e posicional na área e fora dela, a inteligência na leitura e na abordagem aos lances, a entrega e capacidade de sacrifício são atributos que este ainda jovem mas enorme Guarda Redes possui. Mais uma entrevista intimista do Desportivo Transmontano, trazendo um exemplo de que, com dedicação e sacrifício se pode conciliar o trabalho com lazer.

Cera, o teu percurso a nível de Futsal resume-se a dois clubes federados, Inter Tarouca e AJAB Tabuaço. Que diferenças encontraste entre os dois clubes?
As diferenças são imensas. Existe uma enorme diferença no que respeita a níveis estruturais e tudo isso implica uma série de coisas. Na AJAB Tabuaço existe uma estrutura mais forte, com melhores alicerces, com um maior número de pessoas. No Inter- Futsal Tarouca já não acontece tanto isso, vive-se um maior amadorismo. Isso implica que haja diferentes objetivos, diferentes investimentos e depois nota-se nas equipas que se conseguem formar. Claramente que, quando eu cheguei a Tabuaço notei uma enorme diferença nos métodos de trabalho, no grau de exigência que nos era imposto, os próprios adeptos são diferentes, pois sentem verdadeiramente o clube e isso impõe alguma responsabilidade aos jogadores.

Para quem tem poucos anos de futsal, já és um atleta com alguma maturidade e experiência. O que fizeste ou quem te ajudou para que num curto espaço de tempo evoluísses tanto?
Como é óbvio, quem muito nos ajuda são os treinadores. São eles quem nos vão dando confiança, são eles quem nos dão minutos de jogo, são eles quem nos corrige os erros e tudo isso ajuda-nos a crescer a todos os níveis. Quando cheguei a Tabuaço houve também colegas com quem aprendi imenso, colegas com uma enorme experiência e maturidade tal como: Hélder Resende, Barroso e o Ricardo Pinto. Foram atletas que já viveram muitas experiências futsalísticas ao mais alto nível e, quando tens pessoas como essas que te ajudam, tens todas as condições para também poderes ficar mais maduro e mais experiente.

Estás na AJAB desde a época 2012-13. Como tens visto a evolução da equipa após esse ano?
Quando cheguei à AJAB CT, sem dúvida que a equipa era muito forte, muito equilibrada. Na minha opinião, em termos qualitativos essa foi a melhor equipa que a AJAB teve desde que eu estou cá. Ano após ano a equipa tem sofrido alguns ajustes, foram saindo atletas que eram peças chave, mas por outro lado têm chegado da equipa de juniores, alguns jovens com imensa qualidade. Se por um lado se foi perdendo alguma experiência, por outro também se foi ganhando alguma juventude, pois eles serão o futuro do clube.

Sentes que a AJAB Tabuaço poderá, no futuro, alcançar o patamar mais elevado do nosso futsal nacional?
Sem dúvida quem sim. Há muitos jovens com qualidade na formação e, se eles encararem seriamente todos os minutos em que representam o clube, digo isto referindo-me a treinos e jogos, com mais alguns atletas que o clube possa trazer com alguma experiência, certamente que a presença da AJAB na primeira divisão poderá ser uma realidade.

Trabalhaste na tua ainda curta carreira com alguns Treinadores credenciados do futsal nacional. A aprendizagem com cada um deles foi-te favorável na tua evolução como jogador?
Claramente que sim. Todos os ensinamentos que venham de quem sabe mais do que nós e que tenham muita experiência na modalidade só nos ajudam a evoluir, e eu não fugi á regra. Aprendi imenso com o mister António Aires, que foi quem acreditou no meu trabalho e me convidou para que fosse jogar para a AJAB. Depois o mister André que nessa época trabalhava diretamente comigo, nos treinos específicos de GR. No ano seguinte trabalhei com o mister Fernando Parente, que foi alguém que me ensinou outras coisas novas e me foi ajudando a colmatar algumas falhas que tinha. Cada um à sua maneira, mas todos eles foram muito importantes na minha evolução. A todos eles aproveito para lhes deixar um Muito Obrigado.

Trabalhas numa empresa de Tarouca (muitas das vezes percorrendo o País) e jogas em Tabuaço. Com fazes para conciliar o teu trabalho com o lazer da modalidade?
Nem sempre é fácil, mas quem faz por gosto não se cansa. É desta forma que eu encaro cada dia de treino, cada dia de jogo. Tenho a sorte de trabalhar com pessoas que, para além de serem meus amigos, também são pessoas ligadas ao futebol e futsal, e isso torna tudo mais fácil. Por vezes, em conjunto com os colegas de empresa e com o patrão, tentamos sempre articular o trabalho da melhor forma para que todos nós consigamos depois do nosso horário de trabalho fazer o que mais gostamos. Sem dúvida que aos colegas e ao patrão tenho que lhes agradecer pela disponibilidade e compreensão que têm sempre que eu preciso de articular o trabalho para depois poder fazer o que mais gosto, que é treinar e jogar futsal.

Sentes que existe algum retorno positivo por parte de quem apostou em ti em relação aos sacrifícios e quilómetros que fazes para poderes dar o teu contributo à equipa?
Claro que sim. Sempre fui bem recebido e bem tratado. As pessoas que representam o clube desde sempre foram muito sérias e cumpridoras com tudo o que se comprometiam.

Em ano de transição nos campeonatos nacionais, de certeza que existe um objetivo em comum na equipa. E individual?
Neste momento o objetivo da equipa é claramente a manutenção. Pessoalmente o objetivo continua a ser o mesmo de alguns anos, chegar ao patamar mais alto do futsal nacional. É com esse objetivo que trabalho diariamente para evoluir cada vez mais.

Tens sido, opinião pessoal, um elemento preponderante pelas equipas que passas. Sentes que a pressão de não seres “filho da terra”, te leva a dares mais de ti num treino, num jogo, mesmo depois de um dia ou semana de trabalho sufocante?
Eu encaro tudo o que faço na vida da forma mais séria possível e o futsal não foge à regra. Dou sempre o meu melhor em todos os momentos que represento o clube, só assim se consegue fazer um trabalho sério com perspetivas de evolução.

Ou é apenas a pressão de ter de ganhar num clube onde já te podes considerar como um membro de casa?
Muitas pessoas já me consideram como tal. Claro que isso me trás mais alguma responsabilidade, ainda que não seja isso que em algum momento me possa afetar, pois como já referi dou sempre o melhor de mim em todos os momentos.

Apesar de novo, és para mim, um dos jogadores desta nova geração que pode chegar muito longe na modalidade, caso apostes na mesma e tenhas também a estrelinha da sorte ao teu lado. Sentes que a tua ambição te pode levar onde?

Pode-me levar até onde as pessoas me deixarem ir. A cada patamar que vamos conquistando um novo objetivo vai surgir. Trabalho de forma séria para um dia poder ser profissional de futsal e quem sabe conseguir uma chamada à seleção, mas para já vou só sonhando e trabalhando :).

Para mim, e não me canso de o referir, serás um dos Guarda Redes nacionais a ter em conta nos próximos anos, podendo mesmo vir a ser selecionável, desde que as pessoas em questão comecem a olhar para a segunda divisão, neste caso, com outros olhos. A tua margem de progressão, a tua técnica de baliza, o teu sentido tático e posicional, a inteligência na leitura e na abordagem ao jogo, a tua entrega e capacidade de sacrifício são enormes, és incansável. Alguma mágoa por ainda não teres dado o salto?
Mágoa? Não. Talvez ainda não tenha feito tudo bem para poder estar ao nível dos melhores e aí sim, poder chegar a outro patamar. Pode ser que no dia em que eu seja um GR mais completo, a dita estrelinha apareça e possa chegar mais longe.

Voltando ao Inter Tarouca. Era um dos clubes que apostava bastante na formação. Qual a razão para que não exista o salto qualitativo quando os atletas da formação passam a seniores?
Na minha opinião, quando alguns jovens se encontram no processo de formação como atletas, nem sempre encaram o trabalho que se faz da forma mais séria e isso vem a refletir-se mais tarde quando são chamados a integrar uma equipa sénior, onde o grau de exigência é maior, onde se começa a exigir resultados, situação que até ai, na maioria dos casos, não lhes era imposta.

O que falta, na tua opinião pessoal, para que o Inter Tarouca volte aos nacionais da modalidade?
Falta mais alguma organização em termos estruturais, mas também acima de tudo falta algum investimento. É, sem dúvida alguma, necessário que as empresas apoiem o clube e que os sócios marquem a sua presença e ajudem a associação. Nem sempre só a “prata da casa” chega para alcançar resultados positivos.

Noutro campo. Das várias Direções com quem lidaste, qual delas guardas melhores recordações?
Guardo boas recordações de todas. Cada uma à sua maneira marcou a diferença, mas muito sinceramente a direção que mais me marcou foi a que se encontrava em funções na minha primeira época na AJAB e que era liderada pelo Bruno Pereira. Foram pessoas excecionais e que me receberam muitíssimo bem, estando sempre disponíveis e presentes.

E na área do dirigismo, como é ser Diretor do Futebol de 11 do Tarouquense?
É ótimo. Ainda que o tempo seja pouco sempre que posso marco a minha presença. Sempre gostei do futebol, portanto faço-o com o maior gosto. O fato de fazermos parte de uma direção, quando estamos no papel de atletas ajuda-nos a perceber o enorme trabalho que um dirigente tem que fazer para que nada falte aos seus jogadores.

Amigo Cera, deixas-te algo por dizer que não tenhas referido nas questões anteriores?
Queria desde já agradecer-lhe pelo convite para responder a esta entrevista, sendo que o fiz com o maior prazer. Desejar-lhe os maiores sucessos desportivos e pessoais ao longo da vida. Agradecer a todas as pessoas que ao longo da minha vida me foram ajudando a crescer como atleta, mas também como ser humano: treinadores, colegas de equipa e amigos que, sem dúvida, algumas vezes mesmo estando de fora nos vão dando bons conselhos. Agradecer também à minha esposa por estar ao meu lado em todos os momentos. Um muito obrigado ao Desportivo Transmontano por esta oportunidade.

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