Fernando Parente esta semana entrevista Bruno Salgado, selecionador de Futsal da AF Madeira.

Bruno, mais um treinador “made in” UTAD e AAUTAD a dar cartas no panorama do futsal nacional. Como nasceu o teu gosto pela modalidade?

Fiz uma época aos 15 anos no Vila Verde porque estava farto de Futebol. Entretanto só na UTAD é que levei mais a sério a possibilidade de aprender a jogar futsal.

Foste formado na equipa do Vila Verde de Sintra e, logo no teu primeiro ano de sénior, após a tua entrada na universidade, jogas na 2ª divisão pela AAUTAD, jogas também pela equipa universitária e ao mesmo tempo eras treinador dos Juniores B da equipa universitária. Já aí sentias que o teu futuro iria passar pela modalidade ou na altura era a coincidência de estares no curso de Ed. Física e Desporto, na opção de Futsal?

Como é natural, as dúvidas entre a opção futsal e futebol eram normais, até porque era o primeiro ano que abria a opção. Mas essas dúvidas desapareceram na primeira aula!!! No início pensava em jogar apenas na equipa Universitária, mas surgiu a hipótese de competir na segunda divisão e aproveitei para complementar com as aulas da opção, o que foi muito bom para mim. Nessa altura era futsal de manhã até à noite e fins de semana também e aí senti que o meu futuro poderia passar pelo Futsal.

Sentes que a AAUTAD foi um enorme passo para ti na modalidade, com a cadeira de opção na altura a ser lecionada pelo Selecionador Nacional, Jorge Braz?

Foi um passo gigante. Ter alguém com a qualidade e a visão do Prof. Braz leva-nos a pensar que podemos chegar sempre mais à frente. Fiquei viciado no Futsal muito por culpa do Prof. Braz e aprendi muito com ele.

Vais para estágio e sais da tua zona de conforto. Ir para o Alpendorada no ano 2003-04, ser adjunto do José Vasconcelos (atual treinador do ADC Gualtar da Liga Sportzone) e seres treinador principal dos juniores A do FC Alpendorada, confirmou a tua vocação para a modalidade?

Saí da zona de conforto e de que maneira!!! Alta competição, muita exigência e a possibilidade de delinear os treinos semanais para uma equipa de primeira divisão foi sem dúvida uma experiência muito boa. Quero desde já agradecer ao Mister José Vasconcelos pela oportunidade que me deu.

Na época seguinte, regressas a casa para liderares a equipa de Juniores A do Vila Verde. Opção, saudades?… Diz-me o porquê deste regresso quando possivelmente já estarias bem encaminhado no FC Alpendorada?

Quando fui para Alpendorada estava a estagiar na escola secundária de Cinfães (30km). No ano seguinte não houve concurso de professores a nível nacional, por isso já sabia que ia para o desemprego. Na altura não havia condições para viver só do futsal e por isso decidi voltar a casa.

Ainda em relação à AAUTAD. Que recordações guardas daquele balneário sagrado?

Muitas recordações e quase todas boas.

Era uma equipa especial e diferente de todas em que já estive. O ambiente universitário à volta da equipa torna-a distinta e as pessoas que dirigiam e comandavam a equipa estavam de corpo e alma, sem outros interesses. Toda a gente estava para aprender e dar o melhor pela Universidade. Também me recordo do Barril azul do gelo (que sofrimento)…

Trabalhaste como referi atrás, como adjunto do José Vasconcelos no FC Alpendorada. Foi uma boa aprendizagem o ano que passaste ao lado dum dos treinadores mais conceituados do nosso país?

O José Vasconcelos é um excelente treinador. Na altura, tudo o que sabia de futsal era a visão do Prof. Braz e do Prof. Palas. Depois, a forma de trabalhar e gerir o grupo do Zé era diferente e abriu-me os horizontes para outras alternativas de treino e jogo.

Sais do Vila Verde e apostas fortemente na tua carreira de professor, de treinador e jogador na Madeira, onde hoje ainda resides, lecionas e treinas. Segues para o Marítimo, onde acumulas em épocas distintas o ser jogador com o ser treinador do mesmo clube. Não era complicado poderes gerir um balneário quando também fazias parte do mesmo?

Por acaso não foi complicado e correu tudo bem, mas admito que pode ser complicado com certos grupos de jogadores. Tive a sorte de apanhar no Marítimo um grupo de pessoas com vontade de aprender e vencer, o que tornou tudo mais fácil. Como o Futsal na Madeira não estava muito desenvolvido na altura e devido à falta de treinadores com formação específica em Futsal, a opção de ser jogador e treinador encaixou bem.

O Clube Sport Marítimo, que tu conheces bem, poderá um dia vir a ser um dos grandes do nosso futsal?

Está no top 10 do país em termos de condições físicas e estruturais para ter até uma equipa profissional!!!. Tem um pavilhão muito bom e muita gente na estrutura do clube a trabalhar, tem todos os escalões de formação e estão a construir de raíz uma base muito interessante. Penso que falta um pouco de investimento financeira para chegar rápidamente à 1ª divisão. Aí talvez as pessoas que gerem o clube se envolvam mais com a modalidade.

Ou sentes que da maneira que a competição das duas divisões nacionais está organizada e estruturada, que vai levar mais tempo para isso acontecer?

Sinto que vai ser difícil se não houver uma mudança de mentalidade e não pela forma com está organizada a segunda divisão.

Que opinião tens do Plano Estratégico para o Futsal da FPF, que teve início no ano 2012 até ao final desta época, tendo em conta a realidade que existe nas Ilhas a nível da modalidade?

A equipa técnica nacional e a FPF têm feito um excelente trabalho na promoção do futsal e principalmente no desenvolvimento do futsal de formação. Aqui na Madeira a formação está praticamente a começar, e as seleções jovens só participaram pela primeira vez o ano passado, mas permitiu que o número de equipas na formação aumentasse (porque todos querem ir à seleção). Conseguimos levar um jogador à seleção nacional sub-19 (Paulinho) e desta forma os miúdos têm um exemplo a seguir.

Apesar de neste momento seres Selecionador Regional do Futsal dos Sub-19 femininos, sub-15 e sub-17 masculinos da AF Madeira, como vês a Série Açores no Campeonato Nacional da 2ª Divisão?

A série Açores apenas existe por causa dos problemas financeiros com as viagens. Isso é bem visível para quem vive nas ilhas (até porque já tentaram fazer série Madeira e não deu resultado). Na minha opinião não resolve o problema.

 Não seria mais benéfico para a equipa que foi campeã na época transata no campeonato distrital dos Açores, participar este ano numa série continental, tal como acontece com a equipa representante da AF Madeira?

Sim, concordo com isso, mas tal como referi anteriormente, o problema das viagens…(é complicado).

Como referi, além de seres Selecionador Regional, és Professor destacado na Associação de Futebol da Madeira tendo em vista a coordenação do Futsal na Região Autónoma. Sentes que a médio longo prazo, o trabalho que exerces vai dar frutos?

Já deu frutos a curto prazo, até porque nunca tinha estado ninguém ligado ao Futsal na Associação de Futebol da Madeira´e as pessoas começam a ver o Futsal com outros olhos. A aposta do presidente Rui Marote e do Coordenador técnico Humberto Fernandes é aumentar o número de praticantes e tornar a maior modalidade de pavilhão na Madeira. Falta um longo caminho, mas neste momento já invertemos a pirâmide e temos mais equipas e praticantes na formação do que nos seniores. Só assim, a longo prazo conseguimos melhorar a qualidade aqui na Madeira.

Vais estar presente no próximo torneio de Seleções Distritais que se vai realizar no próximo fim-de-semana em Vila Real, Vila Pouca de Aguiar, Peso da Régua e Pedras Salgadas. Sentes que, com estes encontros, a diferença a nível competitivo das seleções das Ilhas é cada vez menor para as continentais?

O ano passado conseguimos bons resultados em termos de evolução dos jogadores. A diferença maior está com as seleções mais fortes (Lisboa, Porto, Leiria, etc.) porque já têm outro conhecimento do jogo. Mas ainda estamos num processo inicial aqui com as seleções e só daqui a três anos é que se consegue apurar a evolução destes jovens (muitos deles só têm um ano de Futsal). Os miúdos aprendem mais no interassociações do que em dez jogos do regional, e é isso que me interessa neste momento.

Uma das perguntas que faço em todas as minhas entrevistas, para quem passou por esta casa. O que achaste na altura do desaparecimento da equipa de futsal da AAUTAD?

Foi uma pena, porque para mim era uma referência do bom trabalho, da qualidade. Era a prova de que era possível chegar longe sem ter grandes investimentos financeiros, mas investindo nas pessoas.

Amigo Bruno, deixas-te algo por dizer que não tenha sido referido nas questões anteriores?

Queria só dar-te os parabéns pelo trabalho que tens feito pela promoção do Futsal. Esperemos que a Madeira transforme o enorme potencial que tem em grandes jogadores de Futsal, para que desta forma possa ir mais vezes ao continente! Abraço.

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